Ventura: 13 – Contas (Parte 2)

Me olhava nos olhos. Passou a mão carinhosamente em meu rosto.

– Tem certeza que quer dar esse passo? – sorri angelicalmente. Sorriso que só Dominique tinha.

– Absoluta!

– Mesmo sabendo que já fui garota de programa?

– Sim!

– Mesmo sabendo dos riscos que pode correr namorando uma mulher que já foi garota de programa?

– Sim! Sim! Sim! – dei-lhe um selinho. – Na alegria ou na tristeza… – outro. – Na riqueza ou na pobreza… – outro. – Na saúde ou na doença… – outro.

– Chega. – diz descontraída.

E me cala com beijo cheio de paixão.

– Obrigado! – sussurro em seu ouvido.

– Só não me machuca de novo, por favor. – parecia criança pedindo trégua.

– Prometo! – com sorriso tão grande que parecia estar com cãibra. – Onde está morando? Amanhã de manhã vamos buscar logo suas coisas e trazer.

– Assim tão rápido?

– Lógico que sim! – a encho de beijos pelo rosto. – Minha mulher! Vamos comemorar nosso reencontro, e que agora em diante seja eterno!

– Podemos comemorar atrasado o meu aniversário. – seus olhos cintilavam.

– Verdade! Fez no início desse mês, não foi?

– Sim. – sorria com os olhos fechados, fazendo uma cara engraçada, moleca. – Vinte e oito aninhos! – levantou os braços para o ar.

– Com cara de vinte! – digo ‘babando’. – Vou chamar Patrícia pra comemorar com a gente.

Corri na porta de seu quarto e bati. Não atendeu. Quando abri, já dormia feito pedra. Na volta, lá estava Dominique namorando a brasa de seu filtro branco. Magnífico! Tudo estava voltando a ser como era e como nunca deveria ter deixado de ser. Ficamos a sós no sofá, bebendo, fumando e colocando o assunto em dia.

– Apareci na TV, ficou sabendo?

– Sério? – fascinada. – Quando? Não vi.

– Naquele talk-show que passa de madrugada.

– Ah… Não posso ver, é no mesmo horário que meu expediente. Mas me diga como foi.

Contei-lhe minha vida sem economizar palavras ou histórias, até os dias de hoje, inclusive a proposta de Helder.

– Que bom que tudo finalmente está dando certo na sua vida, Logan. Fico muito feliz por você! Merece muito!

– E você voltou para intensificar tudo isso. – beijei-lhe a testa. – Me conta o que fez desde…

– Quase nada! – me interrompe aos risos.

– Quero recomeçar. Saber tudo sobre sua vida… Depois que mudei meus pensamentos, vira-mexe ficava tentando imaginar o que já passou, o quanto…

– Não faz ideia. – me interrompe. Meneava a cabeça.

– Pior que faço. Um pouco. Eu acho, pois… Patrícia me contou a dela e um pouco da de suas amigas, e… Sei lá. – segurei forte em sua mão. – Não quero que tenha medo de me contar. Pode ser um livro sempre aberto comigo.

– E se eu não quiser contar? – sua expressão mudou da água para o vinho.

– Não tem problema. Só quero que conte se estiver à vontade… E o que bem quiser. Ainda não acredita que mudei, não é?

– Não é bem isso… Não sei explicar. – pausa. Esfregou as bochechas com as mãos – Já que quer tanto ouvir… Depois daquela nossa última cena, peguei o primeiro ônibus para qualquer lugar, parei no primeiro bar que vi e comecei a beber sozinha. A raiva era tão grande, que queria arrumar uns dez clientes, no mínimo. – desviou os olhos para o chão. – Não sei bem o que aconteceu comigo, pois… No primeiro cliente já não conseguia me concentrar durante a… – calou-se. Pegou o copo e bebeu todo o líquido. Tratei logo de enchê-lo assim que o depositou na mesinha – Ficava pensando em tudo que tinha dito e só conseguia sentir-me imensamente suja e um tremendo ódio de você. – sua perna direita começou a balançar inquieta. – No segundo cliente, nem tive cabeça para esperar até o final e o mandei embora. Quando amanheceu, minha vontade era de voltar à sua casa e dizer que não queria mais ser garota de programa, e suplicar pra, por favor, retirar suas palavras e me aceitar na tua vida. Durante dias tentei, mas não conseguia ir até o final… – olhava para as mãos sobre as coxas, passava o polegar direito nos pequenos calos da palma da mão esquerda. – Sentia-me cada vez mais suja! Então, aproveitei para tirar um tempo e pensar na minha vida, no por que que eu fazia aquilo, por que vim parar aqui e… Pensando seriamente em voltar para o Sul. Mas, se eu voltasse… – uma lágrima pingou na palma de sua mão esquerda. Fechou o punho na hora, prendendo o polegar na palma da mão. – O que eu diria aos meus pais?

