Ventura: 07 – Aparências (Parte 4)

Meu coração dispara. Não é possível, devia estar jogando verde. Como saberia disso? Só se fosse amiga de Dominique, trabalhassem juntas ou algo do tipo. Explicaria o roteiro. Foi quando esse pensamento passou pela cabeça, que me entreguei:

– Você a conhece? Cadê ela? – pergunto me erguendo com as mãos apoiadas nos braços da cadeira, olhando tudo ao redor. – Onde ela está?

– Calma. – diz aos risos. – Não a conheço, muito menos sei quem é. Não é o primeiro que encontro passando por isso… E te garanto que não será o último. – como se fosse me confortar, mas consegue me domar.

– Sério? – recosto na cadeira e fico dócil. Só faltava abanar o rabo.

– Agora quer conversar? – gargalhada alta. – Vocês são TODOS iguais.

– Agora que tocou num assunto tão interessante… – digo tratando logo de encher os nossos copos. – Prossiga, por favor.

– Como assim? Diz o que quer saber ou me conte como foi. Só assim terei algo a dizer.

– Mas quem me garante que vai ser sincera?

– Como você mesmo disse. – faz uma pausa e olha para o alto, como se olhasse para alguma lembrança. – Não nos veremos mais depois de hoje. – volta a me olhar. – Independente de sinceridade ou não, você não é obrigado a acreditar no que não quiser acreditar.

Pelo menos essa parecia ser inteligente.

– E se nos virmos? – digo desconfiado. – O destino nos prega muitas peças.

– Pode ter certeza que se nos encontrarmos de novo, se quiser, finjo que não te conheço. Não vai mudar em nada a minha vida saber teu problema ou virar sua amiga. – respira fundo. – Pelo que vejo, estou muito mais familiarizada com esse tipo de problema. – começou a fazer trejeitos esquisitos com as mãos e meneava bastante a cabeça. – Só estou oferecendo uma pequena ajuda… Sei lá… Talvez uma pequena solução… Nada de mais, sabe? Assim como posso me levantar agora e ir embora. Simples. – sorri cheia de si.

– Desculpa. – baixo a cabeça. – É que foi muito recente.

– Se não quiser contar, não tem problema algum. Não é obrigado a me contar nada, não sou sua psicóloga. Podemos conversar sobre coisas bobas, que não existem, ou ficar calados e continuar fazendo companhia um ao outro na bebedeira. – dá uma golada. – Já que não vai querer sexo, eu vou ser legal e racho a conta contigo no final. – me analisa com os olhos. – Não tem mesmo o perfil de quem seria o último cliente da noite, e já chega de programa por hoje. – faz piada. – Quero relaxar, tomar umas e ir pra casa bem tranquila. – estica os braços para os lados.

– Eu vou contar. – coço o ombro esquerdo com a mão direita. – Deixa só me preparar para começar.

– Vou pegar outra cerveja enquanto isso.

Levanta e vai até o balcão. Quando volta, enche nossos copos e senta.

– Pronto? – sorri amistosa.

Afirmo cabisbaixo. Não conseguiria contar olhando-a. “Que ironia do destino… Desabafar sobre uma prostituta, com outra prostituta!”. Pensei enquanto me preparava para contar.

– Bom… – comecei. – Quando eu a conheci, não sabia que ela era pu…

– Garota de programa. – interrompeu-me rápido.

– Isso. – sorri sem graça. – Não sabia que ela era garota de programa. – reformulo a frase. – Eu tinha tirado o dia para sair para algum lugar que eu não conhecesse, pois estava cansado de ir para os mesmos lugares, ver os mesmos rostos… Precisava de alguma novidade.

Continuei contando entre um gole e outro, com algumas pausas para acender outro cigarro, pedir cerveja… Quando terminei de contar, já era dez para as seis da manhã, o céu já estava naquele tom laranja rosado e a rua estava completamente deserta. Raramente passava carro, ou ônibus, ou algum pedestre. Estávamos no único bar aberto naquela rua e prestes a ajudar o dono a fechar.

– E tem dúvidas que ela te ama? – me pergunta no fim do relato.

Fico sem saber o que responder. Olhava para ela enquanto procurava por resposta dentro de mim.

– Tem dúvidas? – insiste.

– Não é bem dúvida. – olho para o copo vazio, como se fosse meu reflexo. O encho novamente, mas não encontro boa resposta, nem me encho. – Realmente não é dúvida.

