Ventura: 10 – Passado (Parte 4)

De repente ela salta do sofá e fica de pé com os olhos arregalados me olhando e cara de quem acabara de ver fantasmas:

– Meu Deus, Logan, que horas?

Olhei meu relógio. Eram duas e pouca da madrugada. Como o tempo voou.

– Era pra eu estar trabalhando uma hora dessas.

– Me perdoe, o tempo voou e nem vi.

– Muito menos eu. – colocou o copo na mesinha. – Pelo menos foram boas horas gastas.

– Exatamente. – levantei e comecei a juntar as garrafas na mesa, para levá-las até a cozinha. – Gostei de saber sua história de vida e um pouco mais sobre seu mundo, que até muitas horas atrás eu pensava barbaridades. Às vezes vocês são até vítimas…

– Então eu realmente consegui acabar com o seu preconceito? – perguntou vibrante, me interrompendo, para o meu bem. Tenho certeza que sairia besteira.

– Com certeza. – abri sorriso de orelha a orelha para ajudar a convencê-la mais que o firme tom de voz que manipulei. – Ainda mais depois dessa conversa. – abracei uma garrafa em cada braço e duas em cada mão.

– Deixe que te ajude a levar. – tentou pegar as do meu braço.

– Não precisa, é tranquilo.

Sentou-se novamente no sofá e fui à cozinha. Ensaquei cinco garrafas, deixei a sexta em cima da pia e voltei.

– Tem condução aqui até que horas?

– Ah! Pra ser sincero, uma hora dessas é difícil. Me perdoe, era pra eu ter ficado atento.

– Exatamente. – deu um soco leve no meu braço. – Mas vamos fazer o seguinte… – bateu palma juntando as mãos.

– O quê?

– Vamos supor que tirei dia de folga. – sorriu. – Pega mais uma que agora é você quem vai contar sua história de vida e viraremos a madrugada conversando. Estou realmente gostando muito disso.

– Tem certeza?

– Absoluta!

– Fechou.

Voltando da cozinha com outra aberta, enchi nossos copos, acendi meu cigarro e sentei-me ao seu lado.

– O que quer saber sobre minha vida pacata e nada interessante?

– Não sei. – cruzou as pernas. Não deu para não olhá-las por instinto. – O que quer contar? Como é a vida de escritor? Como e quando teve certeza que era isso que queria pra sua vida e que iria dar certo? Qual o grau de importância que dá pra tudo isso?

Fiquei estático olhando-a, impressionado com as perguntas.

– Pareceu até entrevistadora agora. – digo aplaudindo-a. – Vai ser bom, pois ajuda a me preparar pro talk-show.

Sorriu orgulhosa com os olhos fechados e encenando leve reverência.

– Então, minha cara e querida Patrícia…

Calei-me. Percebi que não sabia como responder àquelas perguntas. Depois de um tempo em silêncio, me olhando e esperando resposta:

– E aí, escritor? Travou?

– Bom…

Calei-me novamente. Acho que, na verdade, não queria dizer que tudo começou quando decidi desabafar sobre a morte de meus pais. Como explicaria sem tocar nesse assunto? Ou, o que inventaria para omitir e sobrepor esse, me reservando o direito de ter a realidade só para mim? Podia dizer que um dia acordei e escrevi… Mas poderia perguntar qual foi à influência ou algo do tipo. Fora que…

– Logan? – diz a me ver feito estátua com olhar vago.

– Oi? – a olhei, ainda tomado por aqueles pensamentos.

– O que houve? – perguntou preocupada.

– É que… – respirei fundo.

Calei-me novamente. Seria injusto, agora que o assunto caiu à tona, não compartilhar. Principalmente depois de ter me contado toda a sua história de vida. Mas será que era a hora de deixá-la saber sobre a minha? Nessa, me perguntei o que diria se o entrevistador fizesse uma pergunta parecida. Teria que inventar algo até o grande dia da gravação, ou ficaria mudo, como estava ali naquele momento.

– Aconteceu alguma coisa? – insiste, passando a mão no meu ombro e me trazendo de volta.

– É que… – travei.

– Estou ficando assustada.

– Bom… – olhei em seus olhos. Uma coragem involuntária veio à tona e decidi contar: – Seria injusto não contar. – pausa para dar o último trago no cigarro. – No começo era uma forma que tinha encontrado pra desabafar sobre a morte dos meus pais…

E fui contando tudo sobre aquela madrugada chuvosa. Quando terminei de falar, pelo alívio que senti, tive certeza que ainda tinha dificuldade com aquele assunto. Por mais que tivesse usado minha vivência, saudade e dor, para escrever o primeiro livro e lidar com aquilo, a minha saudade e dor ainda seguravam firmemente em minhas mãos, como duas crianças atravessando a rua com um responsável. Não era vergonha nem medo de que descobrissem um dos meus pontos fracos, mas também não sei explicar o que era. Patrícia foi a primeira pessoa que assumi meu trauma, pois até então, para mim, já havia superado. Acho que depois de escrever o livro, passei a ver a realidade como ficção… E a ficção como realidade.

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