Ventura: 07 – Aparências (Parte 1)

Horas deitado no chão do meu quarto, pensando nas últimas horas que vivi e repensando os últimos encontros que tivemos. Como podia tudo melhorar e piorar radicalmente em menos de vinte e quatro horas? É incrível! Quando nos reencontramos ontem tudo estava tão surreal. E agora estava em queda livre no mais obscuro poço sem fundo, e, sabia mais do que ninguém, que não haveria mão para segurar, me puxar ou evitar a minha queda. Só restava observar um orgulho ferido descer ladeira a baixo, rumo ao núcleo da Terra.

O quarto foi ficando mais escuro conforme a noite aos poucos dava seu sinal de vida. Sentia-me iludido, traído, vencido, ingênuo, fraco, inocente e preso a barbante puído. “Por que logo você? Por que eu? Por que nós? Por que não fomos conjugados corretamente?”. Eram os pensamentos frequentes quando tomei coragem para sair daquele estado depressivo, jogado ao chão feito lixo, ao estilo “Vermes, venham e me comam!”. Peguei o maço em cima da cama e saí do quarto. Era inevitável não relembrar a noite anterior conforme meus olhos passavam pelo sofá, pelos outros detalhes da casa e aquela maldita Zebra desgraçada na mesinha. Fui até a cozinha, joguei fora todos os pacotes de rosquinhas amanteigadas e a xícara que ela tinha usado. Peguei um dos copos sujos na pia, lavei, tirei duas pedras de gelo na geladeira e coloquei no copo. Voltei à sala. Peguei a última garrafa de Jack Daniel’s e sentei no chão, na frente do sofá, ficando de costas para ele. Na minha frente, quase colada a mim, estava a minha mesinha de centro, e em cima dela um copo vazio que passei a utilizar como cinzeiro, aquela Zebra lazarenta e a garrafa cheia ao lado do meu copo.

Parecia que a televisão desligada passava a temporada dos nossos últimos encontros. O fracassado seriado: “Eu, Pierre, vulgo trouxa terrestre, mamífero alcoólico”. Não conseguia tirar meus olhos da televisão, desligar os pensamentos e parar de me torturar. “Quantas garrafas de Jack terei que matar para te esquecer?”. Pensei em determinado momento, quando fui encher o copo. Estava realmente disposto a enfiar a cara na bebida, ficar bêbado e esquecer aqueles problemas todos, nem que fosse só por um dia ou algumas horas. Precisava de alguma distração, mas estava difícil.

Novos pensamentos começaram a vir conforme a embriaguez se intensificava. Em momento de fraqueza comecei a pensar: “Será que se pedisse ela deixaria de ser puta? Mas aí não adiantaria nada, pois já tem se deitado com vários nesses anos todos”; “Preciso fazer exame de sangue urgentemente… Será que vou pegar alguma doença?”; “Será que algum dia vou conseguir esquecê-la?”; “Acho que estou sendo injusto”; “Deus, por que você não existe?”. Até que cheguei a um ponto da embriaguez que só conseguia chorar.

– E agora? O que faremos? – pergunto a Zebra. – Você também não ajuda em porra nenhuma… Sabia? – dou golada do copo. – Concorda comigo que foi maior sacanagem da parte dela ter nos enganado esse tempo todo? Não podia ter dito no início? – fico pensativo. – Acho que você já sabia… – com ódio, encaro o bicho. – Zebra safada e traiçoeira! Meretriz feito a dona! – mergulho a cabeça nas mãos, cravando os dedos em meus cabelos. – A quem eu quero enganar? Você é um bicho de pelúcia que carrega a porra do cheiro dela!

Por volta da uma hora da madrugada, levantei e fui ao quarto procurar um novo maço, pois o meu já tinha acabado. Revirei todo o quarto e nada. Pelo menos não tinha mais aqueles pensamentos ao olhar para a cama e para a camisa do John no chão, que peguei e decidi vesti-la a fim de ir à rua, na padaria da esquina. Peguei calça e cueca no armário e fui ao banheiro. Debaixo do chuveiro, conseguia esconder as lágrimas que vira-mexe insistia em cair pelo rosto quando me lembrava de toda aquela situação. No fim do banho resolvi dar basta. Chega! Já tinha passado e acabado, não aconteceria novamente e não iria mais vê-la, então não teria motivos para me preocupar com nada. Tinha um livro para dar mais atenção do que dar moral a problemas menores, e a uma prostituta safada que me enganou. Tudo bem que o livro seria um dos motivos que mais manteriam meus pensamentos naquela mulher, mas, devia pensar e agir como profissional e seguir em frente com meu trabalho. Aquela chuveirada estava fazendo bem para trazer pouco do meu eu sóbrio de volta e minha ‘sanidade’.

Terminei o banho, vesti a roupa e voltei para o quarto para pegar a carteira e o celular. Havia quatro ligações perdidas do meu assessor. Coloquei a carteira e o isqueiro no bolso, desliguei as luzes, saí e tranquei a porta. No elevador, liguei de volta, sem me preocupar com a hora. Felizmente estava acordado. Disse que tinha conseguido uma entrevista em um daqueles talk-shows que passa de madrugada, e que, inclusive, era no meu favorito. Aquela notícia chegou na hora certa e ajudou a levantar o humor, fodido. Decidi que deveria comemorar, e seria como naqueles dias que a gente sente uma louca vontade de ir para longe… Longe de tudo e de todos, atrás de novidade. Mas dessa vez, sinceramente, não me importaria se fosse parar em um lugar conhecido, desde que não a encontrasse. Não poderia ser como das outras vezes, pois fui deixar nas mãos do destino e veja bem no que deu no final, afinal. Bela apunhalada pelas costas, isso sim. Muito obrigado pela pegadinha, destino, você é o cara!

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