Ventura: 10 – Passado (Parte 1)

Comprei dez garrafas de cerveja um litro e fomos rumo ao meu prédio.

– O que achou de São Gonçalo?

– Apesar de estar conhecendo só essa parte, e as que vi rápido pela janela do ônibus… Digamos que estou curtindo. É aqui que mora? – perguntou assim que paramos frente do portão.

Afirmo.

– É um prédio bem bonito. – foi olhando por toda sua extensão, andar por andar, antes que o porteiro abrisse o portão. – Deve ser caro morar aqui.

O portão abriu. Entramos.

– O caro daqui é a pobreza do Rio, digamos assim. – brinco aos risos. – Lá você gasta mais até em uma bala Juquinha.

– Verdade!

Cumprimentei o porteiro e paramos na frente do elevador, esperando-o chegar.

– Acho que mudarei pra cá um dia.

– Tem um apartamento vago no meu andar.

– Morar sozinha é complicado… Quem me dera.

A porta do elevador abriu, entramos e apertei o nove.

– Atualmente mora aonde?

– Com algumas amigas que também são garotas de programa. – se ajeitava olhando-se no espelho.

Aquilo me trouxe outra cena, recriando completamente o momento em que estava ali com Dominique, seu novo corte de cabelo, falando do meu, minha barba e minha cara de trinta anos.

– Logan. – diz Patrícia me cutucando e trazendo de volta. – Terra chamando…

– Oi? – olhei-a como se nada estranho tivesse ocorrido.

– O que houve?

– Viajei em pensamentos. – disfarço. – Então mora com algumas amigas?

– Foi o que eu disse. – olhou-me de cima a baixo, desconfiada.

O elevador parou e abriu as portas.

– Em Copacabana mesmo? – pergunto saindo do elevador.

– Sim. – me acompanhou. – Com a Amanda, a Luísa e a Julia. Qualquer dia eu te levo lá pra conhecer as meninas.

Sorri satisfeito com a ideia.

– Se você se comportar, até lhe arranjo um três em um de graça. – me olha com uma cara, que me fez ouvir “quatro em um”.

Depois dessa, até deixei as chaves caírem no chão.

– Aí eu morro! – brinco, levando uma das mãos ao peito.

– Só se for de prazer, né, Logan? – solta uma gargalhada alta, típica dela.

Peguei as chaves no chão e abri a porta. Conforme fomos entrando, assim como Dominique, vi os olhos de Patrícia lentamente percorrerem por toda a sala, até pararem na janela, dessa vez fechada. Mas a reação foi diferente.

– É bem organizado. – disse caminhando girando lentamente, olhando tudo a volta, até o meio da sala. – E gosta mesmo de vermelho.

– Minha cor predileta. – tranco a porta. – Fique à vontade, vou guardar as cervejas na geladeira. – e fui até a cozinha.

Guardei nove, voltei à sala com uma aberta e dois copos. Sentou-se no meio do sofá de três lugares, colocou a bolsa do lado esquerdo e segurava o buquê com as mãos. Coloquei a garrafa e os copos na mesinha, tratando logo de torná-los cheios.

– Quer que eu coloque em um vaso com água? – perguntei estendendo as mãos na direção do buquê.

– Faz esse favor pra mim. – sorriu entregando-me.

Voltei à cozinha. Na pressa de voltar, não consegui ver nada que coubesse o buquê, além do liquidificador. Enchi-o d’água e depositei ali mesmo. O importante é que estava n’água, não é verdade? Ao voltar, notei sua curiosidade percorrendo mais ainda cada detalhe da minha sala.

– O que achou de minha humilde residência? – pergunto de trás do sofá.

– Muito bonita. – torceu o pescoço na minha direção. – Nem parece que é solteiro.

– Que nada. – sentei ao seu lado. – Não mereço méritos, arrumei tudo hoje. Se tivesse vindo aqui ontem e no mês passado, veria que estava do mesmo jeito. Faxina aqui é de mês, dois meses, três meses…

– Compreendo. Cadê meu livro?

– Ah! É verdade! – levanto em um pulo. – Aguenta aqui que já volto.

Corri ao quarto e puxei a caixa que guardava os livros embaixo da cama. Abri e contei quantos ainda tinham. Sem necessidade, pois tinha recebido vinte exemplares e dado dois: para Helder e o outro, mandei pelo Correio para tia Geralda. Tirei o terceiro, empurrei a caixa para debaixo da cama e voltei. Peguei caneta na estante e parei na frente de Patrícia, que olhava curiosa para a capa do livro.

– O que quer que eu escreva?

– Não sei, ué. – fez cara de interrogação. – Você que vai dar o autógrafo.

Sorri e escrevi “Para minha mais nova amiga e conselheira amorosa, Patrícia. Um enorme beijo e boa leitura. Ass.: Logan Machado ;)”.

– Aqui está. – fechei o livro e a entreguei. – Boa leitura. Se não gostar, por favor, não me processe. – fiz charme.

– Seu bobo. – fazendo desfeita do autógrafo, foi logo guardando o livro na bolsa, sem olhar. – Assim que terminar de ler, te ligo pra dizer o que achei.

– Positivo. – sentei-me ao seu lado e peguei meu copo.

– Logan… Fiquei bastante curiosa. – olhou-me. – Como um escritor que se diz escritor de fracassos, tem boas condições financeiras?

– São méritos do Helder. – sorri sem graça. – Deve perguntar a ele.

– E quem é esse?

Assim, passamos horas bebendo e falando sobre o Helder, desde aquela época de tia Geralda. Lembra? Quando bateu meia noite, já tínhamos bebido cinco garrafas e estávamos começando a ficar bem alegres.

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