Ventura: 06 – Quebrou (Parte 1)

Quando acordei, estava deitado de lado e de frente para a parede da janela. Assim que dei conta da realidade, estiquei o braço para trás. Inevitavelmente, sorriso de orelha a orelha já pela manhã, ao sentir minha mão tocar no belo e macio par de coxas de Dominique. Não foi sonho. Ajeitei-me, virando de frente para ela debaixo do edredom, que dormia feito anjo em sono profundo. Passei a mão direita lentamente pelos seus cabelos, tirando as mechas caídas em seu rosto. Sabe aquele suspiro apaixonado que envolve alegria, orgulho e uma penca de sentimentos bons? Soltei um desses naquele momento. E depois de alguns minutos contemplando-a, beijei-lhe a testa e levantei da cama, ainda com aquele sorriso de orelha a orelha, parecia estar com cãibra facial.

Só quando saí do quarto, vi a hora. Eram oito horas da manhã e o cheiro da noite anterior ainda se fazia presente na sala. Abri bem as cortinas (as janelas já estavam escancaradas desde o dia anterior) e fui até a cozinha preparar o café da manhã. Rosquinhas amanteigadas com café bem quente e amargo que só eu sei fazer. Não tem nada de especial, a única diferença é que em qualquer lugar sempre prefiro o meu. Coloquei na bandeja e voltei ao quarto. Deixei a bandeja no criado mudo, tirei de leve o edredom, deitei ao seu lado na cama e a acordei com beijos estalados subindo a sua barriga.

– Bom dia. – digo assim que se mexe, anunciando ter acordado.

– Bom dia. – com a voz embriagada de sono, se espreguiçando, sem abrir os olhos. – Que horas?

– Vai dar oito e meia. – pego a bandeja e me ajoelho ao seu lado. – Preparei o seu café da manhã.

Abriu os olhos, conferiu o que tinha na bandeja e sorriu. Ajeitou-se na cama, sentando e terminando de se espreguiçar. Enrolou parte do edredom nas pernas e coloquei a bandeja sobre elas. Como estava linda com a minha camisa preta com a cara do John Lennon em preto e branco estampada na frente, e que nela, mais parecia vestido largo. Era a minha camisa predileta no corpo de uma Deusa. Quer combinação melhor? Se fosse embora, não lavaria aquela camisa… Nunca! Mas, espera, não vai, prometeu não ir.

– Você é um amor. – me beija. – Adoro essas rosquinhas amanteigadas.

Foi logo pegando a xícara de café e enfiando três rosquinhas no indicador da outra mão. Enquanto mastigava, vez ou outra assoprava o café e sugava, fazendo pouco barulho. Já eu, quase não comia, bebia meu café e ficava olhando-a, com a cara amassada, os olhos lutando para se manterem abertos, parecendo até japonesa, e a fome por rosquinhas amanteigadas.

– Muito suculentas. – diz com a boca cheia. – Qual é a marca?

– São de fabricação caseira. – digo depois de boa soprada no café. – Há muito tempo atrás comprei um pacote com uma senhora no ônibus… Daí sempre que a encontro eu compro muitos, pois são realmente deliciosas.

– Tem bastante aí? – pergunta antes de levar outra à boca.

– Sim, fique à vontade para comer quantas quiser.

– Posso levar algumas?

– Sim. – ri, achando graça dela agindo feito criança comendo especiarias da vovó antes de ir embora.

Assim que terminou, levantei e coloquei as xícaras vazias na bandeja.

– Vou à cozinha e já volto. Quer mais alguma coisa? – pergunto todo prestativo e com bom humor além do normal.

– Pega meu maço na sala? – sorri angelicalmente enquanto se espreguiçava novamente.

– Tudo bem.

Fui até a cozinha e coloquei a bandeja na pia junto do monte de louça acumulada. Na volta, passei na sala, peguei nossos maços, o cinzeiro e fui ao quarto, acendendo meu filtro vermelho no caminho.

Quando entrei, lá estava ela dobrando o edredom que nos confortou o sono durante a madrugada. Agora dava para ver melhor o quanto estava linda com aquela camisa. A visão melhorava quando levantava os braços erguendo o edredom para dobrá-lo ao meio e aparecia sua calcinha branca de renda, me dando uma bela visão daquele belo par de coxas e aquela bunda empinada. Coloquei seu maço e o cinzeiro no meio da cama e sentei, observando-a calado.

– Estou curiosa sobre seu livro. – diz laçando o edredom dobrado com o braço esquerdo.  – Como se baseou no que vivemos… – abre o armário. – Não posso me conter só com a sinopse. – enfia o edredom no primeiro espaço que encontra e fecha o armário.

– É só ler o exemplar que comprou.

– Não lembra que já lhe disse sobre eu não ser muito chegada em leitura? – virou-se de frente para mim com as mãos na cintura, fazendo cara engraçada de como se fosse minha obrigação saber que não iria ler livro algum, independente dele ser meu ou não. – Você não pode me contar a história toda?

Involuntariamente desligado, com os olhos presos as suas coxas, não digo nada.

– Logan? Olha pra mim. – acena aos risos na direção do próprio rosto. – Eu estou aqui em cima. – estala os dedos múltiplas vezes.

– Oi? – olhei-a.

– Me conta a história do livro, Logan. – leva as mãos à cintura e fica batendo o pé direito no chão. Pirracenta.

– Mas a graça toda está em lê-lo. – amasso o cigarro no cinzeiro. – Não é tão grande. – volto minha atenção para ela. – O que custa lê-lo, Nick?

– Se eu for parar pra ler, vou demorar quase um ano. – ajoelhou-se na beira da cama. – E é bem capaz de não terminá-lo. – deitou-se sobre minhas pernas. – Conta, vai.

Não tinha como não contar. Mesmo doendo um pouco saber que nem um livro meu com um pouco de nossa história ela leria. Também não tinha como resistir àquela cara que fazia, conseguiria até fazer com que eu comprasse o mundo todo só para dar-lhe de bandeja.

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