Ventura: 06 – Quebrou (Parte 2)

– Tudo bem. Tudo bem. – me ajeito na cama.

– Oba! – comemora deitada erguendo os braços para o ar.

Fiquei quase duas horas contando a história do livro. Até que foi bom contar e ir reparando as suas reações faciais até a metade da narrativa, pois fui me empolgando e meio que só conseguia me concentrar em imaginar as cenas e continuar narrando. Os impactos que algumas partes a causavam, eram bem interessantes e às vezes intrigantes. Notei também que, por mais que o livro fosse meu, eu gostava bastante da história vivida por Pierre e Marie. Mesmo sabendo que pode vir a ser tachado como certo clichê, de que já existem livros parecidos e tudo mais. Na verdade, via como contado com outros olhos ou vivido de forma diferente, pois nada é totalmente igual. Não sei explicar e não acho necessário perder tempo explicando isso. Concorda? Até por que, quem nunca viveu uma história igual, e ao mesmo tempo diferente, à de outra pessoa?

– O que achou? – pergunto assim que termino de contar, estranhando sua expressão séria, já que o final da história é bonito e feliz. Final feliz! Oh! Happy day…

Nesse momento fiquei pensando se não deveria ter feito um final feliz que fizesse o leitor chorar de emoção. Se ficassem, no fim do livro, com o mesmo semblante que tomou conta do rosto de Dominique, iria cair nas garras da crítica negativa e não venderia nada conforme os leitores repassem sua experiência com o livro.

– Gostei… – desvia os olhos para o teto. – Realmente é uma boa história.

– Não é o que sua expressão facial está dizendo.

– É que estou impressionada com a história. – cruza os braços, pensativa.

– Que bom que gostou. Eu acho uma pena só metade do livro ser baseado na gente. – brinco. – Mas quem sabe o próximo não seja completo? – beijei-lhe a testa. – Talvez a continuação… Já pensou? Pode se chamar Ventura, por conta de tudo que já aconteceu e tem acontecido.

Sorri. Pega o maço na cama, levanta e vai até a janela do quarto. Abre as cortinas e a janela. Fico observando-a como bem gostava fazer. Tira um cigarro e depois de um tempo olhando para dentro do maço, vira-se na minha direção e:

– Pode jogar o isqueiro? – estende a mão.

– Segura. – pego e jogo em ângulo alto.

Pega no ar. Acende o cigarro e joga o isqueiro de volta na cama. Debruça na janela, cruzando os braços no mármore. Segurava o maço na mão esquerda, o cigarro na direita e olhava para a rua.

– A vista daqui de cima é bem bonita.

– Realmente. De noite é melhor ainda. Principalmente quando o céu está bem estrelado. – me levanto e vou até ela. – Se dormir aqui de novo, pode conferir.

Solta um riso baixo e frouxo. Abri mais a janela e apoiei meu cotovelo direito no mármore, ficando de frente para ela, ao seu lado. Virou o rosto para mim e ficamos calados, olho no olho. Como aquela mulher era linda até sem maquiagem. Lembro que certa vez um tio meu disse que só se tem certeza que uma mulher é linda, depois de vê-la acordar e sem vestígio algum de maquiagem, nenhuma máscara. E é verdade, garanto. Tinha acabado de ter essa certeza quanto ao que ele me disse. Nunca fez tanto sentido, nem já havia reparado isso nas outras mulheres que me envolvi. O sol ainda fazia questão de tocá-la de um modo que deixava bem mais nítidos os seus suaves e belos traços faciais. Como ela era bem desenhada: sobrancelha bem feita; lábios amarronzados e sem batom; cabelos alvoraçados e já perdendo a prancha; nariz fino, pequeno e um pouco arrebitado; na bochecha, mesmo sem sorrir já esboçava um pouco daquelas covinhas que tanto sou fissurado e apaixonado.

– Logan… – diz acabando com a minha viagem.

– Diga.

– Os personagens são baseados em nós dois. – junta as sobrancelhas. – E metade do livro… No que vivemos. – Seu rosto estava ainda virado para mim, mas seus olhos pareciam buscar algo na rua. – Certo?

– Correto!

– O Pierre é você cuspido e escarrado. – olhou-me. – Não é?

– Nem tanto. Por quê?

– Você também se apaixonaria por uma garota de programa? – pergunta com expressão séria.

– EU? – bati no peito, me espantando com a pergunta. – Me apaixonar por uma puta? Lógico que não! Está maluca, Dominique? – solto gargalhada quase maléfica. – No livro é no livro. – me debruço no mármore, olhando para o anúncio na traseira do ônibus parado no ponto. – Nessa parte já sou completamente diferente do Pierre. Muita coisa até! Onde já se viu, se apaixonar por mulher que faz sexo por dinheiro, que não se preza, e se duvidar, pode ser uma casa de doenças sexualmente transmissíveis? Loucura! Quem se arriscaria a isso na realidade, fora de um livro? Hipocrisia dizer que sim! Ainda mais por que, com certeza, é muito difícil uma mulher dessas se apaixonar por alguém. Só em livro e filme que essas coisas acontecem… São fantasias… Mera ficção. Realidade é realidade. – olho um rapaz ajudando a senhora atravessar a rua. – Fora que, quem vai querer estar com alguém, que algumas horas atrás fez sexo com outro ou outros? Que tem uma enorme lista de homens no currículo e na cama… Sinceramente eu não teria essa coragem toda. – solto outra gargalhada, achando graça daquela ideia. – Também tem o fato de que… Quem vai querer ser um corno assumido? Concorda comigo? Bate aqui. – e me viro com a mão no ar esperando um high five.

Silencio.

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