Ventura: 12 – Reencontro (Parte 3)

Apertava o botão do elevador freneticamente, como se aquilo fosse aumentar a velocidade dele. “Por que fui morar no nono andar?” – pensei. Corri para as escadas, desci voando ao oitavo e voltei a apertar desesperadamente o botão. No painel, tinha acabado de passar pelo quinto andar. Quando cometeria a burrada de descer ao sétimo, voltei e olhei para o painel… Sétimo. Opa! Não sei o motivo de tanta pressa, já que ainda faltavam horas para que Dominique chegasse. Abriu no oitavo… Esqueci que como tinha apertado o nono, subiria até lá. Animal! Será que alguém do vigésimo havia apertado também? Para minha felicidade, não. Quando abriu no nono, logo se fechou e começou a descer. “Desce! Desce! Desce! Desce!” – pensava olhando para o painel. Olhei para o relógio. Dez e vinte nove. “Maldita hora, passa logo!”.

Chegando ao térreo, saí correndo e ignorei sem querer o: “– Boa noite, Senhor Logan” do porteiro. Fui direto ao, já famoso, sujinho perto de casa. “Cacete! Esqueci as garrafas” – pensei assim que entrei. Peguei dez de um litro e fiquei de trazer no dia seguinte. Voltei correndo para o prédio e: “– Boa noite, Severino” – respondi atrasado ao porteiro. Olhei para o painel e o elevador estava no décimo. Novamente sem raciocinar, fui para as escadas e subi correndo. Quando cheguei ao terceiro andar, o elevador estava no quarto e, com chute que nem eu sei como saiu, acertei o botão. A porta abriu, tinha um casal, e só quando entrei, o raciocínio acompanhou a lógica: “Idiota! Vai descer antes de subir”. Não deu em outra. Olhei para o relógio, dez e trinta e sete.

– Sai das dez, merda! – pensei alto. Melhor, gritei.

O casal ficou me olhando, assustados. Não os culpo.

– Desculpa. – digo baixo com os pés inquietos, corado e sem graça. – Preciso que a hora voe.

Continuaram me olhando calados.

– É… Eu sei… Não é da conta de vocês e estão pensando que sou louco. – o que o nervosismo e o não saber o que dizer faz com a gente? Deprimente.

Assim que chegou ao térreo, saíram às pressas e comecei a dedar freneticamente o botão do meu andar. A porta se fechou. Mais uma olhada para o relógio… Dez e quarenta e um.

– Bate três! Vai, ponteiro safado. – estava enlouquecendo.

Chegando ao meu andar, corri para o apartamento novecentos e três e abri a porta. Patrícia pulou no susto com o barulho das garrafas chocando-se umas nas outras dentro das sacolas.

– Que rápido! – diz toda bonitinha com a vassoura nas mãos.

Guardei-as na geladeira. Ainda tinham cinco para beber até que Dominique chegasse, pois as que acabaram de chegar eram especiais. Tirei uma das cinco, abri e voltei à sala. Ela já tinha terminado de arrumar a sala e estava sentada no sofá.

– Agora é só esperarmos.

– Nervoso?

– Muito!

– Não é melhor pedir pizza? Ela pode chegar com fome.

– Verdade! Vamos ao supermercado? Aí eu compro uísque e algumas daquelas pizzas que ficam prontas em minutos… Sei lá.

– Ué, vamos.

– Assim o tempo passa rápido, também. Espera só terminar essa garrafa.

Bebi rápido enquanto Patrícia bebia normalmente e com calmaria, que na hora achei impressionante. Quando matamos a garrafa, averiguei o relógio antes de sair… Onze e quatro. Saímos de casa. O mesmo desespero de antes, dedando freneticamente o botão do elevador.

– Isso não vai aumentar a velocidade, idiota. – diz Patrícia cruzando os braços.

– Eu sei… – e continuava.

– Para com isso, Logan! Está me deixando nervosa te ver nessa afobação toda.

Coloquei as mãos nos bolsos, respirei fundo:

– Desculpa. – não tirava os olhos do painel.

– Fique calmo… Vai dar tudo certo. – me abraçou forte.

– O problema é essa hora que não voa.

– É sempre assim. Quando queremos que voe, não voa… E quando não quer, voou.

Fomos e voltamos de táxi. Comprei quatro pizzas, garrafa de Red Label e algumas coisas que Patrícia afirmou estarmos precisando repor em casa. Voltamos perto de bater uma hora, direto a cozinha guardar as compras. Coloquei o uísque no minibar, abri cerveja e acendi meu cigarro. Fiquei pouco mais leve e tranquilo. Olhei para o relógio… Uma e onze. Larguei-me no sofá. Patrícia voltou da cozinha, encheu seu copo e sentou-se ao meu lado.

– Fica calmo. – passava a mão no meu braço. – Respira fundo. Não tenha um ataque antes de Dominique chegar. – sorriu.

– E se não vier? – baixei meu melhor ‘eu’ pessimista.

– Virá, fique tranquilo.

– Tem certeza?

– Não! Mas deve ser otimista.

– Estou com medo.

– Não fique… Qualquer coisa, eu estou aqui pra te proteger e amparar.

– Obrigado. – olhei-a com ternura. – O que seria de mim sem você?

– Eu que devo lhe dizer isso. – beijou meu ombro.

Quando piscamos, o celular tocou… Três e sete.

– Dominique? – atendi.

– Logan, eu esqueci o endereço.

Passei-lhe.

– Está mesmo vindo? – precisava ouvir de sua boca.

– Sim, fica tranquilo. – riu. Conhecia-me bem.

Ouvi-la sorrir antes de desligar, me deu um alívio estupendo.

– Está no táxi. – digo a Patrícia.

– Vou trocar de roupa pra recebê-la.

– Vou esperá-la lá na frente. Como estou? – perguntei olhando-me de cima a baixo.

– Impecável. Boa sorte. – e foi para o seu quarto.

Não preciso dizer como foi, assim que parei na frente do elevador. Certo? Vou pular para a parte onde estou na frente do prédio, olhando toda hora para o relógio e para todos os cantos da rua procurando por algum táxi a se aproximar. Meus pés inquietos, um cigarro sempre aceso, atrás do outro que mal acabou de ser jogado fora, o coração na mão e os pensamentos a mil por hora.

Exatamente as três e quarenta, um táxi para na minha frente e sai Dominique, mais linda que da última vez que nos vimos! Os cabelos negros e longos, daqueles ondulados que queriam ser encaracolados e faziam questão de deixar isso bem claro, estavam de volta. Aqueles belos olhos mais uma vez olhavam para os meus. Não sei se estava ou só parecia mais magra naquele uniforme de trabalho. Todo mundo sabe que é difícil um uniforme deixar alguém atraente como em outras roupas ou como a pessoa realmente é, mas ela ficava perfeita em qualquer tipo de roupa que usasse… Principalmente com a minha camisa branca do John Lennon.

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