Ventura: 11 – Coelhinhos (Parte 4)

Quando cheguei à minha casa, a primeira coisa que fiz foi ligar para Patrícia e contar tudo. Teve a mesma reação que Helder, porém, mais brincalhona. Marcamos de nos encontrar na segunda, que era quando preferia tirar “folga”.

Os dias foram passando e cada vez menos, pensava em Dominique. Encontrava-me com Patrícia toda segunda, no mesmo sujinho que nos conhecemos, e às vezes, quando dava, o Helder aparecia comigo. Algumas vezes, também, nossos encontros eram no sujinho perto de casa, e no fim da noite, digamos que, coloríamos nossa amizade… Se é que me entende.

No dia que o programa seria exibido, liguei para ela depois do almoço, lembrando-a. Passei a tarde inteira ansioso, andando de lá para cá na sala, bebendo e fumando um atrás do outro. Conforme a noite foi dando seu sinal de vida, minha tremedeira aumentava e já estava quase recorrendo às unhas dos pés. Em instantes, estava perdido no medo de que as coisas que tinha dito realmente pudessem ter efeito negativo, como Helder temia, e em outros, estava repleto de confiança e otimismo, pensando que tudo daria certo como planejado e as coisas iriam melhorar. E o maldito filme que não acabava para que o programa começasse? Se ainda fosse algum filme que não tinha visto, poderia até ajudar a prender a atenção e fazer as horas passarem. Na última parte do filme, a campainha tocou. Quando olhei pelo olho mágico, para minha surpresa, era Patrícia.

– Surpresa! – diz ela com os braços esticados para o ar e sorriso de orelha a orelha.

– Ué… – abracei-a. – Não sabia que viria.

– Por que é uma surpresa, né, idiota? – brincou me dando soco de leve na testa. – Quero ver contigo. – foi entrando. – Tem problema?

– Nenhum. – fechei a porta. – Vai ser bom, que aí me diz qual o impacto deu em você, o que achou da entrevista e tudo mais. – pulei no sofá, sentando-me ao seu lado.

– Não vai me trazer nada pra beber? – já estava ‘abusada’ a esse ponto.

– Nossa! Olha como está folgada.

– O que tem hoje? – levantou e foi em direção à cozinha.

– Tem long neck lá na geladeira. – olhei a garrafa vazia na mesinha. – E traz mais uma por que a minha aqui já morreu.

Mal colocou os pés na cozinha, olhei para a televisão e estava nos créditos finais.

– Acabou o filme! – gritei. – Já chegou o disco voador!

Pronto. Agora era só esperar o comercial passar e o programa começaria. Patrícia voltou desesperada com as duas longs na mão e pulou no sofá. Acho que todo mundo que entrava na casa sabia que o mais bacana não é sentar com classe, mas sim, pular no sofá. Peguei a minha e brindamos:

– Viva a Literatura.

– Viva! Viva!

Começou. Além de mim, teriam mais dois entrevistados. Um fotógrafo renomado e um ator de Hollywood, que estava passando as férias no Brasil.

– O único fracassado sou eu… – decepcionado.

– Relaxa. Se for pela ordem, ficou para o último bloco…

– E?

– Geralmente a melhor entrevista fica para o último bloco.

– Que nada. Qualquer um que estiver vendo o programa vai estar mais ansioso pra ver o “bombadão” de Hollywood. – virei minha garrafa, engolindo metade do líquido. – Assim que a entrevista com ele terminar, a maioria dos telespectadores vão desligar a televisão e ir dormir.

– Para de ser pessimista. – revoltada, me deu soco no ombro.

– Você é uma pessoa muito violenta, sabia? – esfregava o local que havia sido impactado.

– Ah! Você fica de palhaçada. Vai dar tudo certo, idiota. – fincou os dentes me encarando.

Não sei como nem quando, Patrícia pegou essa mania de vez ou outra me chamar de idiota, mas acabei acostumando com o tempo. Era forma carinhosa de me chamar… Eu acho. Também não incomodava.

Diferente do que nós esperávamos, fui o primeiro. Em minha concepção era bem melhor, pois, assim, todos iriam ver enquanto esperavam a entrevista com o ator de Hollywood (que obviamente merecia muito mais ser o último). Estava tudo certo, ninguém iria desligar a televisão e dormir. Quando acabou a exibição, com certeza fomos os únicos a desligar a TV.

– Nossa! É louco mesmo. – diz aos risos colocando a palma da mão na minha testa. – Anda sentindo-se bem, filho?

– Não falei que baixei legal o meu Coringa interior?

– Pensei que estava brincando com a minha cara.

– Pois é…

– Confesso que fiquei curiosa e quero ler os outros livros. Tem algum exemplar deles pra me dar? Aí eu leio o primeiro depois de ler o Pierre & Marie e depois o segundo. Assim, saberei sobre todos os seus livros e poderei fundar seu primeiro fã-clube!

Pimba! Consegui o que queria! Matei os coelhinhos.

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