Ventura: 08 – Resistência (Parte 3)

Com esse dinheiro que ganhava com as poucas vendas mensais, eu juntava para poder lançar novo livro sem que Helder tivesse que investir boa quantia sozinho. Terminei de escrever minha segunda obra chegando aos meus vinte anos. Desde então, Helder é o meu assessor, agente, irmão mais velho e etc. Só voltei a visitar tia Geralda para dizer que aos poucos tudo estava dando certo e levá-la para conhecer o apartamento onde eu estava morando sozinho. A última vez que a vi foi nesse dia. Estranho… Tenho que visitá-la mais vezes. Mas bem que ela podia me visitar também ou ligar, mesmo que seja pra saber se já mudei de ideia e seguiria seus planos para mim.

Voltando ao momento em que estava indo abrir a porta para o meu assessor:

– Meu escritor predileto. – diz Helder abrindo os braços e o sorriso. – Como vai?

– Com a cabeça embaralhada, mas tudo bem. – digo abraçando-o. – Entra.

– O que houve? – pergunta já entrando e sentando-se no sofá.

– Relaxa, já conversaremos sobre. – fecho a porta. – O que vai querer beber? – pergunto caminhando até o minibar.

– Não sei. – estica os braços no encosto do sofá. – O que temos aí para degustação?

Chegando ao minibar, agachei e notei que já tinha acabado todo o meu estoque.

– Merda. – lamento.

– O que houve?

– Esqueci que o minibar está vazio. Vou ver se tem algo na geladeira.

– Beleza. – acende cigarro. – Onde está o cinzeiro? – encara o bicho de pelúcia na mesa. – E que porra de Zebra é essa aqui?

Sempre contei tudo ao Helder, mas tinha omitido sobre a parte da Zebra.

– Vê se não está embaixo da mesinha. A Zezé é uma longa história… Já iremos conversar, relaxa. – e fui até a cozinha.

– Zezé? – se pergunta. – Ele falou Zezé mesmo?

Abri a geladeira e nada de cerveja. Voltei decepcionado para a sala.

– Sinto muito, não tem nada.

– Isso é um fato inédito! – diz aos risos. – É a primeira vez que visito Logan Harper e não tem nenhum tipo de bebida alcoólica… Impossível! Olhou direitinho? – levanta rápido e tira o celular do bolso. – Temos que registrar esse momento histórico. – me abraça com o braço esquerdo e estica o direito virando a câmera na nossa direção. Selfie.

– Que Logan Harper o que, rapaz?! – o empurro. – Não tem nada a ver. – não consegui conter a risada. – Mas tem álcool puro, serve? – brinco.

– Faz o seguinte. – guarda o celular no bolso. – Se arruma aí e vamos naquele sujinho ali embaixo tomar umas e pôr o papo em dia. – amassa o cigarro no cinzeiro. – Temos muitos assuntos para pôr em dia. Principalmente sobre o talk-show.

Troquei de roupa e saímos. A conversa já se deu início quando a porta do elevador se fechou, assim que apertei o botão do térreo.

– Não nos vemos desde a sua noite de autógrafo. – diz Helder.

– Você teve que sair às pressas e me deixou lá sozinho.

– Eram pepinos de emergência, não tinha como não ter ido resolvê-los.

– Nem deu em nada grave. Ocorreu como o planejado e cumpri o horário estipulado.

– Muito bom. – bate o ombro no meu. – E aí, gostou?

– De quê? – olhava para o painel do elevador que indicava os andares.

– Como assim? – deu cotovelada de leve na minha costela. – Foi sua primeira tarde de autógrafo, grande escritor.

– Verdade. – sorri orgulhoso. – Foi interessante e bacana. – respiro fundo ao lembrar o final. – Mas aconteceu outra coisa.

O silêncio pairou dentro do elevador e só se dissipou quando a porta se abriu.

– Ela apareceu? – pergunta saindo do elevador.

– Sim. – o acompanho.

– E aí? Pela sua aparência, ouso dizer que não foi positivo.

– Foi uma loucura, mas deixa chegar ao bar. – pigarreio. – É uma longa história que deu outra longa história e por aí vai.

Chegando ao bar, sentamos perto do balcão, pegamos cerveja, dois copos e uma dose de cachaça.

– É para dar uma moral na conversa. – digo a Helder depois do pedido e ao reparar sua expressão curiosa.

Virei-a em uma golada só, sentindo aquela ardência interior e fazendo careta.

– Essa é boa! – digo com os olhos cheios de lágrimas e com dificuldade por conta da ardência. – Danada!

– Você é muito doido. – diz aos risos enquanto enchia nossos copos.

Contei-lhe tudo e com os mínimos detalhes sobre aquela noite de autógrafo e meu reencontro com Dominique. Conforme contava, notava as expressões cada vez mais surpresas em seu rosto. Quando terminei a história, acho que nem ele acreditava que aquilo tinha acontecido.

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