Ventura: 06 – Quebrou (Parte 3)

Quando a olho, seus olhos estavam arregalados e cheios de lágrimas, a mão esquerda na boca e a direita pousada ao coração. Seu rosto parecia cachoeira. Falei tanto que não sabia se tinha dito algo de errado ou se tinha exagerado. Será que fui extrapolei no meu eu preconceituoso? Será que não foi boa ideia a Marie ser puta na ficção? Cheguei a pensar na hora, mas já deve ter percebido, não? Às vezes fico pensando que qualquer pessoa já teria percebido e que sou inocente, no fim das contas. Se duvidar, percebeu lá no primeiro, segundo capítulo, enquanto eu, só percebi agora, no sexto capítulo… E ao vivenciá-lo. Trágico.

– O que foi? – pergunto assustado com a cena.

Dominique cai de joelhos no chão com o rosto mergulhado nas mãos. Chorava e soluçava. Fiquei tão assustado que a única coisa que me passava pela cabeça era que tinha dito alguma merda. Sempre digo. Me empolgo e vou, vou… Até dar merda. Por que não agora? Ajoelho-me e a abraço.

– O que… – dizia até ela me empurrar com força.

– Sai de perto de mim, seu monstro! – gritou histérica.

Fiquei em estado de choque, sentado no chão e vendo-a ali naquele estado. Não estava entendendo patavinas do que estava acontecendo. É difícil de acreditar, mas realmente a ficha só começou a cair quando ouvi da sua boca, com todas as palavras:

– Eu sou garota de programa, Logan! Garota de programa! – gritava esmurrando forte o próprio peito.

Foi aí que comecei a perceber que Pierre realmente era eu cuspido e escarrado, como ela disse.

– Não! Você não é. Não é só por que eu coloquei no livro, que eu acho que você seja. Não pense uma coisa dessas, Dominique. É só um personagem, não tem nada a ver.

Tentei abraçá-la outra vez, mas começou a me bater descontroladamente.

– Sai de perto de mim! Sai de perto de mim, seu ogro machista e primata! Homem das cavernas! – gritava. – Você me acha suja, sem sentimentos e uma casa de doenças sexualmente transmissíveis. – foi ficando cada vez mais difícil.

Na primeira brecha consegui imobilizá-la em meus braços. Debatia-se, gritava e tentava sair, mas a prendia firme. Era a única coisa que consegui pensar em fazer naquela situação, enquanto digeria a informação lentamente. Calado, apenas ouvindo a voz em minha mente dizendo repetidamente: “Ela é prostituta! Larga ela! Apaixonou-se por uma puta, assim como no livro! Otário! Babaca! Seu merda! Se fodeu!”. Não sabia o que fazer muito menos o que dizer. Se falasse alguma coisa naquele momento, com certeza, por conta daqueles pensamentos, diria algo como: “Caralho! Não é que você é puta mesmo!? Que merda, hein, Dominique!?”.

Quando começa a se acalmar, a solto. Levantou-se ainda chorando, mas sem soluços. Tirou a camisa, jogou no chão e saiu do quarto. Continuei imóvel no chão. Olhei a camisa e senti nojo, assumo. Automaticamente aquela voz na cabeça disse: “Uma puta usou tua camisa predileta do John Lennon! Veste lá, otário”. Peguei a camisa e joguei do outro lado da cama, para que não ficasse diante dos meus olhos. E a voz continuava: “Uma puta deitou na tua cama, e pior, contigo! Se apaixonou por uma vagabunda!”. Parecia até loucura. Mergulhei a cabeça nas mãos, não conseguia olhar para nenhum canto do quarto, só para o escuro que se faz presente quando os olhos se fecham, se escondem das cores à nossa volta. E como eu queria me esconder naquele momento. Sentia vergonha de mim mesmo por me ter permitido tamanha “gafe”.

Um filme começou a passar em minha cabeça. Meu subconsciente realmente tinha tirado a hora para pregar peça e me enlouquecer. Começou me lembrando de quando a conheci e foi seguindo adiante. “Aquele homem grude devia ser algum cliente ou o cafetão! Um dos dois, com certeza! Na segunda vez, ela devia estar indo trabalhar quando a encontrei no ônibus, por isso que pediu dinheiro para o táxi. Às vezes ficou com vergonha de dizer que era pelo serviço prestado, e não pela condução. Naquele dia no bar, devia estar fazendo ponto e esperando aparecer algum cliente bacana. Na quarta vez… Deve ser por isso que ela foi embora… Se cansou de ficar fazendo tantos serviços gratuitos. Pode ser, também, que achava que eu era algum bacana rico que ela poderia enganar e dar golpe ou qualquer coisa do tipo, mas quando viu que era mero escritor fracassado, sem futuro e sem muito a oferecer, resolveu partir. Daí agora que soube desse livro, com toda aquela divulgação, deve ter imaginado que minha vida ia dar AQUELA elevada financeira. Filha da Puta! Não, espera… Filha puta!”

Voltei para o quarto quando apareceu no portal da porta, toda arrumada e preparada para ir embora. Não conseguia olhá-la na cara, só para a sombra que seu corpo fazia na frente do armário.

– Eu vou embora Logan. – fez uma pausa. – Não precisa se preocupar, pois a puta aqui vai sumir da tua vida… Eu prometo!  Não precisa amar uma puta cheia de doenças. – fungada de nariz. – Mas fique sabendo que lá fora há uma puta que te ama… Se um dia você conseguir lidar com isso e perder esse preconceito escroto… – outra pausa. – Me procura e a gente conversa… Mas dependendo do quanto demorar, eu posso realmente não voltar! Tchau!

Saiu. Quando ouvi a porta da sala bater forte, comecei a chorar igual criança que pagou caro em doce estragado. Demorou, mas o brinquedo quebrou. Papai estava certo, é coisa de gente grande.

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