Ventura: 09 – Mudanças (Parte 3)

– Se quiser podemos ir buscá-lo agora mesmo. – brinco batendo as mãos na mesa e levantando.

– Então vamos! – imitou-me. – Realmente estou precisando de um livro novo… Terminei o último na semana passada e ainda não escolhi um novo pra ler. Vai ser o seu! – aponta o dedo na minha direção.

– Vamos mesmo? – me espanto com sua reação.

– Se podemos ir agora. – deu de ombros. – Por que não?

– É que os exemplares que tenho para dar estão na minha casa.

– Qual o problema? Poderei conhecer sua casa. – sorri. – Nunca fui a São Gonçalo.

Fiquei em silêncio, completamente sem reação.

– Paga a conta e vamos logo, anda. – pegou a bolsa e o buquê.

– Você é muito doida. – digo aos risos. – Vou comprar algumas latinhas para bebermos até o metrô.

Paguei a conta e voltei com duas latinhas já abertas. Entreguei-lhe a destinada a ela e seguimos de braços dados, andarilhando rumo ao metrô.

– Demora muito pra chegar à sua casa?

– Vamos pegar o metrô, descer na Central e depois pegar um ônibus pra São Gonçalo. Simples e prático. Mas tudo depende de como está a ponte… Quando está engarrafado, parece que demora dias.

– Sério? – seus olhos quase saltaram no meu peito.

– Brincadeira. Mas demora… Às vezes uma hora de viagem… Às vezes duas horas… Como disse, depende do transito.

– E tem algum barzinho perto da sua casa para continuarmos bebendo?

– Já que vamos à minha casa, posso comprar cervejas e levar. Se não tiver problema, lógico.

– Problema? Só vejo solução, meu caro.

– Não sei. Pode achar que estou com segundas intenções.

– Mas quem insistiu em ir à sua casa?

Apenas sorri.

– Me diz… Como anda com seu novo livro? Quando foi lançado?

– Acontecendo rápido. – sorri feliz feito um bocó. – O livro foi lançado quarta passada, sexta teve noite de autógrafos em uma livraria dentro de um shopping em Niterói. – enumerava nos dedos. – E esse final de semana meu assessor disse que conseguiu uma entrevista no meu talk-show predileto.

– Sério? Que bárbaro!

– Sim! A gravação é quinta agora e vai ao ar mês que vem.

– Devia estar mais feliz do que aparenta, sabia? – olhou para o céu. – Eu, no seu lugar, estaria radiante.

– Mas estou!

– Não aparenta. – me encara.

– Deve ser por esses outros fatores recentes. Mas isso também tem abominado minha mente.

– Não se esqueça de me ligar mês que vem quando o programa for ao ar. – desvia do assunto que eu quase trouxe à tona.

Entramos na estação de metrô.

– Com certeza! – tentava fingir ser a pessoa mais feliz do mundo. – O único problema é que o programa é de madrugada.

– E o meu também. – riu com uma das mãos tapando a boca.

– Exatamente!

– Mas aí eu corro para algum lugar com TV e assisto… Sei lá. Tem a internet também. Dá-se um jeito a tudo.

Comprei dois bilhetes e passamos pela roleta.

– E se eu ligar e estiver trabalhando?

– Não precisa ligar na hora que for para o ar. Até por que, sempre deixo o celular desligado quando estou trabalhando. Ligue-me no dia, de tarde…

– Combinado.

– Imagina se eu deixasse o celular ligado enquanto estivesse trabalhando… Se quiser qualquer dia eu deixo, aí você me liga e eu atendo gemendo feito uma louca no cio. – soltou uma gargalhada.

Minha cara foi ao chão na hora.

– Imagina a cena… – apoiou-se no meu braço. – Iria gostar, garanto. Já teve cliente meu que pagou para que eu fizesse isso. Uma loucura só, nem te conto!

– Imaginar eu até consigo. – entramos no metrô. – Só não consigo imaginar alguém com esse tipo de tara.

– Ih, você está por fora. Existe cada um, que vou te contar, viu?

– Prefiro nem saber. – sentamos em um dos bancos vagos. – Posso ter pesadelos essa noite.

– Ou material novo pra masturbação.

Caímos nas gargalhadas. Algumas pessoas próximas ao assento que estávamos nos olhavam com caras assustadas, ouvindo os seus relatos. Se eu não forjasse uma pigarreada olhando-a com os olhos arregalados e dando de lado sutilmente com a cabeça, se empolgaria e continuaria falando alto. Patrícia me contou histórias e histórias durante toda a viagem, até descermos no ponto perto da minha casa. Algumas realmente tinham me dado uma excitação inimaginável, enquanto outras me brochavam completamente. Realmente é como dizem… Há louco para tudo.

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