Ventura: 09 – Mudanças (Parte 1)

Passamos a tarde bebendo e conversando. Helder disse que a gravação do talk-show seria na quinta, dia 17 de julho, e a exibição seria na madrugada do dia 21 de agosto. Me preparou dizendo que o entrevistador não ficaria fazendo só perguntas sobre o livro, então, era para ter muito cuidado com o que responderia, pois poderia ter alguma repercussão negativa. Já estava preparado, pois, afinal, vejo aquele programa há anos. Conheço bem o jeito de fazer piadas, brincadeiras e os eteceteras do entrevistador. Não tem como dar ruim. Tudo bem que a teoria nem sempre sai corretamente como esperamos na prática, mas vale ressaltar a possibilidade de que possa sair. Sempre! Perfeito!

Continuamos nossa conversa até Ivone ligar, por volta das seis e quarenta. Até achava engraçado, pois sempre que ela ligava e estávamos em um bar ou em outro lugar movimentado, ele olhava para o celular, arregalava os olhos, olhava para um lado e outro, e depois corria para a parte mais vazia do local. Eu já deduzia logo quem era. Minha confirmação chegava quando ele voltava minutos depois. Dessa vez não foi diferente.

– Era a Ivone. – disse ao voltar, colocando o celular no bolso.

– E aí?

– Ah… – expirou forte e com expressão de derrota. – Você já sabe. – e matou o copo.

– Terá que ir até ela, certo?

– Sabe como é, né? – sorri sem graça. – Está precisando de mim por perto. – cutuca os bolsos. – Está com grana pra pagar a conta? Vai continuar bebendo?

– Isso que eu tinha que falar contigo. – passo a mão na nuca, desconfortado. – Estou zerado de novo… Ainda tem alguma coisa minha lá na conta?

– Já disse que devia abrir uma conta bancária. É bem melhor do que eu ficar guardando e te dando conforme precisa. Tudo bem que rende, mas, e se precisar numa hora que eu esteja ocupado?

– Não gosto de bancos… E pelo menos assim não gasto mais do que devia. Fora que, o dia que eu precisar e estiver ocupado, vou saber que ela conseguiu concluir o plano de nos afastar. – brinco aos risos.

– Mas você sempre gasta mais do que devia, Logan. E não é bem assim que a banda toca. Sabe disso.

– Eu gasto certinho. Tanto é que você vive falando que sobrou tanto no último mês.

– Eu sei. Mas uma hora ou outra pode ultrapassar sua cota.

– Fica tranquilo. Tem ou não tem?

– Tem. – tira a carteira do bolso. – Vamos passar no banco pra tirar. – acena para o dono do bar, pedindo a conta.

– Pode me dar uma carona até o metrô?

– Aonde vai?

– Não disse que fiquei de encontrar a Patrícia, pra pagar o dinheiro que me emprestou?

– Já combinou o local e ligou pra ela? – pega o papel com a conta.

– Vou ligar no meio do caminho.

– Beleza. – tira algumas notas da carteira e entrega junto da nota. – Fica com o troco. – diz para o dono do bar e vira-se na minha direção. – Vamos?

Saímos do bar e fomos até seu carro, que sempre estacionava na calçada do meu prédio. Entramos em seu Cross Fox amarelo (e assumo desde já que sou apaixonado por esse carro) e seguimos viagem. No meio do caminho ele desabafou sobre seu relacionamento e assumiu que já estava começando a ficar desgastado, mas que tinha esperança que fosse apenas outra fase ruim. O que mais o deixava chateado, era o fato de Ivone continuar insistindo em tentar fazer a sua cabeça para ficar contra seu melhor amigo, se metendo em seus negócios, dando palpites e que o armário já não tinha espaço para as suas roupas, só as dela. Inclusive, certo dia ela tinha dado a ideia de comprar um armário só para ele, que aí ficaria um para cada. Aquilo o matava, pois Ivone estava cada vez mais se tornando mulher mesquinha como a mãe dele era, e não queria nada por perto que o fizesse parecer com o pai, principalmente uma esposa extremamente consumista.

Outro detalhe interessante que não contei, foi que, depois de fazer tudo aquilo anos atrás – raspar a conta bancária e sumir no mapa –, ele reapareceu na casa dos pais, dez anos depois, para dizer-lhes que estava bem e o que tinha planejado estava dando certo, como bem queria. Para sua decepção, fingiram não o conhecer, afirmaram que o filho deles tinha sido sequestrado há dez anos e já tinham perdido as esperanças de que ele estivesse vivo ou que voltaria um dia. Na inocência, sem entender que era proposital, ainda mostrou a identidade. Mas seus pais disseram ser identidade falsificada e brincadeira de mal gosto. Só foi entender que era tremenda encenação, antes de ir embora, quando sua mãe disse que deveria honrar o sobrenome que carregava ou mudá-lo no cartório, o que fez, naquele mesmo dia, assim que os deram as costas. Na época me surpreendi bastante e isso foi me dando coragem para reaparecer na casa de tia Geralda, ver qual seria sua reação ao me rever, pois, mesmo quando fui morar com o Helder, na mesma rua, ela raramente saía de casa ou olhava pela janela. Assumo, também, que não fiz questão de visitá-la. Nunca nos víamos, nem nos esbarrávamos na rua. Lembro até que certo dia, estava passando na frente de sua casa e uma senhora me abordou, perguntando se sabia sobre a casa estar para alugar ou não, pois era bonita e sempre que passava ali, não via nenhum sinal de vida. Fico imaginando qual seria a reação de tia Geralda se aquela senhora batesse em sua porta para tirar as dúvidas. É realmente difícil de imaginar. Pobre senhora, espero que não tenha ido perguntar.

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