Ventura: 05 – Volta (Parte 3)

Fomos para o ponto e pegamos o ônibus, rumo a minha humilde residência. Sentamos lá trás e matamos mais ainda a saudade dos beijos, durante toda a viagem, até chegar ao ponto perto de onde moro. Quando descemos, acho que nem reparou que era perto de onde nos encontramos na terceira vez. Mas que diferença faria agora se já estava indo diretamente a minha casa?

Paramos no portão de entrada do meu prédio, que logo foi aberto quando o porteiro me identificou. Cumprimentei-o enquanto caminhava até a porta do elevador. Apertei o botão.

– Nunca iria imaginar que mora num lugar como esse.

– Minha tia disse a mesma coisa. – ri ao lembrar de quando minha tia veio conferir de perto onde tinha me engalfinhado.

– Por quê? – franziu a testa.

– Pra ela, escritor e músico são termos novos pra vagabundo.

Soltou sua gargalhada, que logo foi silenciada pelas suas duas mãos. O elevador chegou e entramos.

– Qual andar, seu bobo? – pergunta levantando a mão direita na direção do painel.

– Nono.

Aperta o botão.

Enquanto subíamos, ajeitava o cabelo se olhando pelo espelho que tinha no fundo do elevador.

– Você não disse o que achou do meu novo corte de cabelo. – me olhava pelo espelho.

Virei-me, olhando-a através dele:

– Não sei se já te disse, mas sou fã de cabelos ondulados ou encaracolados.

– Já imaginava. – sorriu voltando a atenção para os cabelos. – Mas estava na hora de mudar. Veja só você. – virou-se de frente. – Também mudou bastante. – olhava-me dos pés à cabeça.

– Pois é. Já você, mesmo com esse corte novo ainda parece ter vinte anos. – beijei-lhe a testa. – Linda!

– Quem me dera. – sorriu com os olhos fechados. – Já estou começando a sentir o peso da idade. – brincou com uma das mãos nas costas e a outra, tremendo, simulando estar segurando bengala, simulando senhora de idade.

– Queria eu ainda aparentar vinte anos, agora que estou nos trinta e com essa cara de trinta. – brinco aos risos.

– Fica tranquilo que ainda está um gatão bem sexy.

O elevador para no nono andar. Tiro minhas chaves do bolso e abro a porta do apartamento novecentos e três, que estava uma bagunça só. Roupas espalhadas por toda a sala, no chão perto da janela, no sofá, em cima da TV, do rádio…

– Realmente é a casa perfeita de um homem solteiro. – diz olhando tudo ao redor, antes mesmo que a pedisse para não reparar a bagunça.

– Sabe como é, né? Minha casa não está acostumada a receber visitas ilustres e inesperadas. – faço graça.

Mesmo que dissesse para não reparar a bagunça, de que adiantaria? Quem tem o hábito de reparar, repara. E quem não tem, às vezes repara só por que você salientou a ideia de não reparar. Mas é inevitável não soltar sem querer esse maldito “Só não repara a bagunça”. Quando somos criança, de tanto ouvirmos os adultos dizendo, a gente abstrai esse hábito e fica difícil largá-lo depois de velho. Raramente quando me lembrava disso, ao receber visita, brincava dizendo o contrário: “Repara a bagunça”. Foi assim que perdi o hábito.

Fui colhendo as roupas espalhadas e jogando-as no meu quarto. Sentou no sofá enquanto fui até o minibar que tinha perto da janela. Peguei a primeira garrafa de Jack, dois copos e coloquei na mesinha que tinha na frente do sofá.

– Vou pegar gelo na cozinha. Vê se não some daqui. – brinquei.

– Não vou. – sorri. – Pode ter certeza.

Chegando à cozinha, enquanto abria a geladeira e tirava a fôrma de cubos de gelo, vários pensamentos me rodearam a cabeça. Se ouvisse qualquer barulho na sala ou da porta, ela teria partido. Rapidamente joguei os cubos de gelo dentro do pequeno balde metálico com um pegador dentro e voltei para a sala. Foi um alívio vê-la ali, linda, comportada e sorridente, a me olhar do sofá. Coloquei o balde entre os copos e sentei ao seu lado. Duas pedras de gelo para mim, mais duas para ela e enchi nossos copos até a metade.

