Ventura: 10 – Passado (Parte 2)

– É um cara de sorte, devia saber disso. – comenta em determinado momento.

Não entendi o porquê de ela ter dito aquilo do nada, mas permaneci calado.

– É sério… – continuou. – Tem um amigo que qualquer um sonha ter. – olhou-me com expressão triste. – Um amigo de verdade, sabe?

Assenti com a cabeça e enchi nossos copos, não queria interrompê-la.

– Pelo que me contou, acho que se não o tivesse conhecido… – desviou os olhos para a fumaça saindo do meu cigarro no cinzeiro. – Talvez as coisas não fluíssem tão certas na sua vida, do jeito que estão fluindo… Ou talvez até estivessem mesmo, mas como advogado internacional. – olhou-me com um sorriso angelical. – Já pensou?

Sorri de volta. Sentia que não precisava dizer nada, apenas ouvi-la. Pelo visto, estava começando a se preparar psicologicamente para desabafar, pôr palavras para fora. E eu sempre soube ser um bom ouvido quando tenho que ser.

– Não precisa dividir o apartamento com outras pessoas, pra que fique mais leve no final do mês. – olhava agora na direção da janela. – E se parece muito com um cara de um seriado que vi algumas vezes na televisão. – olhou para mim, analisando algo que até hoje desconheço o que possa ter sido e repentinamente soltou leve gargalhada, como se tivesse encontrado o que procurava.

– Qual seriado?

– Não lembro o nome… Sei que a vida do cara é passar o dia bebendo em uma casa linda e se envolvendo com uma mulher diferente a cada episódio.

Californication? De um escritor e tal?

– Acho que não é esse o nome.

– Ele tem um irmão magro e um sobrinho gordinho? – pergunto desconfiado, o Helder tinha feito a mesma piada recentemente.

– Isso mesmo. Sabe qual é?

– É um de meus seriados prediletos. O Helder diz a mesma coisa… Mas não é bem assim, vai.

Patrícia riu e desviou o olhar para os meus dedos amassando o cigarro no cinzeiro.

– É, Logan… – suspiro carregado. – É um homem de sorte.

– Não é feliz? – saiu sem querer.

Olhou-me com expressão tão triste, que cheguei a engolir seco e com vontade de socar meu rosto.

– Digamos que não sou uma mulher de sorte. – sorriso frouxo. – E que as coisas nunca são como espero.

– Quer pôr pra fora? – coloquei minha mão sobre a dela, que estava pousada na coxa e dei leve apertozinho tentando encorajá-la. – Se quiser, estou bem aqui e totalmente disposto a te ouvir… E sem preconceitos… Somos amigos agora.

Outro sorriso frouxo. Apertou de leve minha mão e ficou olhando na direção delas, ali entrelaçadas sobre sua coxa.

– Não quero te fazer perder tempo ouvindo meus problemas. – matou o copo, deslaçou a mão da minha e tratou logo de enchê-lo novamente. – Vamos falar de coisas boas… Tipo a nova TekPix. – brinca tentando descontrair.

Tinha como não rir dessa? Mas a encorajo:

– Estou realmente disposto a te ouvir… E não estarei perdendo tempo algum, fique tranquila. – decido fazer charme para reforçar: – Se não confia em mim pra contar, eu entenderei.

– Não é isso! É que… – calou-se. Olhou para a janela. – Vou te contar minha história de vida… Vai que de repente você acha boa pra pôr em um livro. – tentou descontrair.

– De repente…

Respirou fundo tomando coragem e começou:

