Ventura: 11 – Coelhinhos (Parte 2)

Na quarta-feira acordei cedo a fim de me preparar para a tão esperada entrevista, que poderia dar uma alavancada na minha carreira e nas vendas do livro, de acordo com Helder. Chegou à minha casa depois do almoço e ficamos ensaiando, tentando imaginar como seria e o que eu responderia, dependendo da pergunta que o apresentador fizesse. Mas não tinha como ter ideia de como seria. Afinal de contas, era o Helder me fazendo perguntas, e ele já sabia todas as respostas e mais ou menos o que e como eu responderia.

Por volta das cinco horas, seguimos viagem rumo ao centro do Rio, no estúdio da emissora que transmitia o talk-show. Assim que entramos, a cada passo que dava, suava frio e meu nervosismo só aumentava. Tinha medo que fosse tudo por água abaixo ou que no fim, o entrevistador se perguntasse: “Mas quem teve a brilhante ideia de convidar esse idiota aqui?”. Fora que era ambiente completamente novo para mim: camarim, maquiagem e contagem regressiva para ser chamado e te encherem de perguntas, apontarem várias armas na tua cara e você lá no paredão, urinando de medo e gritando pela falecida mãe. Quando a mulher entrou e disse que tinha cinco minutos, eu só sabia dizer para o Helder: “Vai dar merda! Vai dar merda! Vai dar merda!” e ele, mais assustado que eu: “Calma! Calma! Calma, cacete!”.

Entrei com as pernas completamente bambas e sentindo como se fosse desfalecer a qualquer momento. Cumprimentei com as mãos tremulas o entrevistador e sentei-me no banquinho reservado para o entrevistado… No caso, eu. Divino, não?

– Estamos aqui com o escritor Logan Machado, que acabou de lançar o romance intitulado Pierre & Marie pela Editora Cherbourg.

Não sei por que, mas nessa hora fiquei igual um babaca, acenando para uma câmera desligada. Só percebi quando parei de acenar e vi a luz de “gravando” se acender. E também não tinha que acenar nada, apenas sorrir. Idiota sem jeito!

– Então, Logan… Esse é o seu primeiro livro? – olhava para o tal enquanto folheava rápido.

– Não. – quase gaguejei. – Na verdade eu tenho outros dois antes desse. – cruzei as pernas em forma de um quatro, esquerda por cima da direita.

– E quando foi que escreveu seu primeiro livro? – fechou o livro e o colocou sobre a mesa.

Nessa hora pensei: “Pronto, danou-se tudo… Já quer saber sobre os meus pais… Vai entrar bonito! Maldito seja!”.

– Não lembro ao certo a idade. – cocei a cabeça. – Acho que comecei a escrevê-lo quando tinha dezessete anos. – fiquei pensativo, esfreguei a barba. – E terminei perto de completar dezoito. Disso me recordo. – sorri sem graça pensando: – Não sei minha história.

– E está com quantos anos agora?

– Vinte e nove. – descruzei a perna.

– Então foram três livros em onze anos?

– Exatamente! – me ajeitei no banquinho. Preciso dizer o quanto estava inquieto?

– Conte-me mais sobre Pierre & Marie? – cheio de trejeitos. – De onde você tirou inspiração? Quanto tempo levou? Em que se baseou? – ele tinha mania de prolongar a pronuncia do ‘ou’, e vendo na TV não parecia tão engraçado quanto pessoalmente.

Nessa hora eu soltei uma risada baixa. Não sei se dessa mania dele ou se pela história ser quase a biografia da última temporada da minha vida. Fiquei me perguntando: “Será que ele leu? Será que alguém aqui leu essa bosta? O que eu vim fazer aqui? Sou virgem com essas coisas… Faço um resumo ou aproveito a sinopse?”.

– A história do livro acontece em Paris… – cruzei as pernas em forma de um quatro, direita por cima da esquerda dessa vez. – Pierre é um jovem que está iniciando a carreira jornalística em um jornal local de sua cidade, enquanto Marie é uma jovem garota de programa, já bem experiente para sua idade. – minha perna direita começou a balançar involuntariamente. – Pierre era daquele tipo de cara bastante preconceituoso e nunca imaginava que um dia poderia se apaixonar por uma garota de programa. – lembrei-me de Dominique. – E Marie nunca imaginava que Pierre descobriria sua verdadeira fonte de dinheiro. – olhei-o e fiquei com a sensação de que estava falando mais do que devia, não sei por quê. – Acho que vai ficar mais interessante depois que abrir o livro e terminá-lo… Ou não. – e me empolguei com a entrevista. De acordo com o Helder, enlouqueci com ela.

– Como assim? – olhou para a plateia, voltou a me olhar.

– Pra ser sincero, não imagino que o meu livro seja um grande sucesso e que tenha um linguajar estupendo, que faça as pessoas pararem toda hora pra dar uma conferida no avô dos burros. – sorri já imaginando a reação do Helder ao me ouvir dizer aquilo. – Sou um escritor de fracassos.

Silêncio. Pelo menos minha perna tinha parado de tremer.

– Está assumindo em rede aberta que seu livro não é bom? – espantado.

– Quem disse que não? – encarei-o com sorriso sarcástico, como se estivesse controlando o jogo. Mas que jogo? – Precisa ser ruim pra ser um ótimo fracasso? Precisa ser ótimo pra ser um sucesso de baixa qualidade?

Silêncio novamente. Pela sua expressão, percebi que o deixei confuso e pensativo. Devia estar pensando que eu estava de brincadeira, mas não estava.

– Entendi o que quis dizer. – olhou para as câmeras e depois voltou a me olhar. – Quer que isso vá pro ar? – falou baixo, quase sussurrado, se curvando na minha direção e colocando a mão na boca para abafar o som.

– Não precisa cortar nada.

Com certeza, Helder nessa hora estava arrancando os cabelos e pensando: “Pronto! Enlouqueceu de vez! Saindo daqui vamos direto ao hospício ou fazer tratamento psicológico”.

– Tudo bem. – disse ajeitando a gravata e recostando-se na cadeira. – Já que quer assim… – deu de ombros.

– Já leu o livro?

– Ainda não terminei, mas…

– Faremos o seguinte… – voltei ao sorriso sarcástico, realmente parecia maníaco lunático.

Isso geralmente acontecia quando lia as histórias do Coringa (meu vilão predileto, apesar de ter o nome de um dos X-Men) ou via o clássico filme do Batman em que o Heath Ledger faz o melhor Coringa de todos os tempos, na minha humilde opinião de fã. É uma pena ter morrido. Continuando…

– Quando terminar de ler, diz aqui no seu programa o que achou do livro. – lhe estendi a mão. – Sei que é um homem completamente culto, que devora muitos livros… E não me importo caso chegue à conclusão de que é uma boa merda o que escrevi. Mas, se realmente achar bom, vai dizer aqui… Assim como, e principalmente, se achar ruim… O que acha?

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