– Um brinde ao nosso reencontro. – diz erguendo o copo no ar, sem rodeios.

Sempre tomava a iniciativa nos nossos brindes e eu sempre concordava. Dessa vez:

– E ao meu livro.

– Exatamente, ao seu livro. Como poderia me esquecer? – bateu de leve na testa.

Peguei o controle do rádio em cima da mesa e liguei na MPB FM, minha estação predileta. Som ambiente e nós dois ali no sofá, bebendo Jack Daniel’s. Que maravilha! Só ficaria melhor se dissesse que queria ficar comigo, e de agora em diante, até que a morte nos separe.

– Apesar da bagunça, sua casa é bonita. – brinca olhando para as cortinas vermelhas que balançavam bastante por conta do vento. Sempre esqueço as janelas abertas quando saio. Já perdi as contas de quantas vezes cheguei e encontrei o chão húmido e fedorento.

– Dá pra chamar de lar. – brinco.

– Fico feliz pelo seu livro.

– Como me achou?

– Vi a divulgação no jornal. – sorri. – Não resisti e fui lá hoje só pra te ver. – baixou os olhos para o copo.

Silêncio.

– Quando peguei o livro e li a sinopse. – calou-se por alguns segundos, brincava de girar as duas pedras no copo com o dedo indicador. – Você se baseou no que vivemos, não? – olhou-me.

Apenas sorri ao ouvir aquilo. Com certeza seria a única pessoa que saberia daquilo, além de meu assessor e eu, como já disse antes. E o mais incrível, era que nem foi preciso lê-lo, foi só pela rápida lida na sinopse.

– Gostou do seu nome?

– Gostei. Do seu também. Mas prefiro Logan. – sorri.

Levantei e peguei o cinzeiro que estava em cima do rádio. Coloquei em cima da mesa e sentei novamente. Acendi o cigarro. Quando a olhei, ela desviou o olhar para o copo de uísque na mão. Lembrei-me da Zebra. Fui ao meu quarto, peguei-a e voltei:

– Nós sentimos sua falta. – digo erguendo a Zebra com uma mão.

– Zezé! Você a guardou. – seus olhos brilharam. – Nossa querida amiga Zebrinha! – parecia criança com as mãos juntas rente ao queixo.

Sentei ao seu lado e entreguei-lhe o bicho de pelúcia.

– Ela tem me feito companhia desde aquele dia. Por que foi embora? – eu e minha maldita mania de não saber a hora de matar a vida do gato.

– Sei que foi estúpido o que fiz. – olhava para a Zebra em seu colo. – Mas eu estava com medo de me envolver mais do que devia ou do que podia.

Silêncio. Ela acendeu seu cigarro.

– Sei que só piorou minha situação, pois desde então eu só consigo pensar em você. – me olhou com os olhos marejados. – Sinto falta de tudo!

Não sei como, mas ouvir aquilo me fez bem e nem quis ouvir mais nada. Agarrei-a e nos beijamos ali mesmo no sofá, fazendo sanduíche na pobre Zebra. Seu copo caiu no chão derramando uísque e as duas pedras de gelo no tapete:

 – Seu tapete! – sussurra entre os beijos, olhando para o chão.

– Não importa! – calei-a com um novo beijo. – Essa Zebra que está machucando a minha barriga. – digo puxando o bicho de pelúcia e colocando em cima da mesinha com o rosto virado para a janela.

O calor foi rapidamente se intensificando. Tirávamos nossas roupas às pressas, feito dois desesperados e como se fosse algo que nunca deveria estar sobre a pele. Joguei longe as almofadas, conseguindo assim, mais espaço no sofá. Era a primeira vez que seu beijo tinha gosto da minha bebida predileta: uísque! Combinação perfeita, pois mesmo assim, ainda era aquele beijo maravilhoso que só encontrava naqueles lábios, naquela mina de ouro: os lábios da minha Deusa Dominique. E a cada “Que saudade que eu estava disso” sussurrado no ouvido, eu ficava mais louco de prazer. A casa foi ficando ainda mais bagunçada e pequena, conforme fomos matando a saudade em todos os cômodos e objetos que proporcionavam certo apoio para um de nós.

Minha Deusa estava de volta, e agora não iria mais deixá-la partir. Não mesmo!

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