Ventura: 07 – Aparências (Parte 3)

– Há mais ou menos cinco anos atrás eu conheci uma mulher. – pauso para organizar os pensamentos. – Nos conhecemos por acaso. Eu tinha tirado o dia para sair por aí em busca de alguma novidade. – sorri ao lembrar e sem saber por que. – E ela acabou sendo a novidade perfeita!

– Que lindo! – sorriso largo.

Só percebi que eu estava sorrindo quando ouvi esse comentário. Pigarreei e engoli aquele sorriso, dando longa golada em seguida, para que descesse goela abaixo.

– Combinamos de fazer um jogo onde deixaríamos nossos encontros nas mãos do destino. Não trocamos telefone, nem nada. – já estava sorrindo de novo. – O destino seria o encarregado de nos colocar frente a frente, caso ele quisesse que nos encontrássemos…

– Legal!

Interrompe-me. Os pensamentos se embaralham novamente e perdi a vontade de distribuir as cartas de novo. Ela tinha mesmo que ficar fazendo esses pequenos comentários? Isso me irrita! Fora que não queria perceber que contar os fatos, por mais que para uma pessoa completamente estranha, me deixava feliz. Olhei-a e notei que estava visivelmente desinteressada na história, apenas se fazendo de legal para continuar bebendo de graça e as minhas custas. Foi então que me toquei… Devia ser prostituta. Que óbvio, babaca! Novamente demorou um século para perceber.

– Vamos deixar esse assunto de lado. – não resisto. – Vamos falar de diversão. – forcei um sorriso. – Quanto é que custa o teu playground?

– Duzentos reais. – sorri maliciosa.

Na mosca, Logan! Seu bobinho.

– Duzentos?

– Isso… Duzentos reais, trinta minutos, serviço completo sem anal.

– Vai descontar as cervejas que bebeu? – respondo pensando: – Serviço completo sem anal? Não faz sentido.

Ficou desconcertada.

– Relaxa, é brincadeira. – levanto. – Mas pode ir procurar outro cliente, não estou a fim de brincar.

Vou até o quiosque, pago o que bebemos e pego uma cerveja latão para me acompanhar.

– Eu deixo você me chamar pelo nome dela se você quiser. – diz atrás de mim.

– O quê? – virei-me rapidamente, furioso. – Ela é uma puta muito melhor que você! – esbravejo. – Pode ter certeza disso! – e saio com passos largos pelo calçadão de Copacabana.

Imagino que a pobre Alessandra não entendeu nada, mas realmente não tinha nada para que entendesse ou algo que realmente entenderia. Continuei meu caminho, me aproximando cada vez mais do mar. Eram quase quatro horas da manhã, semideserto, tirando as regiões onde ficavam os bares na calçada do outro lado da principal e os quiosques na calçada perto da praia, que ainda estavam pouco movimentados. Em um deles rolava até roda de samba.

Chegando bem próximo ao mar, tirei os tênis e deixei a água molhar os pés. Sentei na parte que o máximo que a água vinha era na ponta dos dedos. E lá estávamos nós: eu, cigarro, latão, mar, ondas indo e vindo, céu estrelado, lua rindo da minha cara e aqueles mesmos pensamentos. Parecia que a cada vez que a onda vinha em minha direção, trazia algo mais a se pensar, e quando partia, não levava nada. Cadê a Zebra nessas horas?

Olhei para o relógio, quatro e vinte três. Levantei com o maço na mão esquerda e os tênis na direita. Sei que é feio, mas o latão ficou ali mesmo na areia para que a onda fizesse o que eu deveria ter feito. Fiquei observando a onda vir e levar, imaginando como se fosse eu no lugar daquele pequeno objeto metálico, meio amassado e que ia afundando aos poucos conforme a água o adentrava. Assim que sumiu, calcei meus tênis, dei as costas para o mar e fui andando de volta ao calçadão. Estava decidido a me afogar mais ainda no álcool, como o latão que se afogou no mar. Quem sabe não seja salvo por coma alcoólico? Ajudaria a desligar esses pensamentos conectados a um potente gerador de energia.

Atravessei a principal e fui adentrando a primeira rua que vi, parando em um sujinho bem vazio. Sentei-me à mesa vaga que estava na calçada e logo pedi cerveja. Mal encho meu copo e uma mulher já aparece sentando na cadeira à frente e se anunciando:

– Oi gato. – me aborda, a versão feminina do Don Juan.

Respiro fundo enquanto a encaro e bebo. Essa já lembrava um pouco Dominique, mas não a nova, a antiga: cabelos negros e curtos, daqueles ondulados que queriam ser encaracolados e faziam questão de deixar isso bem claro; camiseta vermelha, bem justa ao corpo, avolumando bem seus seios siliconados e “acesos” por conta do frio e a falta de um sutiã. Encarando-me com sorriso e aqueles falsos olhos verdes, que até o mais leigo perceberia que eram lentes de contato.

– Carla. – estende a mão na minha direção sobre a mesa.

Depois de alguns segundos olhando sua mão, resolvo cumprimentá-la após pôr o copo na mesa:

– Logan.

– Posso te acompanhar na bebida?

– Por favor.

Levantou, foi até o balcão e voltou com copo vazio, sentando-se novamente.

– Então, de onde você é? – pega a garrafa e começa a encher o copo. – Nunca o vi por aqui.

Aquilo estava começando a ficar familiar de mais para o meu gosto. Será que todas as garotas de programa agiam iguais ou era mera coincidência? Não é possível! Tem um roteiro específico essa merda?

– Importa mesmo de onde sou? – pergunto indignado. – Sabemos nós que nem o meu nem o seu interesse, é de que nos conheçamos melhor. – incrível como estava ficando cada vez mais direto e ignorante. Mas, pelo menos, dessa vez percebi cedo.

Sorri, cruza os braços e dá um tempo para terminar de processar as informações.

– Mas nada impede que conversemos um pouco, não acha? – insiste.

– E sobre o que você quer conversar? – começo a ficar rabugento. – Não nos veremos mais depois disso e você sabe mais do que eu… Não tem essa de destino…

– Eu sei. – me interrompe. – Você parece ser bem interessante. – faz pouco caso da minha recente apresentação ogra.

– Vai me desculpar, mas não caio nessa conversa duas vezes. – sorri sarcástico.

Faz cara estranha, permanece em silêncio.

– Vocês são sempre assim? – pergunto impaciente.

– Vocês quem? – franze a testa sem entender. – Assim como? – olhava-me com cara feia. Acho que realmente já estava começando a deixá-la irritadíssima. Bingo! Continue assim, garoto.

– Deixa… Você não tem nada a ver com isso. – desvio o olhar para a barata passando perto da folha de alface no chão.

– Acho que sei qual é o seu problema. – com sorriso irônico, que me deixou puto da vida. – Apaixonou-se por uma garota de programa. – e diz com todas as palavras, como se fosse vidente ou já soubesse, mas estava evitando tocar no assunto para não cutucar minha ferida.

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