Ventura: 13 – Contas (Parte 1)

Não trocamos nenhuma palavra. Estáticos com cara de “Não sei o que dizer, começa você”, até que o taxista tossiu e anunciou o valor da corrida. Tirei a carteira do bolso e paguei. Assim que sumiu da vista, me aproximei e a abracei forte, com medo que fosse fugir caso a soltasse. Minha Deusa estava de volta aos meus braços, de onde nunca deveria ter saído. Depois de longa inspirada de ar, percebi que ainda usava o mesmo condicionador e o mesmo perfume, das poucas coisas que não tinha mudado. Seu coração ainda batia acelerado e sincronizado ao meu. Em lapso repentino, pousei as mãos em seu rosto e a olhei de perto, precisava ter certeza… Obrigado, destino. Não era um sonho. Dessa vez você acertou!

– Senti tanto sua falta. – assumo quase sem voz.

– Eu também. – seu queixo tremia e não fazia frio.

– Vamos subir, precisamos conversar… E tenho alguém especial pra te apresentar. – suava frio.

– Quem? – jogou o peso do corpo na outra perna.

– Surpresa.

No elevador, estava morrendo de vontade de beijá-la, mas faltou coragem. Será que tinha encontrado alguém que não se importava com o que faz para ganhar a vida, desde que seu coração pertencesse a ele? Será que a desapontei de tal maneira a começar a se interessar pelo mesmo sexo? Será que ainda ama? Estava ocupado com aqueles pensamentos, todo embasbacado com a cabeça e o ombro esquerdo apoiados no espelho e os olhos vidrados nela, garantindo que os dela ficassem presos aos meus, como foi na primeira vez que nos vimos. Dominique sorri ternamente.

– O que houve? – pergunto.

– É a primeira vez que te vejo sem barba.

Verdade. Me esqueci desse detalhe. Havia feito pela manhã, depois de perder aposta para Patrícia. Teria que ficar sem barba durante três meses. Não é uma tarefa tão difícil quanto seria se ganhasse: ela deixaria os cabelos do sovaco crescerem por dois.

– O que achou?

– Esqueceu que sou fã da sua barba? – levou a mão ao meu rosto.

Fechei os olhos. Cheguei a suspirar sentindo aquela pele macia passeando pelo meu rosto depois de tanto tempo. Sua respiração chega ao meu queixo e quando abro os olhos, seus lábios avermelhados pelo batom estavam se aproximando dos meus, cheios de sede desde o nosso último beijo e intensificado com esse reencontro, tamanha saudade. Me entreguei, e finalmente me senti vivo.

Chegando a casa, quando abri a porta, Patrícia estava no sofá vendo televisão e bebendo. Dominique me olha com expressão mista de curiosidade e surpresa. Pigarreei chamando a atenção enquanto entrávamos. Patrícia levantou.

– Boa noite, Dominique. – diz sorrindo e se aproximando.

– Boa noite…? – diz Dominique com certa indiferença.

– Patrícia. – estende a mão.

– Boa noite, Patrícia. – cumprimentou-a, me olhando com cara feia.

– Ela é minha secretária e grande amiga. – digo desviando os olhos para Patrícia. – Quando te contarmos a história toda, vai entender tudo. – sorrio juntando fé.

Sentamos no sofá enquanto Patrícia foi à cozinha pegar outro copo. Comecei contando-lhe o ocorrido depois se sua partida, até quando conheci Patrícia e a grande conversa em Copacabana, embalando os dias seguintes, que serviram para mim como espécie de tratamento.

– Fiquei decepcionada naquele dia. – diz Dominique depois de digerir toda a informação que coloquei à sua frente.

– Imagino… Perdoe-me… Fui um tremendo idiota!

– Sei disso… Mais do que você imagina. E nem sei como aceitei vir aqui tão fácil assim… – olhou para a porta.

– Não fala assim e não pensa em fazer isso.

– Fazer isso o quê, Logan? – me encarou furiosa.

– Vou deixá-los a sós. – diz Patrícia se retirando. – Boa noite Dominique, foi um prazer enorme conhecê-la.

– Boa noite. – seu tom de voz deixa claro ser apenas por educação.

O silêncio de nossa tristeza e a fúria de Dominique parecia gritar na minha consciência. Estava disposto a lutar para que dessa vez não fosse embora e ficasse de vez. Era o que mais queria desde o dia que a deixei ir embora à toa. O que mais queria desde que me apaixonei por ela. O que mais queria, naquele dia, na minha humilde vida, era aquilo. Sabe quando às vezes chegamos naquelas fases de pensar em jogar tudo para o alto por conta de uma só? Era um desses dias.

– Por favor, me perdoe. – tentei colocar minha mão esquerda na dela em sua perna, mas tirou. – Fui um tremendo idiota preconceituoso, falei um monte de asneira, te deixei partir à toa, te fiz sofrer esse tempo todo e…

– Cala a boca, porra! – gritou raivosa. – Não faz com que eu me lembre do que passei depois daquele dia… Só eu sei o que passei, não faz ideia nem da metade. – sua respiração ofegava. – Só eu sei da turbulência que eu tive que enfrentar por conta daquele dia!

Quase me engasguei com as palavras, todas recuando de uma só vez, com medo de saírem.

– O que estou fazendo aqui? – diz baixo para si, mas ouvi.

– Não diz isso… – quase chorando com a voz trêmula. – Dá uma chance, por favor. – segurei suas mãos, me aproximei mais. – Iremos ficar juntos e nada irá nos separar… Eu juro! Acredita em mim. É pra valer!

– Será? – me olha céptica com as sobrancelhas arcadas.

– Confia! Por favor… Ajoelho na sua frente se quiser… E imploro mil vezes até.

– Não faz isso.

Ajoelhei. Tentava me levantar puxando pelos ombros da camisa.

– Logan, não faz isso! – diz irritada. – Para com essa babaquice! Que coisa mais infantil.

Levantei e sentei novamente ao seu lado. Juntei as mãos entra as pernas, de cabeça baixa, já sem esperança e noção do que poderia fazer para convencer aquela mulher.

– Precisou de outra garota de programa… – calou-se. Respirou fundo. Esfregava as mãos no rosto. – Desculpa. – bufou. – Acho que agora eu que estou sendo insensível contigo.

– Eu mereço.

– Não merece nada!

– Só quero que fiquemos bem. – segurei em suas mãos novamente e beijei cada uma. – Te amo! Preciso de você na minha vida. Preciso saber o que tem feito e o que pretende fazer… Onde está morando?… Vamos recomeçar?

Silêncio.

– Apesar de saber sobre essa mudança toda, ainda me dói muito, Logan. – seu queixo voltou a tremer.

– Eu sei. – respiro fundo, esfrego a testa. – Me perdoa, vai… Por favor! – e os olhos se enchem de lágrimas. – Vou te fazer muito feliz. Vamos ficar juntos? Vem morar comigo, ser um casal… – levanto e a puxo de leve, fazendo ficar de pé. – Dominique… – acaricio seu rosto. – Quer ser minha mulher?

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