Ventura: 11 – Coelhinhos (Parte 3)

Ficou me encarando com expressão séria e assustada. Olhou para o Helder, que estava do lado de uma das câmeras.

– Ele está falando sério? – perguntou apontando o dedo na minha direção.

Olhei e me certifiquei do desespero de Helder, que estava com as mãos pousadas nas bochechas, os olhos arregalados e assentindo com a cabeça. Voltei a olhar para o entrevistador, que agora me olhava com enorme sorriso.

– Gostei de você. Com certeza é o que farei. Se for ruim, irei escrachar seu livro em rede nacional. – disse firme e orgulhoso.

Pelo seu tom de voz dava para perceber que estava certo de que iria ser daquela forma. Devia estar pensando que eu estava blefando ou brincando.

– Sei disso.

– Fascinante!

– É bem melhor que seja assim. Que graça tem eu ficar falando do meu livro? Sou um escritor desconhecido, ninguém me dará ouvidos. Se você falar bem, conseguirei milhares de vendas extras. As pessoas tem que parar com essa mania de procurar só por Best Sellers, autores estrangeiros ou brasileiros já renomados… Há muita cara nova e boa por aí… Há novas formas de passar mensagens, contar histórias e outros eteceteras.

– Concordo… E como surgiu inspiração para escrever esse livro?

– Honestamente… – lembrei-me novamente de Dominique. – Vivi uma história parecida. Metade do livro, realmente aconteceu – sabia que aquilo ia despertar ainda mais a curiosidade de quem não leu.

– Sério?

– Seríssimo, meu caro.

– E como foi?

– Não posso, senão vou acabar contando boa parte do livro e que prefiro que não saibam quais eu realmente vivi. – sorri vitorioso, como se tivesse acabado de dar xeque-mate, a cartada final. Mas que cartada?

Sorriu desconfiado. Acho que finalmente percebeu que eu realmente estava fazendo bom jogo ali na sua frente, no seu renomado programa. Alguns minutos depois, ficou sério olhando para o nada e:

– Recebi informações de que nosso tempo acabou, mas gostaria de chamá-lo para mais um… Tem problema?

– Nenhum! – vitória!

Chamou o comercial e ao mesmo tempo disse que estávamos de volta. Como não era ao vivo, não havia necessidade de fazer pausa de um ou dois minutos. Matei minha curiosidade de saber se até quando o programa era gravado, realmente faziam aquela pausa para os comerciais. A banda finaliza a música que tocou antes de chamar o comercial e inicia outra, para o retorno.

– Estamos de volta. – colocou a mão em meu ombro. – Aqui, comigo, o enigmático escritor Logan Machado, que acabou de lançar o romance intitulado Pierre & Marie pela Editora Cherbourg.

Não acenei para lugar nenhum, apenas sorri quieto na minha e sem tentar descobrir qual era a câmera. Que ela descubra meu melhor close! Já não estava nervoso, agia como se conversasse com algum novo amigo e como se não estivéssemos gravando nada. Perguntou-me sobre minha vida, tirou-me algumas histórias engraçadas que só o Helder sabia e lembrava. No fim da gravação fiquei surpreso quando o entrevistador humildemente assumiu para mim que estava ansioso para terminar de ler o livro, e que se realmente gostasse, faria questão de comprar os outros dois e cumprir o trato que selamos. Ficou de me ligar para dizer quando iria ao ar, o programa onde falaria sobre. Principalmente se tachasse o livro como péssimo, lixo. Agora era só esperar o mês passar e me assistir de madrugada na minha querida TV, em minha humilde residência, e de preferência, bebendo todas.

– Você é louco! – diz o Helder assim que o encontro enquanto saíamos do estúdio.

– Relaxa.

– Consigo uma oportunidade magnífica pra divulgar você e o livro, e joga tudo pro alto? – estava irado.

– Não joguei nada pro alto e você sabe disso.

– Era uma chance de aumentarmos as vendas.

– Aumentando ou não, não estaremos perdendo ou ganhando nada. Quero ver se quem assistir ao programa vai entender o recado. Só isso.

– Você é louco! Muito louco. – foi a primeira vez que Helder parecia minha mãe.

– É sério, mãe. – descontraí. – O que eu fiz foi ser realista. E aumentei a curiosidade das pessoas. Espera até depois da exibição e veremos qual será o resultado.

– Como pode ter tanta certeza?

– Juro que nem sei como falei aquelas coisas e como agi daquele jeito. Entrei lá nervoso e me transformei. As palavras foram saindo, fui agindo e falando… – acendi meu cigarro. – Não tinha como controlar, Helder. É sério! Acho que foi como daquelas vezes que me encontra depois de ter visto o Coringa do Heath Ledger ou lido alguma história do Coringa sapecando bonito o Batman. –gargalhada ao melhor estilo Coringa.

– Vou repetir mais uma vez… – respirou fundo. – Você é louco! Louco de pedra! E pode ter feito uma grande merda na sua carreira.

– Tudo bem, Helder, vou atrás da minha promissora carreira de advogado, futuro delegado, como tanto sonhava tia Geralda.

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