Ventura: 13 – Contas (Parte 3)

E chorava de soluçar. Enquanto eu só conseguia ficar em silêncio, sem reação, engolindo seco, toda aquela informação. Quando voltou a si e conseguiu segurar o choro, deu continuidade com dificuldade:

– Era muito besta e orgulhosa. – sua voz começou a perder e ganhar tom. – Fora que achava que meus pais iriam me matar… Ou eles… Ou meu irmão. – seu nariz estava mais vermelho que nariz de palhaço. – No fim da primeira semana, a conta bancária já estava limpa e tive que vender meu celular pra poder me alimentar. Procurava emprego, mas não tinha como esperar que entrassem em contato, já estava sem celular. Procurava empregos que fossem me dar uma resposta concreta na hora ou algum bico que não assinasse carteira. – humedeceu os lábios com a língua. – Passaram-se duas semanas e tive que começar a pedir esmola na rua, por puro instinto de sobrevivência. – respirou fundo, olhou para os olhos da minha alma. – Sabe o que é pedir esmola pra sobreviver de migalhas?

Apenas neguei com a cabeça e engoli seco, arranhando goela a baixo.

– Um dia vi um grupo de garotas de programa fazendo ponto entre uns taxistas. Tomei coragem e fui perguntar o que precisava pra fazer programa como elas, e… Uma delas disse que precisava de um banho e roupas novas, enquanto as outras riam da minha cara. Vendi tudo que tinha na mala, me hospedei em uma pousada vagabunda, comprei roupas novas… – pausa. Olhou-se. – E assim me transformei em Nicole. – riu. – E não foi difícil arrumar cliente. Rapidamente peguei a manha das ruas. Confesso que conforme o tempo foi passando, fui cada vez mais me desapegando ao amor e gostando daquela vida. Riscos, dinheiro fácil e total independência. Até que, certo dia, enquanto bebia as custas de um cliente em um bar qualquer da vida… – soltou uma risada gostosa. – Me deparei com alguém que chamou muito, muito mesmo, a minha atenção. – me olhou. – Você! Com aqueles seus cachos bem feitos, – meneava a cabeça. – Um jeito “estou nem aí” de se vestir, seu olhar seguro, o jeito de tragar o cigarro. Não sei por que, depois de tanto tempo, foi o primeiro que me despertou atração. E não foi na Nicole, foi na Dominique. – suspira apaixonada. – Como correspondia bem ao meu olhar, resolvi me aproximar e ver no que iria dar. Não tinha nada a perder. No máximo, trocaria o cliente. – mostra a língua e pisca. – Aí vem você com aquele papo de que estava atrás de novidade, aumentando mais a minha curiosidade de você. Quando me fez a proposta de irmos pra outro lugar, nem pensei duas vezes… Só pensei: “Por que não?”. – acariciou a maçã do lado direito do meu rosto. – E me deu a noite mais maravilhosa de minha vida… – sorriu. – Deixando um gostinho de quero mais, como eu bem imaginava que seria.

Confesso que nesse momento já estava completamente derretido com seu relato. Não ousaria dizer nem fazer nada para interrompê-la. Parecia que não tinha ouvido, ou até esquecido, as partes tristes que tinha contado antes.

– Não esperava que fosse te encontrar novamente. Por isso deixei aquele bilhete sem nome, endereço, telefone, nada… Mas pode ter certeza que, vontade, eu levei comigo. – pegou minha mão e deu um beijo demorado nela. – Então, por ventura, nos reencontramos dentro de um ônibus. Naquele dia estava indo fazer programa. – olhou para o copo. – Mas você, Don Juan, me aparece cheio de criatividade, charme, dengo e jeito… – outro suspiro. – Não resisti, precisava matar aquela vontade, mesmo se fosse pela última vez. E nem me importei em perder outro cliente. O que não me faltava eram clientes. Aí tive aquela ideia de deixar nossos encontros ficarem nas mãos do destino. Se tivéssemos que ficar juntos, com certeza nos encontraríamos depois daquele dia… E depois… E depois… – mordeu o canto da boca enquanto olhava meus lábios. – E então as coisas foram acontecendo, e quando dei por mim, já estava completamente apaixonada por alguém que eu não sabia nada e temia que fosse sumir se soubesse sobre a minha vida… Sobre o meu trabalho, o que faço pra ter meu pão de cada dia. – sua expressão ficou séria, desviou os olhos para a almofada ao meu lado. – Por isso fugi naquele dia depois do cinema… Por isso te pedi que colocasse Folhetim do Chico Buarque, pra que ficasse no ar e eu fingisse pra mim mesma, que era como na música e estava lhe dando o recado. Imaginava que seria inteligente o suficiente pra entender minha indireta. Quando entrou no bar, deixei o frio bilhete de adeus embaixo da Zebra e fui embora… – olhou-me, agora com expressão de garota sapeca. – Falando nisso, ainda está com a Zezé?

– Está lá no meu quarto. – respondi aos risos. – Dorme comigo sempre!

– Depois quero vê-la.

Silêncio.

– Quando soube do seu livro e a noite de autógrafo, eu resolvi passar lá pra te ver. – continuou. – Ficava te olhando por trás das pessoas, bem escondidinha pra não correr o risco de que batesse teus olhos em mim. Parecia uma criança brincando de se esconder. – me olhou feito uma. – Por curiosidade peguei o livro e vi a sinopse… Imaginei que tivesse pescado no ar aquela minha indireta com Folhetim. Por isso tomei coragem pra entrar na fila, decidida a fazer com que me visse e pra que eu pudesse ver qual seria sua reação… E pra minha surpresa, ficou todo afobado e nem autografou o livro. – riu. – Escreveu seu telefone, pediu pra te ligar e que podia ser a cobrar… Onde já se viu um autógrafo desses? – brincou. – Ao perceber seu desespero, tive a ideia de jogar aquele bilhetinho informando que não iria embora. – olhou-me. – Daí em diante, Logan… Sabe bem o resto da história.

Peguei seu copo em sua mão e coloquei junto do meu na mesinha. Fui até a estante da televisão e do rádio, abri a gaveta de CD e tirei o da banda Oasis que tinha a faixa Stop Crying Your Heart Out. Coloquei no rádio. Play.

– Essa música sempre faz com que me lembre da minha vida, e principalmente de você. – fui me aproximando dela no sofá, deitando por cima de seu corpo.

Enquanto nos entregávamos a calorosos beijos apaixonados no sofá, Liam, Noel e companhia tocavam no rádio:

Hold on… Hold on… Don’t be scared… You’ll never change what’s been and gone…

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