Ventura: 14 – Sinceridade (Parte 1)

Tinha tudo para dizer que a vida estava perfeita e sorria de jeito maravilhoso. Dominique estava de volta e tínhamos nos resolvido. Agora, morava comigo e era minha mulher, minha companheira. A carreira subindo e subindo. Tirava pelo menos cinco horas por dia para trabalhar na adaptação do livro, de segunda à sexta. Fui convidado para alguns eventos literários, palestras, entrevistas em jornais de diversas cidades, canais de TV por assinatura… Em algumas delas até conheci alguns escritores renomados e donos de Best Sellers, que me renderam boa colheita de dicas e ideias.

Helder conseguiu toda a equipe que precisaria para a produção do filme. Começariam a fazer os testes para os dois papeis principais e alguns coadjuvantes, e fazia questão que eu fosse para escolher quem os interpretariam. Fiquei tão empolgado com o poder de escolha, que, no dia anterior ao teste, sonhei que quem faria o Pierre seria o Selton Mello e a Marie seria a Paola Oliveira. Sonho bom! Sensacional! Mas apenas sonho… Baixa renda, Logan. Baixa renda.

Fomos até o local onde seriam os testes. Nesse dia conheci o Túlio, jovem de vinte e cinco anos que estava terminando a faculdade cinematográfica. Inteligente, criativo e esperto, com postura e jeito de se vestir bem “Steven Spielberg” rejuvenescido.

– É um prazer enorme conhecê-lo, senhor Logan. – diz Túlio, me surpreendendo com a formalidade.

– Que nada. Quem sou eu? – brinco cumprimentando-o.

– O senhor pode sentar aqui comigo pra conversarmos sobre os candidatos?

– Rapaz, eu tenho idade pra ser teu irmão… Vai mesmo ficar o tempo inteiro me chamando de Senhor?

– Não, Se…

– Logan.

– Tudo bem. Me perdoe.

Sentamos na segunda fileira, bem no centro, enquanto Helder sentou lá nos fundos com Ivone, Patrícia e Dominique. Cada candidato tinha dez minutos para fazer apresentação de sua escolha e sobre qualquer tema. Ficamos de oito às doze horas, quando demos pausa para o almoço e debater sobre os primeiros candidatos. Continuamos de treze às dezessete horas, pausa para o lanche e debater sobre a segunda parte. E depois, de dezoito até às vinte e duas horas.

Como não entendo nada, só ouvia e meneava a cabeça com os comentários que Túlio fazia sobre cada um que se apresentava. Eu, por falta de experiência, não estava ali para analisar técnica, abordagem, drama… Sei lá o que se analisa nessas horas. Honestamente, fiquei procurando candidatos que tivessem o estereótipo do Selton Mello e da Paola Oliveira. Consegui dois genéricos razoáveis. Túlio até disse que, por ele, não teria escolhido os dois, mas como os personagens eram meus, ele seria o último a discordar.

Terminei o roteiro na última semana de maio, quando o Valério (filho do Helder) nasceu. Nada contra o nome, mas, até essa criança se tornar homem, vai ser muito estranho ouvir: “Valério, quer doce?”, “Valério! Já para dentro, guri!” ou “Tio, o Valério pode brincar?”. Pior ainda seria começarem a chamá-lo de “Valerinho”. Imagina mais além, a menina chegando a casa e a mãe pergunta onde estava. Ela responde: “Na casa do Valério, mãe”. Estranho. Muito estranho. Será difícil me acostumar. E essa mãe vai pensar que a filha estava na casa de algum velho pedófilo. Certeza! Coitado do meu afilhado. Mas hoje em dia tem esse lance de leis contra bullying, não é? Que é deveras engraçado, pelo menos para mim. Na minha época era só bando de idiota querendo me pôr para baixo por eu ser mais forte e bonito… Como dizia minha mãe. Quando era violência, também não era bullying, era violência mesmo. Isso meu pai resolvia com os pais. E não vou explicar como, não quero incentivar a nenhum pai ou algum filho, mas meu pai resolvia. Do seu jeito, mas resolvia.

Voltando ao assunto que realmente interessa. Como não temos religião, fui padrinho por consideração e a irmã de Ivone, madrinha. Nada de batizado ou papéis para assinar. Na mesma semana entreguei o roteiro ao Túlio e as gravações foram marcadas para a primeira semana de julho. Seria daqueles filmes que algumas cenas ocorrem narradas pelo personagem principal. Amo filmes assim. Amo livros assim!

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