– Preconceito! – julga, corretamente. – Não aceita o fato de ter se apaixonado por uma garota de programa, mesmo sabendo que ela o ama.

Meu silêncio me condena.

– De todos os casos que já ouvi, o seu é o primeiro diferente.

– Por quê?

– Na maioria, o amor não é recíproco… Eles já sabem que a garota faz programa e são quase todos casados. A gente se molda ao jeito que eles preferem ou que gostariam que a esposa fosse… E acabam pensando que somos realmente daquele jeito e melhor que a mulher que está em casa cuidando dos filhos, preparando a janta para quando ele chegar ter o que comer… Ou então está se envolvendo com outro também… Mas programa com amor é mais caro. – riu. – Muito caro! E no seu caso foi completamente diferente. Você é solteiro… Ela te conheceu como ela mesma e não como garota de programa… Tanto é que nunca mencionou sobre… Muito menos te cobrou algo.

– Mas e quanto ao táxi? – tento fazer o júri ficar ao meu favor.

– Qual o problema? – dá de ombros. – Às vezes ela realmente precisava de uma ajuda para o táxi. Se fosse outra garota, você não daria?

– Daria.

– Então pronto!

– Mas por que ela nunca me disse que era? – continuo tentando trazer o júri para mim, mas já sem esperança. – Se tivesse dito no começo, talvez fosse mais fácil. Poderíamos dar um jeito de resolver.

– Tem certeza? E resolver o quê? Tá louco?

O juiz bate o martelo e o silêncio, minha sentença. Daqueles de quando nos vemos na parede, sem lugar para correr, só esperando o bando de indivíduos apontando armas na sua direção, atirarem. Bang!

– A veja como uma atriz. – apoia os cotovelos na mesa e junta os dedos de uma mão na outra. – As atrizes não interpretam papéis na TV, onde em cada novela ela beija e se esfrega em um ator diferente? Nós também somos assim. – sorri. – Contigo ela estava sendo ela mesma e não da forma que você queria que ela fosse… Ou fazendo programa… Está me entendendo? – averigua como se eu fosse idiota.

– Mas e se estava? – mesmo com sentença já decretada, não queria ceder e aceitar que poderia estar errado. Vamos tentar reabrir esse caso!

– Posso te dar certeza absoluta que não estava! – bate na mesa com o punho fechado. – Deixa de ser preconceituoso, garoto! É feio! Ainda mais nos tempos de hoje.

– Também amam? – pergunto com tom de criança que fica sabendo pelo coleguinha malvado, que Papai Noel não existe e vai perguntar aos pais: – ‘Mãnhê’, Papai Noel não existe?

– Lógico! – responde aos risos. – Somos mulheres como todas as outras. Não é só por fazermos programa, que nos tornamos pessoas sem sentimentos. Aqui dentro também bate um coração. Nunca viu o filme Moulin Rouge?

– Já. Mas, como assim?

– Não lembra a história do filme? O bonitinho de olhos azuis que é escritor se apaixona pela estrela lá do Moulin Rouge, que nunca amou ninguém que não fossem seus diamantes, e ela acaba se apaixonando por ele? A história é triste e ao mesmo tempo linda.

– Lembrei. – sorrio ao me deparar com algumas semelhanças.

– Então… É quase daquele jeito. Não seja tão duro consigo mesmo e com a garota. – pousa a mão na minha sobre a mesa e acaricia. – Você tem que largar de lado esse preconceito… Não vai te levar a lugar algum.

– É difícil. – digo cabisbaixo, já começando a ceder.

Olha para o relógio digital que havia em um painel no outro lado da rua.

– Já amanheceu e a conta deve estar cara. – solta uma gargalhada gostosa. – Vamos pagar logo isso… Aí você vai para sua casa e pensa bem. Mas pensa bem, mesmo, ouviu?

– Sim. Vai ser inevitável não pensar.

Pediu a conta enquanto eu acendia meu cigarro e já começava a pensar.

– Noventa reais. – diz esticando o papelzinho na minha direção.

– Isso tudo? – pego o papel e confiro o cálculo. – A cerveja é bem cara aqui. – coço a barba cerrada com a mão esquerda.

– Quarenta e cinco pra cada, nem fica tão caro. – abriu a bolsa e colocou quarenta na mesa. – Vou cobrar cinco reais pela conversa. – brinca. – Coloca cinquenta aí e fica tudo certo.

Anúncios