Ventura: 10 – Passado (Parte 3)

– Aí tive que ser o bolo de aniversário do filhinho escroto do cirurgião. – olhou-me, a maquiagem já completamente borrada, os olhos avermelhados e a expressão nada boa. – Sabe o que é ser o bolo, Logan?

– Não faço ideia. – engoli seco, previ o pior.

– Eu também não fazia ideia. – voltou a olhar para o copo. – Mas não dava pra voltar atrás quando cheguei lá e descobri o que era ser a porra do bolo de aniversário. – outra fungada de nariz. – Pra mim, teria que me deitar só com o filho dele e tudo estaria certo.

Outro silêncio. Nessa hora eu já estava quase pedindo para ela parar de falar, pois estava com medo do que poderia ouvir. Temia que o que viesse a seguir, mudaria meus pensamentos quanto a Patrícia, ou me daria nojo, ou raiva. Não sei explicar ao certo tudo que passou em minha cabeça naquele dia. O foda era começar a imaginar as cenas.

– Eu tive que transar com todos os convidados… De tudo quanto é jeito, e de diversas formas, que, até então, eu não tinha feito nem sabia que existia.

– E por que fez? – perguntei indignado. – Você não era obrigada.

– Por medo. Por que eu já tinha ganho as próteses. Fora que eu não sabia o que fariam se eu recusasse.

– Compreendo. – digo com a voz trêmula enquanto pego na garrafa vazia.

– Traz outra lá enquanto eu pego um pouco de ar.

– Tudo bem. – a voz quase não saiu.

Chegando à cozinha, mesmo me esforçando a não me aprofundar naqueles pensamentos, minha mente tentava criar a cena e conseguia de forma grotesca. Imaginava Patrícia nua, deitada em uma cama posicionada no centro de um quarto enorme, o grupo de moleques em volta, por cima e por baixo, fazendo o que bem queriam e outros na fila, que saía do quarto, esperando pelo seu pedaço do bolo. A mistura de tanto suor, baba… Peguei a cerveja, parecia que tinha Parkinson quando tentei abrir. Voltei perplexo. Sem dizer nada enchi nossos copos e sentei-me ao seu lado.

Silêncio. Patrícia estava com os olhos fixos nas cortinas vermelhas.

– Por que a Julia não te falou nada? – resolvi perguntar.

Olhou para os pés.

– Quando conheci as meninas, não queria dar de menos experiente. Pra ela, eu realmente sabia sobre ou já tinha feito parecido… Sei lá. Vai saber… Só quando ela viu meu estado decadente chegando a casa, que foi perceber a merda que tinha acontecido… Mas já era tarde, já tinha feito.

– O que ela disse?

– Primeiro me deu uma hora de bronca. Depois pediu desculpa. – respirou fundo e sorriu. – Pelo menos já passou e as próteses ainda estão aqui. – apertou os seios com os braços e olhou-me. – Não são lindos?

Assenti com a cabeça, desviando o olhar de seus seios para seus olhos.

– Não sei nem o que dizer. – confesso depois de tirar a última imagem da minha cabeça, que insistia em voltar quando eu, inevitavelmente, batia os olhos em seus seios.

– Não diga nada… Não quero que tenha pena de mim. Já passou. – esfregou o nariz com os dedos, enquanto dava uma fungada barulhenta, como quem queria acabar de vez com elas. – E uma vez me apaixonei por um cliente. – mudou de assunto. – Me prometia o mundo. – sorriu. – No começo não levava a sério, mas depois de um tempo, comecei a me encantar pelas suas juras mentirosas. Começamos a namorar. Rolou até uns papos sobre noivado uma época.

– Por que terminou?

– Descobri que não era nada do que afirmava. Dizia a mesma coisa pra outras e namorava várias garotas de programa. Acho que era um jeito que encontrou de ter sexo bom e de graça. – brincou.

– E a mulher que te ajudou quando chegou aqui? Nunca mais a reencontrou?

– Beatriz, né? A via com frequência, mas… – ficou cabisbaixa. – Foi morta dois anos atrás.

– No-nossa! – quase me engasguei. – Como isso?

– Um dos clientes que a amava não aceitou o fato de Beatriz viver recusando seu pedido de casamento. Pelo menos foi o que algumas meninas do bordel me disseram quando soube do ocorrido… Que ele tinha dito que se ela não queria ser só dele, não seria de mais ninguém. Matou-a e suicidou-se ao seu lado.

– Que loucura!

– Por isso tenho medo de morar sozinha. Sabe-se lá o que pode acontecer?

– Não gosta de morar com essas meninas que mora atualmente?

– A questão não é nem gostar. – esfregou as mãos. – É melhor do que morar sozinha. Tenho condições, mas, dividir as contas e o aluguel é muito melhor, sobra muito mais no final do mês. – bateu uma palma. – O que acontece é… – pensou antes de falar. – As coisas lá em casa não são mais como eram antes, e isso tem tirado meu sono vez ou outra.

– Como assim?

– No começo, o combinado era ninguém levar cliente e/ou namorado pra dentro de casa. Começa por aí. – falava entre trejeitos. – Segundo que, raramente alguém se presta a arrumar a casa quando está no seu dia. – enumerava nos dedos. – E terceiro… Estão começando a entrar num ritmo que não estou nem um pouco a fim de entrar.

– E qual é?

– Se envolver com policiais corruptos, usar e traficar drogas… Já não é mais só programa, agora elas vendem pra clientes viciados e usam junto, na maioria das vezes. Pior de tudo é que os caras pagam pra elas usarem com eles.

– Que perigo! – boquiaberto.

– Exatamente! Por isso entendo seu preconceito. É mais ou menos esse tipo de garota de programa que algumas pessoas criam na mente. Acham que todas são assim, principalmente você… Não é? – olhou-me, esperando o sim.

– Não bem assim… Mas… Não sei explicar. – enchi nossos copos. – Elas fazendo esse tipo de coisa, se der merda, pode feder pra você também.

– Isso que mais me preocupa.

– Entendi.

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