Ventura: 07 – Aparências (Parte 2)

Comprei dois maços na padaria e fui ao ponto de ônibus. O primeiro que veio era para o Centro do Rio. Durante o caminho fiquei pensando em onde iria quando chegasse à estação. Lapa? Copacabana? Garage? Ou outro lugar? Chegando, resolvi pegar o metrô e ir a Copacabana, parar em um dos quiosques de frente para praia e curtir a beleza local. Talvez conseguisse pôr no mar todos aqueles pensamentos, como se fossem oferendas para Iemanjá, mesmo não crendo. Quem sabe talvez existisse mesmo e levasse tudo?

Desci do ônibus e fui caminhando pela rua, fumando meu cigarro, pensando na vida. Inevitavelmente meus pensamentos vira-mexe paravam em Dominique, principalmente quando alguma prostituta passava por mim. Acho que mesmo se tivesse escolhido a Lapa, iria passar por isso, e o Garage… Bom, é do lado da mundialmente famosa Vila Mimosa. Talvez não devesse nem ter saído de casa, para início de conversa, pois algumas vezes sentia meu sangue ferver e uma louca vontade de gritar, pôr tudo para fora, como se uma daquelas garotas de programa que passavam por mim sorrindo fosse Dominique. Conseguia me controlar fechando os olhos, respirando fundo e continuando minha caminhada.

No quiosque, pedi água de coco para limpar a alma, e cerveja. Santo remédio! Sentei-me à mesa de frente para o mar. Como é bonito, de noite, ver o mar completamente deserto e as estrelas no céu se deitando no horizonte como uma enorme manta negra. E a lua… “Pois é lua, acho que não mais verá aquela mulher. Sinto muito e conforme-se com isso. Tudo bem para você?”. Pensei. Na verdade era o que queria que a lua me dissesse naquele momento. Bebi toda a água do coco e comecei minha cerveja. Mal dou o primeiro gole e já aparece uma mulher ao meu lado:

– Posso sentar? – me aborda, a garota simpatia.

Olhei-a. Linda! Cabelos loiros lisos e longos, com mechas castanhas, seios não muito pequenos, quadril bem desenhado e belo par de coxas. Trajava tomara que caia branco, embaixo de uma jaqueta jeans com as mangas dobradas até os cotovelos, calça jeans escura e sapatos brancos.

– Fique à vontade. – digo depois de percorrer todo o seu corpo com os olhos.

– Obrigada. – senta na cadeira ao meu lado. – Alessandra. – se apresenta esticando a mão na minha direção.

– Logan. – cumprimentei-a, seco.

Ela ri.

– Pois é… – estico as pernas debaixo da mesa. – Meu pai era fã do Wolverine.

– Quem é Wolverine?

“Quem nesse mundo não sabe quem é o Wolverine?”. Penso antes de respondê-la. Você sabe quem é Wolverine, não sabe? Era a primeira vez que eu topava de frente com alguém que não sabia. Até tia Geralda sabia!

– Dos X-Men… – incrédulo. – Sabe?

– Não. – coloca a bolsa na cadeira à minha frente, do outro lado da mesa.

– É de uma história em quadrinhos, tem os filmes e tal… – pauso ao perceber que não adiantaria nada entrar em detalhes. – Deixa pra lá. Não vai mudar nada você saber a origem do meu nome.

Acho que esperava que fosse parecida com a Dominique. Ninguém é obrigado a saber da onde vem a porra do meu nome. Só achar engraçado já é o suficiente, afinal, não é todo dia que topa de frente com um brasileiro metido a escritor e com nome de personagem mutante de história em quadrinhos. Já encontrou algum?

O rapaz do quiosque traz mais um copo, enche e entrega em sua mão. Nem eu sei por que tinha aceitado a companhia daquela mulher, muito menos como estava disposto a saber quem ela era. Principalmente o que fazia ou deixava de fazer. Talvez meu subconsciente quisesse desabafar com alguém e com isso, tinha tomado controle total sobre mim:

– Um brinde ao meu livro, que está começando a dar certo. – digo forçando um sorriso e erguendo o copo no ar.

– Que legal! Você é escritor? – diz após bater de leve seu copo no meu.

“Não! Sou bailarino do Circo de Soleil”. Penso aos risos.

– Sim. Foi lançado há pouco tempo… Esses dias, na verdade. Sei que é meu, mas se eu fosse você, comprava. – brinco aos risos, procurando descontrair. – É realmente um bom livro, com uma ótima história. Garanto que vai gostar.

– Bacana. – sorri, mas sem esconder a falta de interesse na minha informação. – Eu até compraria se gostasse de ler, mas não sou muito chegada em leitura.

Não preciso dizer que me fez lembrar o dia em que Dominique me disse aquilo, certo? Ou, algumas horas atrás que ela relembrou esse fato e me fez contar a história da puta com o inocente escritor… Não, jornalista.

– Pois é. – olho a cerveja, com medo de olhá-la e ver o que não queria nem devia ver. – As pessoas hoje em dia não andam lendo como antigamente.

– Prefiro os filmes. Se virar filme, com certeza eu verei.

O silêncio reina, mas não como quando estávamos eu e Dominique. Nunca seria. Eu estava cabisbaixo olhando para os meus pés e relembrando o dia em que a encontrei no shopping, jogamos fliperama, assistimos ao filme e fomos parar em um sujinho na esquina. Não era ela ao meu lado, era outra mulher, que pelo visto não tinha nem metade do que ela tinha, mas conseguia me fazer pensar nela. E só.

– Estou te sentindo meio distante e triste. Aconteceu alguma coisa? – pergunta como se realmente se importasse.

Olhei-a. Sei que o fato de ter sido descoberto aumentou aquela tristeza e decepção comigo mesmo.

– Está tão visível assim? – me entrego.

– Não sei se é o seu jeito, pois acabei de lhe conhecer. – sorri. – Mas você não aparenta estar bem… Sinto o cheiro de longe.

Voltei os olhos para meus pés, acendi um cigarro.

– Está certa. – tomava coragem para desabafar com a estranha. – Esse não é meu jeito. É que, simplesmente, meu mundo desabou.

– Se quiser desabafar, fique à vontade.

Mal sabia ela que já estava me preparando para fazer aquilo. Ou já imaginava. Sei lá. Peguei outra cerveja e enchi nossos copos. Ajeitei-me na cadeira, respirei fundo e comecei.

Anúncios