– Eu vim de família pobre. – segurava o copo com as mãos e olhava-o fixamente como se fosse espécie de fonte para suas lembranças. – A irmã do meio de seis filhos… Cinco homens e só eu de mulher. – passou a mão no rosto. – Miguel, Norberto, eu, Quincas, Roger e Saulo. Nasci no Amapá e não conheci meu pai… Assim como meus irmãos. Cada filho de um pai diferente. – sorriso de canto, quase escondido. – Minha mãe era cafetina e nunca foi fã de aborto e camisinha, daí deu nisso. Um grande risco, mas, enfim… Desde pequenos, ela sempre nos dizia que conforme fôssemos completando a maior idade, teríamos que viver debaixo de nossas próprias asas. Crescer no meio daquele bordel imundo foi… Digamos que, a minha escola… Era a única coisa que eu sabia que não pedia estudo, experiência, nem nada… Apenas o corpo e, nem sempre, beleza, mas quanto melhor o corpo melhor o seu valor de mercado. Sem minha mãe saber, eu fazia programa desde os quinze anos de idade, pra juntar dinheiro e vir tentar a sorte no Rio de Janeiro com dezoito, pois seria a minha vez de partir. – bufou. – Sabia que aqui ou em São Paulo, ganharia mais dinheiro. – pausa. – No dia do meu aniversário, ganhei de minha mãe um beijo, um abraço e as seguintes palavras: “Agora vai voar minha pombinha gostosa”. Já estava me preparando há anos, mas sempre imaginava que não fosse acontecer comigo, só com meus irmãos, pelo fato de serem homens. – uma gota de lágrima mergulhou no copo. – Chorei muito, pedindo pra que ela me deixasse ficar, que poderia trabalhar pra ela e fazer tudo que quisesse… Mas não adiantou, já tinha até aprontado minhas malas. – passou o pulso, da mão que segurava o copo, no rosto limpando as lágrimas. – Foi aí que vim pro Rio com aquele dinheiro que tinha juntado desde os quinze anos. Uma caipira de programa na cidade dos bacanas. – riu, seguido de uma fungada de nariz. – No começo foi difícil por conta da adaptação… Consegui trabalho num bordel mais imundo que o da minha mãe, e era difícil arrumar cliente por conta do sotaque e os erros de português. Era raro encontrar cliente com tara pelo sotaque “lá de cima”… Depois de um ano, perdi o sotaque, depois de muito esforço para ter apenas o sotaque carioca, mas não perdi os erros de português, e consegui um bordel melhor. E foi nesse bordel que conheci a Beatriz, uma mulher experiente, que, numa de nossas conversas, descobri também ser natural do Amapá, e que, inclusive, trabalhou pra minha mãe antes de vir. Parecia uma senhora rica e cheia de classe. – sorriu ao ter lembrança boa. – Todos os homens a queriam e ela não queria ninguém. Dizia que não conseguia sentir amor por eles, só pelas coisas que podiam presenteá-la de material. Com ela perdi totalmente o sotaque, aprimorei meu “carioquês” e melhorei meu português. Foi aí que me apaixonei por leitura e ficava fascinada quando descobria alguma palavra, que antes eu ouvia achando que era inglês… Estelionato, excomungar-vos-emos, e por aí vai. – soltou sua típica gargalhada, mesmo aparentemente abalada. – Com vinte e um, descobri que dava para ganhar mais dinheiro na rua do que em um bordel, porém, era mais perigoso e não teria um lugar pra ficar, pois a dona do bordel não poderia saber que estava ganhando alguns por fora… Então, lá fui eu começar a juntar dinheiro novamente pra poder alugar um apartamento e começar a trabalhar por conta própria. Um ano depois aluguei uma quitinete e comecei minha autonomia. – ergueu o braço livre ao ar, como se comemorasse algo. – Foi aí que conheci as meninas… E com isso, conheci outro mundo. – pausa demorada, fixou os olhos nos seios. – Elas me falaram sobre um cirurgião plástico e que eu precisava dar uma turbinada no meu corpo, melhorar meu valor de mercado. Só que é muito caro pôr silicone e teria que ficar anos juntando dinheiro… Então a Julia me contou que conseguia de graça, desde que eu fizesse uns servicinhos. Mas seria só para os seios, a bunda dava pra ganhar em academia, malhando freneticamente da cintura pra baixo. – tentou fazer graça e sorrir, mas dessa vez não vingou. – Nessa fissura de me sentir turbinada e ficar a altura delas, disse que aceitaria qualquer parada.

Silêncio. Preferi ficar imóvel como estátua, aguardando por alguma reação dela ou a continuação da história.

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