Ventura: 12 – Reencontro (Parte 1)

Helder assistiu até o final, pois por volta do horário que finda o programa, recebi uma mensagem dele no celular: “Acho que você estava certo, Coringa Harper”. Como disse anteriormente, assim que acabou a minha entrevista, eu e Patrícia desligamos a TV e começamos a beber para comemorar. Estávamos sentados no sofá, luzes acesas, na mesinha o cinzeiro cheio de guimbas e long necks vazias.

– Você é muito inteligente!

– Acha mesmo?

– É sério! Eu, no seu lugar, não teria coragem de fazer o que fez. Correu o risco de jogar tudo pro alto, sabia?

– Sim. Desde o dia da gravação o Helder ficou falando isso no meu ouvido.

– Que loucura. Queria ter essa coragem… Começar vida nova e esquecer o passado.

– Como assim?

– Sei lá… – passou o cabelo por cima da orelha esquerda. – Tentar arrumar um emprego honrável e esquecer que já fui garota de programa… – me olhou, senti até pena na hora. – Essas coisas…

– E por que não faz?

– Como eu disse, não tenho coragem. – se arrastou para o lado e deitou em minhas pernas, com a barriga para cima e as mãos cruzadas na altura do umbigo.

– Se quiser, posso te ajudar. – lhe fazia cafuné.

– Como?

– Faz tuas malas e vem morar aqui. Se tudo realmente melhorar como espero, pode ser minha secretária ou assistente pessoal… Ou algo do tipo. A gente inventa.

– Jura? – suspirou profundamente.

– Juro. Podemos morar junto, sendo amigos, não? – beijei-lhe carinhosamente a testa.

– Lógico! – seus olhos chegavam a brilhar intensamente. – Mas como vou rachar as contas contigo? – ajeitou-se, sentando novamente.

– Não precisa. Suponhamos que aqui é o meu escritório e seu local de trabalho. Vai atender os telefonemas, arrumar a casa… Sabe fazer comida?

– Sei. – respondeu rápido, extrovertida.

– Então…

E foi assim que Patrícia veio morar comigo, como amigos e “a trabalho”. Naquele dia ela dormiu no meu quarto e eu no sofá. Assim que acordamos, fomos com Helder a casa onde ela morava, para buscar seus pertences. Tirei tudo do cômodo que eu usava como biblioteca e montei uma “versão para colecionador” em um dos cantos da sala, só com meus prediletos e os três que escrevi, em destaque, lógico. O restante foi empacotado e guardado embaixo da cama, junto com as caixas dos exemplares de “Em Dias De Chuva”, “Emancipado” e “Pierre & Marie”. Helder a presenteou com uma cama, que quase virou outro tipo de móvel quando tentamos montar. Por fim, quando resolvemos ser mais inteligentes, desistimos e chamamos alguém especializado no assunto. Sabe aquela taxa para montagem, que a gente resolve não pagar por achar muito caro e pensar que não deve ser tão difícil montar um móvel, ou, melhor, uma cama? Então, vale muito! Tive que pagar o dobro, pois o rapaz teve que descobrir como desmontar a merda que fizemos, antes de montar do jeito correto. O pior de tudo é que nem sou mão de vaca, realmente achei que não seria difícil montar cama. Que dificuldade tem montar um retângulo? Todas! Será que tem curso para montador de móveis ou somos burros em demasias?

O tempo voou e o mês do meu aniversário chegou. As vendas dos livros tinham duplicado e a Editora aproveitou o embalo para divulgar mais. Lembra-se do apresentador? Ligou-me dizendo que gostou dos meus livros, com um linguajar acessível a qualquer tipo de cultura ou classe e intelecto, e que o programa onde diria sobre, iria ao ar no dia dezoito de setembro. Certinho na data do meu aniversário. Passei à tarde com Patrícia e Helder bebendo, festejando meus trinta anos de vida e a alavancada que minha carreira literária estava dando. Quando a noite deu seu ar da graça, Ivone ligou e Helder foi embora, ficando apenas eu e Patrícia, como sempre. Para nossa alegria, dessa vez estava passando um filme inédito… Para nossa tristeza, era tão ruim, mas tão ruim, que pegamos no sono e acordamos de manhã, perguntando um ao outro se tinha visto o programa. Sem problemas, nada que um YouTube não resolva ou o DVD que Helder gravou com o depoimento do apresentador para guardar de recordação. Não vou entrar em detalhes, até por que, foi quase: “Lembram-se do Logan? Não, certo? Mas o livro dele é bom, eu recomendo”. Mesmo assim triplicou as vendas e sou grato por isso, só não gostei, pois fiquei com a impressão de puro descaso de sua parte.

A vida estava boa. Já estava me tornando escritor de fracassos “conhecido” e minha renda financeira estava aumentando, o suficiente para pagar Patrícia, que estava melhorando e muito sua função de secretária. Já atendia ao telefone com a agenda na mão, frase bem bolada de impacto na ponta da língua, script intermediário, e fingia muito bem que já tinha compromisso marcado para tal dia, quando eu não estava a fim de ir a lugar nenhum.

Em novembro, Helder me surge com a notícia de que Ivone estava grávida de um menino e para nascer no mês de Maio. No começo ouvia como: “A Ivone me deu um lindo golpe de barriga”. Depois de semanas, não sei se por conta da gravidez, mas, ela estava sensível de uma forma nunca vista antes, quando os encontrei, sem querer, no Shopping. Já estava preparado para fingir que não os tinha visto, mas ela me viu e gritou tão alto, que até surdo ouviria. Para minha surpresa, tratou-me bem e comentou que gostaria que fosse o padrinho da criança, e sem pré-acordo algum, esquecemos as brigas do passado. Intrigante, não? Dominique? É cada vez mais raro pensar nela, mas quando penso… O blog que tinha reativado sempre ganhava um post novo e uma folha de caderno é vez ou outra preenchida, quando quero restringir as palavras só a mim. Quem sabe um dia eu a reencontre e entregue as cartas que não mando? Como já bem cantou Leoni: “Guardo pra te dar as cartas que eu não mando…”.

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