Ventura: 12 – Reencontro (Parte 2)

Em dezembro, fiz festa surpresa para Patrícia, que completou vinte e seis anos. O mais bacana era a quantidade de convidados presentes: eu, Helder e Ivone com sua barriga já bem notável. Foi o suficiente para emocioná-la, já que nunca teve festa surpresa ou festa de aniversário mesmo. O ano virou, e em meados de abril, estávamos na sala da minha casa quando Helder me veio com a notícia de que iria entrar no mundo da produção de filmes. Já estava montando a equipe e queria que eu adaptasse o livro para roteiro.

– É o quê? – gritei quase caindo sentado no sofá.

– Isso mesmo que ouviu. Quero produzir o filme “Pierre & Marie”, rapaz. – dizia esticando os braços no ar, como se estivesse abrindo cortinas.

– Está louco?

– Qual o problema, Logan? É a sua chance! – diz Patrícia empolgadíssima, do jeito que eu deveria estar.

– Todos! – levei as mãos à cabeça, puxando os cabelos. – Pode falir se fizer isso, Helder.

– Relaxa. – diz aos risos. – Presta atenção… – sentou-se ao meu lado no sofá. – O livro só tem dois personagens principais e a história acontece praticamente no mesmo lugar. Não precisarei de um enorme montante em dinheiro para produzi-lo. Lembra daquele filme que vimos uma vez? O Once?

– E como vamos todos a Paris?

– No filme, a história pode acontecer aqui no Rio, não acha? Confia em mim, cacete. – colocou a mão no meu ombro. – Não confia mais em mim? Poderia até ser uma forma de passar que, acontecessem coisas parecidas independente de onde esteja. Uma história que aconteceu em Paris pode muito bem acontecer no Rio, e vice-versa.

O silêncio reinou na sala. Eu bastante pensativo e os dois esperando por alguma resposta. Pensando bem, tirando o caso de Ivone com a MPB anos atrás, tudo que Helder pegava para produzir, ou ajudar, ou expandir e etecetera, dava certo! Tinha bom faro artístico para as coisas que estava disposto a fazer. Fora que, qual escritor, na face da Terra, não sonha em ver seu livro nos telões do cinema? Por mais que não seja com uma produção milionária, queria ver o meu.

Respirei fundo. Olhei para os dois.

– Eu topo! Mas se der merda dessa vez, a culpa vai ser toda sua. Fechado?

Abraçaram-me e festejaram. Abrimos cervejas e comemoramos o novo passo que todos nós daríamos. De noite, assim que Helder foi embora para ficar com Ivone (que já estava com oito meses de gravidez), eu e Patrícia resolvemos “comprar” filme, para passar tempo, pela TV por assinatura que havia assinado. Não sei o que deu exatamente… Sei que o sinal ficou fora do ar no que me parecia ser a melhor parte do filme. Fiquei puto da vida, pois estava preso ao filme em um estado que chamo de “bêbado melancólico e mal-amado”. Peguei o telefone e liguei para central de atendimento, cheio de ódio, bufando, batendo o pé firme no chão e doido para soltar meus macacos articulados em cima de qualquer pessoa que atendesse. Só não esperava ouvir…

– Tevê por assinatura… Boa noite! Dominique. Com quem falo?

Silêncio, coração disparado subindo pela goela, os olhos querendo saltar da cara e um copo de uísque se espatifando no chão. Não tinha como soltar os macacos nessa pessoa.

– Tevê por assinatura… Boa noite! Dominique. Com quem falo? – repete.

– O que houve Logan? – pergunta Patrícia do sofá, assustada.

–– Por falta de comunicação estarei encerrando essa ligação. Caso esteja me ouvindo peço que…

– Oi, Dominique. – consegui falar depois de engolir seco o ódio, pé, meus macacos articulados e com a voz mais mansa do mundo. Boa, machão!

– Olá Senhor. Com quem eu falo, por gentileza?

Patrícia inquietou-se ao ouvir o nome. Não precisava ser inteligente para perceber o que estava acontecendo… Ou o que poderia acontecer. O destino pregando mais uma?

– Sou eu… Logan.

Agora foi do outro lado da linha que o silêncio foi fazer sua visita. Mas, como boa profissional, respirou fundo e:

– Boa noite, Senhor Logan. O Senhor já é cliente ou gostaria de fazer assinatura? Alguma reclamação ou sugestão? Em que posso ajudá-lo, Senhor?

Como disse anteriormente, se fosse qualquer outra operadora de telemarketing, já teria soltado meu clássico: “Senhor é o cacete!”. Como era Dominique… Como era a MINHA Dominique… Só senti meus olhos marejarem. Passei no rosto a mão que estava livre e deixei a testa pousada na palma da mão. Em momento algum passou pela cabeça que poderia ser outra Dominique. Estava convicto. Não tinha erro. Não erraria nem…

– Senhor, o que deseja? – insiste.

– Você! – respondi de imediato, sem pestanejar. Não deixava de ser verdade.

Deu até para ouvi-la soltando a respiração carregada no telefone.

– Não faz isso comigo, por favor. – diz com dificuldades.

– Precisamos nos encontrar, conversar e acertar as coisas. Mudei. Juro por tudo que me é sagrado! – não sou de ferro e comecei a chorar. – Preciso de você! Vamos…

– Logan… – interrompeu-me.

– Por onde tem andado? – continuei. – Onde mora? Ainda lembra onde moro? Vem me ver… Eu pago o táxi… Por favor. – se ela estivesse na minha frente, juro que estaria ajoelhado e abraçado a suas pernas.

– Tem certeza que é o que quer? – fria.

– Absoluta! Vou te mostrar e provar que mudei.

– Tudo bem, Logan. – soltou a respiração no telefone novamente. – Trabalho até às três da manhã, então…

– Pode vir! Vou te esperar. – agora, estaria beijando seus pés.

Silêncio.

– Mas…

– Por favor! Agora que te reencontrei, quero te ver logo. O mais depressa possível.

– Logan, Logan… Fala seu número, joguei fora naquele dia… Quando estiver no táxi, vou ligar pra que me espere na frente do seu prédio. Estamos entendidos?

– Sempre! Vou esperar. – olhei para o relógio, eram dez e onze.

– Deixe-me trabalhar agora.

Passei meu número e desligamos.

– E aí? – perguntou Patrícia sentando-se ao meu lado e me abraçando.

– Ela virá! – digo com sorriso enorme e o rosto todo molhado.

– Que bom! Bom mesmo. Que horas?

– Trabalha até as três. – olhei para o relógio novamente. – Quando estiver vindo vai ligar.

– Quer que eu passe a noite fora pra ficarem a sós?

– Não precisa! Quero que te conheça e… Saiba como e por que mudei. É minha testemunha!

– Tem certeza? – acariciou meu rosto, limpando as lágrimas.

– Absoluta!

Sorriu amistosa.

– Vamos arrumar essa bagunça pra recebê-la. – me ajudou a levantar.

– Pode ir arrumando sem mim? Vou comprar mais cigarros e cervejas.

– Vai. – beijou-me a testa e começou a arrumação. – Falar do problema sobre o filme, nada, né? – brincou.

– Amanhã a gente reclama com outro atendente. – digo correndo ao banheiro.

Joguei água no rosto, sequei na toalha e me ajeitei sem olhar para o espelho. Peguei a carteira no quarto, abri a porta da sala e saí.

– Volto já, não demoro. – e bati a porta.

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