Ventura: 08 – Resistência (Parte 4)

– Você é profeta! – diz com os olhos arregalados.

– Profeta é o cacete! – já conseguia lidar aos risos com aquela história. – Profetizei sem querer… Eu acho. – coço a cabeça.

– Estou perplexo. Sério mesmo. Eu não sei como reagiria se soubesse que a Ivone é garota de programa. – cruza os braços. – Não consigo me imaginar na sua pele, Logan.

Esqueci-me de mencionar a Ivone. Só lembrei-me dela agora. Ela é completamente o avesso do Helder. Bom… Até anos atrás não fazia ideia de como ele tinha se apaixonado por ela. Vez ou outra ficava desconfiado que pudesse ter sido macumba ou algo do tipo, por que é impressionante o quanto ela o tem nas mãos, fazendo todas as suas vontades. Nos conhecemos há nove anos atrás, quando ele veio falando que tinha encontrado um futuro novo sucesso da Música Popular Brasileira e que iria produzi-la. Levou-me ao evento que estava fazendo em pequena casa de show, para divulgá-la, e nesse nosso primeiro encontro, tivemos já a primeira desavença. Era óbvio que a intenção do Helder não era só produzi-la, estava encantando por ela desde que bateu os olhos naquele pedaço de pecado, pois realmente, Ivone era linda. Independentemente do tipo de som que ela tocasse, ele estaria lá com essa ideia louca de produzi-la, pois não vi sucesso algum naquele show. Sei que não devia, mas por conta de muitas e muitas doses de uísque, fiquei sincero o suficiente para dizer que tinha achado uma boa merda o show, quando ela veio cheia de graça – e com intimidade que eu desconhecia – me perguntar: “E aí? O que achou? Seja sincero”. Acho que, talvez, se não tivesse pedido para ser sincero, poderia até mentir com: “Ah, é bacaninha seu show, hein! Uou!”. Mas, pediu sinceridade e não soube ouvi-la. É uma pena ter ficado tão nervosa, dito que não sou bom entendedor de música de verdade e que não apreciei a arte do seu show. Então retruquei dizendo que, talvez, se pintasse quadros no palco, poderia apreciar a porra da arte, mas não seria um show. E assim deu-se início a nossa discussão. Quando Helder nos viu batendo boca, ficou louco e sem saber o que fazer. Com certeza pirou na dúvida: “Estou do lado do meu melhor amigo ou do lado da, talvez, linda futura mãe dos meus filhos?”. Optou por uma terceira opção que lhe surgiu na hora, que era jogar a garrafa de uísque no chão. Olhei-o com os olhos arregalados enquanto o silêncio rendeu nossa discussão. Helder ria de nervoso, e do nada disse: “Opa! Esbarrei sem querer!”. Nessa hora, não sei o que deu em mim, mas caí nas gargalhadas e quase urinei nas calças. Juro. Afastei-me dela, o abracei e me despedi dizendo que não queria estragar a noite dos dois. Desde então passou a me odiar e tentar fazê-lo ficar contra mim, sem sucesso. Por isso, às vezes Helder não podia estar no mesmo lugar que eu e tinha que sair às pressas de uma noite de autógrafos minha. Compreensível, por sinal. Aí você pergunta: “E ela fez sucesso?”. Se tivesse feito, juro que teria me matado ou nunca mais ouviria MPB na minha vida. Sei que, no fim das contas, o que mais doeu nela foi saber que eu estava certo. Corretíssimo. E acabou tornando-se apenas a mulher do Helder, e dona dos saldos negativos dos cartões de crédito com bandeira internacional.

Voltando ao bar…

– Passei o dia todo mal e a noite resolvi ir lá pra Copacabana, espairecer e pensar na vida. Mal parei no quiosque da praia e já me aparece uma garota de programa, rapaz. Tinha que ver.

Contei-lhe sobre essa parte e entrei nos mínimos detalhes quando comecei a falar sobre Patrícia e a sua boa lição de moral.

– Cara, na boa mesmo? – cruza os braços, expressão séria. – Foi bom você ter encontrado com essa Patrícia. Não vou mentir pra você. Já me envolvi com muitas garotas de programa.

– Sério? – pergunto surpreso, pois achava que não fazia seu feitio.

– Muitas delas se mostravam frias, do tipo “Você tem meia hora, anda logo, seu merda”. – ri. – Outras eram muito amorosas, realmente a ponto de serem apaixonantes. – olha para o chão, pensativo. – Uma vez eu esbarrei na rua com uma dessas amorosas que já tinha me relacionado e ela agiu como se nunca tivesse me visto na vida. – voltou a me olhar. – Ela tem razão, a Dominique te ama. E agora?

Matei o copo de cerveja e fiquei cabisbaixo, com os braços cruzados sobre o balcão.

– Sinceramente, não sei. – murmurei. – Acho que joguei tudo para o alto dessa vez.

– Não tem como encontrá-la? Não tem o número dela ou não sabe por onde ela anda? Nenhuma pista? Nada de nada?

Apenas neguei com a cabeça, bastante desapontado.

– É irmão… – me abraça. – Quando a vida supera a ficção.

Silêncio.

– A quero de volta, Helder. – digo com tom triste, os olhos marejados olhando-o.

– Cacete! Não fica assim que isso me mata. – diz como se fosse culpado por algo. – Se eu ainda pudesse fazer alguma coisa… Ou se nós pudéssemos fazer algo. – respirou fundo, passou as mãos na cabeça. – Mas o que podemos fazer?

– Nós não podemos fazer nada. – jogo a cabeça para trás, olhava para o teto. – Vou ter que contar com o maldito destino novamente, para nos pôr frente a frente outra vez.

– Mas não fica assim. – me abraça novamente. – Levanta essa bola, vai. – enche meu copo. – Vão se encontrar novamente e poderá ajeitar tudo. O destino não vem colocando vocês frente a frente há anos? – dava o seu melhor para me reanimar.

– Será mesmo que nos reencontraremos de novo? – apesar do pessimismo, queria acreditar naquilo.

– Vai sim! Não foi assim das outras vezes? Então? Relaxa! – sorri. – Canta comigo agora… Amigo, estou aqui. Amigo, estou aqui. Se a fase é ruim e são tantos problemas que não tem fim. Não se esqueça o que ouviu de mim

– Amigo estou aqui!

As pessoas no bar já começavam a olhá-lo de cima a baixo.

Os seus problemas são meus também! E isso eu faço por você e mais ninguém. – bate no meu peito. – O que eu quero é ver o seu bem. – leva a mão ao próprio peito. – Amigo, estou aqui.

– Eu sei que está. – sorrio. – Agora chega, já estão te olhando e rindo da sua apresentação.

Os outros podem ser até bem melhores do que eu, bons brinquedos são. – e para piorar, começou a dançar. – Porém, amigo seu é coisa séria, pois é opção do coração. Viu? – sorriso largo e palhaço. – O tempo vai passar. – ergue o copo no ar. – Os anos vão confirmar as três palavras que proferi... – coloca a outra mão fechada no meu queixo como se estivesse segurando um microfone.

Amigo, estou aqui! – não resisti e cantei.

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