Ventura: 08 – Resistência (Parte 2)

Depois de semanas sendo preparado psicologicamente por Psicóloga para receber a notícia de que meus pais haviam morrido naquele acidente, fui morar com tia Geralda. Foi aí que conheci o Helder. Ele morava na mesma rua e vira-mexe nos esbarrávamos voltando para casa, eu do curso de francês e ele… Bom… Não sei, assumo. Nunca tive curiosidade de saber. Até que em um desses encontros, ele bêbado, puxou assunto:

– Rapaz, eu te conheço de algum lugar. – me aborda cambaleando.

– Moramos na mesma rua. – digo aos risos.

– Ah é? – faz cara engraçada, surpreso.

– Sim.

– Já nos conhecemos? – para cruzando os braços, pensativo.

– Só de vista.

– Ah é? – fica olhando para o céu, devia estar tentando lembrar de algo.

– Sim. – fazia força para não cair nas gargalhadas com aquela situação.

– E é filho de quem? – voltou a andar, me acompanhando.

– Sou sobrinho da Dona Geralda.

– Ah é? – outra cara engraçada.

– Sim.

Estava cada vez mais difícil segurar o riso. Já não o olhava, pois o mais engraçado era as caretas que fazia surpreso e o jeito de andar ziguezagueando. De repente solta gargalhada e quase vai ao chão. Segurei-o, sem entender patavinas de sua crise de risos.

– O que houve? – pergunto curioso.

– Já perturbei muito a Dona Geralda com a molecada aqui da rua. – e ria muito. – Rapaz, sua tia me odeia.

Aí está algo bastante interessante. Pensei na hora.

– Sério?

– É rapaz, estou te falando. – se recompôs. – Já quebrei muita vidraça dela jogando bola na rua com a molecada, mandava-os tocarem a campainha dela e saírem correndo… Ela aparecia furiosa na porta e os chamando de tudo quanto é nome. Dizia que eu era o mestre da vagabundagem, que ficava induzindo e treinando as crianças para serem grandes vagabundos malandros como eu. – e ria de chorar.

– Ela é muito chata, não gosta de ninguém.

– Que isso, rapaz? Não diga uma coisa dessas. – sua expressão fica séria. – Ela só é durona por fora… E é sua tia.

– Por isso mesmo. Sou sobrinho e sei bem do que estou falando. Nunca vi aquela mulher dar um sorriso ou demonstrar afeto por alguém. Vai por mim, é experiência própria.

– Não significa que ela não goste. Às vezes é só o jeito dela.

– Duvido muito.

– Quem somos nós para julgar um mero mortal semelhante? – levanta o dedo no ar. – A única pessoa que ganha dinheiro fazendo julgamentos é o juiz. – ri. – E mesmo assim… – soluça. – Às vezes ele julga culpado, um pobre inocente.

Já dá para ver com quem comecei a aprender a não julgar livro pela capa, certo? Depois de ver aquele jovem-bêbado-sábio me quebrando nas ideias e dizendo coisas sábias e inteligentes que nunca tinha ouvido nem de um velho-sóbrio-sábio, passei a fazer questão de quase todo dia passar na sua casa para conversarmos e trocarmos conhecimentos. Com dezessete anos me senti à vontade para desabafar sobre meus pais e comentei que estava escrevendo uma história baseada no acidente. Encarava o que escrevia como forma de desabafar e ajudar a lidar com aquilo. No começo ele dava ideia de que eu poderia transformar em livro e tentar publicá-lo, mas eu só levava na brincadeira e dizia que publicaria em uma editora grande e faria enorme sucesso. Mas sempre era da boca para fora, não levava a sério.

Depois disso, pelo menos uma vez por semana ele me perguntava como andava o livro e me incentivava. Então, involuntariamente, comecei a ver como livro e não desabafo. Sempre que findava novo capítulo, o deixava ler. Cada vez mais dizia que realmente deveria tentar publicá-lo quando terminasse e que ele poderia me ajudar financeiramente, pois sabíamos que minha tia não apoiaria aquela ideia de “vagabundo”. Aos poucos fui cedendo e realmente acreditando na hipótese de que poderia vir a ser bom livro, não só mero livro.

Terminei na semana do meu décimo oitavo aniversário, quando já estava decidido que seria escritor, afinal, estava gostando demasiadamente de escrever. Sentia-me bem quando me trancava no quarto. Ficava horas escrevendo e relendo. Minha tia queria que fizesse faculdade de direito e vivia me recriminando desde que comecei a aprender a tocar violão com o Helder. Dizia que estava me induzindo a ser vagabundo malandro como ele. Então tive que começar a omitir sobre minhas visitas a sua casa e passei a dizer que tinha ido à casa de algum amigo da escola ou do curso, para fazer trabalho.

No dia do meu aniversário, como sempre sem comemorações, resolvi contar sobre a minha ideia. Discutimos feio quando começou a falar que era coisa de vagabundo e que não me traria futuro algum, que devia fazer o que ela falava, pois aí sim seria alguém na vida e etc. Mas estava decidido, e tia madrinha alguma mudaria a minha ideia ou os meus planos. O futuro é meu! Então arrumei minhas malas e saí de casa. Tia Geralda pediu para que só retornasse quando tirasse aquela ideia idiota da cabeça e resolvesse fazer a faculdade de direito, para me tornar advogado, fazer prova para delegado ou, quem sabe, me candidatar a Presidente da República. Era só o que faltava. Fui direto para casa do Helder, que me acolheu sem pensar duas vezes. Conversamos sobre e decidimos publicar o livro. Seria meu empresário e tudo que precisasse. E a única coisa que se tornou sem querer, foi um grande irmão mais velho e melhor amigo. Talvez, como tia Geralda, você me pergunte: “Mas o que esse vagabundo malandro faz da vida?”.

Helder veio de família rica, mas nunca quis ser o sucessor do pai na empresa renomada e bem sucedida. Sempre quis correr atrás dos seus ideais e ajudar as pessoas. Se seu pai deixasse em suas mãos, em um mês levaria à empresa a falência usando o dinheiro para projetos culturais, musicais e quem ele achasse que realmente precisava de ajuda financeira para construir um sonho. Bem mais bacana do que muito artista por aí que só faz caridade com a ajuda de algum patrocinador de seu programa e não precisa tirar um putinho do bolso de ouro. Então quando fez dezoito anos, Helder limpou a conta bancária que os seus pais tinham feito para ele desde seu nascimento (para quando tivesse idade ir cursar faculdade nos EUA), e saiu sozinho, levando só as roupas do corpo. Comprou aquela casa barata na rua da tia Geralda, móveis de segunda mão e começou a fazer seus investimentos. Com vinte e cinco anos já era empresário de duas bandas, produziu diversos eventos, tinha reformado uma instituição de caridade, e uma lista de coisas que não me recordo agora. Fora os investimentos que fez nesse meu primeiro livro, que não trouxe muitos retornos, mas o suficiente para Helder ter de volta o que tinha investido, me deixar com um livro publicado no currículo e tirar aquela mixaria, que me deixava feliz, como “salário”.

Anúncios