Ventura: 09 – Mudanças (Parte 2)

Paramos no banco e fiquei esperando no carro. Liguei o rádio. De cara toca uma música que traz tudo de volta em minha mente. Começo a repensar naquela situação, mas, analisando minha vida desde o acidente dos meus pais. Não era a primeira vez que Stop Crying Your Heart Out da banda Oasis, me trazia aquela sensação. Já leu a tradução antes de ouvi-la? Depois que leu e entendeu a mensagem, ouviu e sentiu a magia que tem na música? É difícil explicar, só sei que…

“Segure-se! Segure-se! Não tenha medo! Você nunca mudará o que aconteceu e passou. Que o seu sorriso brilhe (que o seu sorriso brilhe). Não tenha medo (não tenha medo). Seu destino pode mantê-lo aquecido. Porque todas as estrelas estão desaparecendo, apenas tente não se preocupar, você as verá algum dia. Pegue o que você precisa e siga seu caminho… E faça seu coração parar de chorar. Levante (levante)! Venha (venha)! Por que você está assustado? (Eu não estou assustado). Você nunca mudará o que aconteceu e passou. Porque todas as estrelas estão desaparecendo, apenas tente não se preocupar, você as verá algum dia. Pegue o que você precisa e siga seu caminho… E faça seu coração parar de chorar. Onde todas nós, estrelas, estamos desaparecendo. Apenas tente não se preocupar, você as verá algum dia. Apenas pegue o que você precisa e siga seu caminho… E faça seu coração parar de chorar”.

Só quando Helder deu partida no carro, voltei à realidade.

– O que houve? – me pergunta preocupado.

– Nada. – diminuí o volume do rádio. – Viajei aqui pensando na vida. – me ajeito no banco. – Conseguiu?

– Toma. – me entrega duzentos reais. – Cuida bem, agora só terá mais na semana que vem.

– Beleza, já é um adianto e tanto.

Liguei e marquei com Patrícia de nos encontrarmos naquele sujinho que nos conhecemos. Comprei um buquê de flores no caminho e Helder me deixou na entrada do metrô. Durante a viagem só pensava em Dominique. Como seria bom encontrá-la repentinamente. Estava indo encontrar com outra, mas como se estivesse indo encontrar com a minha amada, levando flores e saudade. Seria muito interessante se, por ventura, elas fossem amigas, e Patrícia tivesse optado por não me contar nada e fazer surpresa. Já pensou? Seria maravilhoso.

Já de longe pude vê-la sentada, de costas para a direção que eu seguia, na mesma mesa. Trajava um vestido tomara que caia curto, cor vinho e sapatos vermelho escuro. Conforme me aproximava, pude reparar duas garrafas na mesa e dois copos, um cheio e outro vazio. Com certeza o vazio me esperava, pois não tinha nenhum vestígio de ter sido usado.

Chegando às suas costas, estiquei a mão com o buquê à sua frente e me anunciei:

– Boa noite, minha linda conselheira.

Segurei a cadeira no reflexo e ela não caiu por pouco com o susto que tomou. Virou-se rapidamente e me olhou.

– Cuidado. – brinquei.

– Boa noite, Logan. – diz sorrindo e pegando o buquê. – Que lindas. – abraçou-as ao peito. – Obrigada.

– Não há de quê. – beijei-lhe o rosto e sentei na cadeira à sua frente.

– Como vai? – apoiou o buquê em cima da bolsa, na cadeira ao seu lado direito.

– Vou bem e você? – enchi meu copo.

– Também. – encarou-me, esperançosa. – E quanto àquela nossa conversa? – enfatiza “àquela”.

– Pensei bastante e já posso dizer que sou uma pessoa menos preconceituosa que ontem. E creio que amanhã serei menos ainda.

– Bom. – aplaudiu sem fazer som. – Muito bom.

– Pra pagar o que emprestou ontem… – coloco o dinheiro em cima da mesa. – E pra agradecer pela ajuda que me deu, hoje é tudo por minha conta.

– Não precisa, somos amigos agora.

– Faço questão. – ergo o copo. – Um brinde a minha grande conselheira amorosa e mais nova amiga.

– Ao meu novo amigo… Menos um homem preconceituoso no mundo. – brinca.

– Isso. Agora que vamos nos conhecer melhor e fortalecer essa amizade, gostaria muito de saber mais sobre a sua pessoa. Acho que ontem não estava muito disposto e conversamos apenas sobre meu problema.

– Verdade. E o que quer saber? Já sabe meu nome verdadeiro… – soltou uma risada gostosa. – O da noite, minha idade e o que faço pra ganhar a vida. – dizia entre trejeitos. – E eu só sei seu nome e idade. Quem tem que me contar algo aqui é você.

– Moro no centro de São Gonçalo e sou escritor.

– Nossa! Você é escritor? Que bacana! Mas não tem cara de quem gosta de escrever.

– Sério?

– Sim! E eu nunca ouvi falar de você.

– Não sou um escritor famoso. – olhava para o copo na mesa, imaginando que realmente já poderia ser, mas infelizmente não era. – Eu escrevo fracassos. – olhei-a e sorri. – Mas são bons fracassos, garanto.

– Nada… Eu que tenho mania de só procurar pelos livros de escritores renomados. Às vezes um livro teu pode ser melhor que algum desses que já li. – sorri amistosa. – Me fale sobre seus livros. – pousa os cotovelos na mesa e apoia o queixo nas mãos. – Às vezes já ouvi falar.

– Em Dias Chuvosos, Emancipado… E agora escrevi Pierre & Marie.

– Acho que vi a propaganda desse último em algum lugar. – pensativa. – Acho que foi na traseira de um ônibus… Não tenho certeza.

– É isso mesmo. Está rolando uma boa divulgação.

– Legal! Quero ler. Onde compro?

– Posso te dar um exemplar de presente, se quiser.

– Jura? – seus olhos brilhavam, fazendo com que me sentisse grande escritor. – E quero autografado.

– Pode deixar.

– Agora fiquei curiosa… Quando pode me dar?

Na minha cabeça, parte do preconceito que não tinha ido embora se surpreendeu com o fato de Patrícia gostar de ler, analisando que Dominique não gostava e aquela tal de Alessandra muito menos.

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