Ventura: 08 – Resistência (Parte 1)

Cheguei a minha casa direto para a cama, e só acordei às quatro da tarde com o celular berrando. Meu assessor dizendo que estava chegando para que pudéssemos conversar melhor sobre o talk-show. Levantei, tomei banho e comecei a arrumar aquela bagunça, enquanto o esperava. Era inevitável não pensar nos últimos dias. Pelo menos agora, meus pensamentos se colidiam bem menos e não me deixavam tão perturbado como estavam causando. Patrícia tinha realmente feito uma revolução em minha cabeça. Quem sabe o próximo livro não fale sobre rapaz preconceituoso batendo de frente com tudo aquilo que desvaloriza e, do nada, aparece alguém o fazendo parecer tremendo idiota com seu preconceito? Só não poderia ser sobre pu… Garota de programa, Logan. Penso comigo. Duas vezes consecutivas, entregaria que tenho realmente problema com o assunto ou pareceria que sou adorador extremo.

Tinha acabado de lavar o banheiro quando a campainha tocou. Sequei as mãos na toalha de rosto e fui até a porta da sala. Era o Helder, meu assessor. Me deixe falar dele, pois é “personagem” de muita importância. O conheci quando tinha quinze anos e ele vinte e cinco, há quatorze anos. Sempre foi pessoa simples com bom coração, que acredita nas pessoas e está sempre disposto a ouvi-las, principalmente sobre novos projetos. Sabe quando você tem uma ideia artística e acredita com todas as suas forças que pode dar certo, mas seu salário mal ajuda a pôr comida em casa? É só passar algumas horas conversando com ele, e seu projeto vai sair do papel. Digo que é meu assessor, enquanto na verdade, também é meu empresário, patrocinador, melhor amigo e qualquer outro cargo que eu precise e ele esteja disposto a ser. Sempre está. E para ser sincero, tudo só começou a dar certo graças a esse fabuloso amigo que conquistei. Se não tivesse o conhecido, talvez, hoje nem seria escritor. Vou explicar melhor…

Quando tinha treze anos de idade, eu e meus pais estávamos saindo de madrugada de uma festa da família por parte de mãe. Meu pai estava alcoolizado e minha mãe nem tanto. Alguns tios e tias ainda tentaram convencê-los de dormir por lá e acordar pela manhã, mas meu pai, até bêbado, era responsável e preocupado com o trabalho. Fora o fato de que nunca gostou de dormir em casa de parente ou de amigos. E quando meu pai colocava uma ideia na cabeça, não tirava de jeito algum, nem por ninguém. Adorava quando ele dirigia bêbado e pisava fundo no acelerador. Ficava no banco de trás sentindo o vento batendo forte no rosto, olhando os carros ficando para trás e sumindo. Brincava de fingir que estávamos em uma corrida e me divertia com os gritos histéricos da minha mãe: “Cuidado Flávio”, “Olha para frente Flávio”, “Diminui essa bodega e para de palhaçada”, “Você é um escroto, para de se apresentar para o seu filho”. E meu pai aos risos, sempre dizia as mesmas coisas: “Estou atento, mulher”, “Estou olhando, cacete!”, “O possante quer correr, não vê?”, “O Logan é um mutante e um grande aventureiro, ele gosta”. É pai… Realmente gostava até acontecer o pior. Nessa madrugada chovia grosso e na má ultrapassagem, meu pai perdeu o controle do carro e batemos de frente em um poste, abrindo o carro em dois até a metade. Não lembro bem, só alguns flashes até a parte que vi o poste ficando cada vez maior, próximo. Apenas anos depois do ocorrido, que fui tomar coragem para ler os jornais que saíram na época, sobre o acidente. Foi trágico. Um dos piores acidentes daquele ano. Mas felizmente, não caiu no sensacionalismo, senão já teria aparecido algum repórter precisando de assunto, procurando pelo menino sobrevivente de um acidente horrível que levou seus pais a morte. Por onde anda? O que tem feito? Superou o trauma? O que acontece com jovens que perdem os pais em um acidente de carro? Essa palhaçada toda que só engradece a alma daqueles que gostam de saber que há por aí pessoas irresponsáveis chocando seus carros em arvores, postes, outros carros, pedestres e etc., as vezes para se sentirem melhores sabendo que “graças a Deus, não passaram por aquilo”. E se um de meus pais fosse alguém importante da mídia, todo ano teria a ajuda de alguns repórteres para relembrar o ocorrido e prestar depoimento no dia que completa mais um ano que blábláblá, merda de macaco. Enfim…

Acordei pela manhã em uma cama de hospital. Sem mover nenhuma parte do corpo, meus olhos percorreram todo o local. Quando dei por mim, estava entrando em desespero e me debatendo a fim de me desprender daqueles aparelhos. Até que, ao ver a enfermeira aparecendo para tentar me acalmar, comecei a gritar: “Eu quero ver meus pais! Eu quero ver meus pais! Cadê os meus pais?”. Lúcia, a enfermeira nada simpática, só conseguiu me acalmar dopando. Conforme minha visão ia escurecendo, a mente ia reconstituindo a cena do acidente, mas, novamente, só até a parte do poste se aproximando. À noite abri os olhos e ao ver minha tia madrinha sentada na poltrona ao lado da cama, já me senti mais seguro.

– Tia. – digo com dificuldades, mas ela cochilava. – Tia! – grito.

Acorda no susto.

– Ah, você acordou. – me olhava por cima dos óculos.

– O que aconteceu?

– Não lembra? – ajeitou-se na poltrona.

– Só alguns flashes. – olhei para o teto. – Acho que batemos em um poste voltando da festa.

– Foi exatamente isso. – levanta e vai à janela no meio da parede atrás da poltrona. – Como está se sentindo? – abre as cortinas.

– Estou bem. – olho na direção da janela, dava para ver parte do céu nublado, só não sabia se chovia. – Mas e meus pais?

– Cada um em um quarto diferente. – olhava a rua.

– Mas estão bem? – sabia que tinha algo estranho por ela evitar me olhar. – Por que não estamos no mesmo quarto?

– Acho que são perguntas que deve fazer ao médico, não a mim.

– E por que não está lá com eles ou com minha mãe? Ela é sua irmã! – esbravejei.

– Garoto, não me encha de perguntas. – virou-se para mim, ajeitou os óculos. – Se quer que eu saia, eu saio, é só falar. – virou-se de costas novamente e fechou as cortinas. – A enfermeira que pediu para que eu ficasse aqui te fazendo companhia. Por mim eu já teria ido embora.

Apesar de ser minha tia madrinha, sempre foi pessoa fria, e às vezes parecia demonstrar bem o quanto não gostava de mim e que não estava nem aí. Desde quando era criança, nunca conseguia imaginar por que meus pais tinham a escolhido para ser minha madrinha, com tantas outras tias legais, extrovertidas e amorosas. Verdadeiros anjos comparados à tia Geralda. Perguntava-me se algum dia já tinha sentido amor e demonstrado afeto por alguém. Só fui entender anos depois, quando fui morar com ela. De todas as tias, tia Geralda, mesmo sendo a caçula, sempre foi a mais responsável e que mais puxava a orelha das irmãs, quando jovens. Para os meus pais, realmente era a pessoa ideal para cuidar de mim caso acontecesse algo, já que o meu padrinho sumiu na vida com uma Angolana que conheceu em uma viagem que ele e meu pai fizeram à negócios. E de fato, querendo eu ou não na época, não estavam errados.

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