– Por que fazia aquilo? Por que veio parar no Rio? – minha curiosidade saiu pela boca.

– Foi o mais fácil que encontrei como fonte de dinheiro quando cheguei e… Digamos que meus planos não deram certo. – sorriso frouxo. – Ninguém me conhecia. Não tem ninguém da minha família aqui. Não teria como meus pais saberem. – estalou os dedos. – Pra eles eu fugi de casa pra morar com um mauricinho babaca microempresário e trabalharia na empresa dele aqui.

– Como assim?

– Quando tinha dezesseis anos, conheci um guri na net… Nem lembro mais o nome do desgraçado. – fechou a cara. – No começo era só amizade. Ele tinha vinte e cinco anos na época, dizia ser vice-presidente da empresa do papai e que morava na Zona Sul do Rio de Janeiro. Conforme o tempo foi passando, começou a fazer declarações, dizendo que não entendia como sentia minha falta quando eu não aparecia na net, que às vezes estava com a guria dele, mas só pensava em mim, que era uma pena não poder tirar férias pra ir me ver em Osório… – pegou o copo, deu uma golada e o manteve nas mãos. Mesmo assim o enchi. – Começou a fazer minha cabeça pra vir pro Rio morar com ele, que poderia trabalhar na empresa e blábláblá… Fiquei fascinada com a ideia, pois já estava apaixonada. Quem não ficaria? Fora o fato de que sempre quis conhecer o Rio. – colocou o copo cheio de volta a mesinha. – Conversei com meus pais e, de cara, não gostaram nem um pouco da ideia. Diziam que antes de qualquer coisa, ele teria que aparecer em Osório pra que o conhecessem antes de qualquer coisa do tipo ou parecido. – girava o anel que tinha no indicador esquerdo. – Contei pra ele a reação deles e ele disse que não podia sair do Rio, pois a empresa precisava muito dele por perto e só quem viajava era o pai, e a trabalho. Então bolamos um plano de que depois que eu fizesse dezoito, abriria uma conta no banco e ele depositaria dinheiro pra eu vir ao Rio. – acendeu um cigarro. – Mas não poderia contar nada sobre os planos pros meus pais, pois havia o risco de não dar certo ou fariam algo pra destruir nosso relacionamento. – coçou a ponta do nariz. – Era muito boba, tola e ficava encantada com tudo que dizia e fazia… – novas lágrimas começaram a vira-mexe descer-lhe a face. – Assim que completei dezoito, pedi pro meu pai me ajudar a abrir uma conta no banco, alegando que iria começar a correr atrás de emprego, pois queria pra já a minha independência e precisaria ter uma… E pra juntar meus trocados também. Abrimos a conta e meu pai depositou trezentos reais de presente, só que não me disse nada, era pra ser surpresa. Então quando vi, pensei que tinha sido o guri aqui do Rio, até por que, falei com ele na net e confirmou que realmente tinha sido dele o depósito. – seus olhos arregalados estavam fixos no cinzeiro. – Peguei o número de seu celular e fiquei de ligar quando chegasse. Fui à rodoviária e comprei passagem pra madrugada de quarta pra quinta daquela semana, que era quando meu pai e meu irmão ficavam na rua até tarde assistindo jogo do Colorado, e minha mãe dormia cedo. – piscou algumas vezes e seu olhar voltou ao normal. – Assim que cheguei ao Rio, liguei e ele atendeu. Ficou de ir me buscar na rodoviária e eu esperei… Esperei… Esperei… – passou na testa o pulso da mão que segurava o cigarro. – Não apareceu. Dormi na rodoviária e acordei de manhã com o celular tocando… Olhei pro visor… – estendeu a palma da mão olhando-a, como quem estivesse revivendo a cena. – Era meu irmão. Rejeitei na hora e logo vi várias chamadas perdidas dele e do meu pai. – olhou-me. – Desliguei o celular e saí da rodoviária sem saber pra onde ir, o que fazer e com medo de contar o ocorrido aos meus pais… Só sabia chorar e chorar. – e começou a chorar e fungar o nariz. – Fiquei dormindo na rua durante quase dois meses.

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