Ventura: 14 – Sinceridade (Parte 2)

Dominique tirou férias em junho e aproveitamos o mês para viajarmos. Queria levá-la até Osório, para que revesse os pais e resolvesse os problemas que deixou para trás, mas não gostou da ideia e reprovou de forma que parecia o fim do mundo. Fomos passar duas semanas em pousada na belíssima Angra dos Reis. Foi maravilhoso! Tiramos várias fotos em diversas poses, juntos e das paisagens, e fizemos planos para futuramente tirar um ano de férias e passar um dia em cada ilha. Loucura não? Loucura também foi essa viagem… Magnífica! Acordávamos todo dia por volta das onze horas, fazíamos amor, almoçávamos e voltávamos para o quarto. Assistíamos a um filme para descansar o almoço, fazíamos sexo e saíamos para conhecer algum ponto da cidade ou alguma praia. Sim, há diferença entre sexo e amor, e sei bem qual é qual. Assim que a noite surgia, ficávamos abraçados olhando o mar, fazendo juras de amor e brincadeiras de casais, se é que me entende, quando pintava a sorte de parar em algum ponto deserto da praia. Voltávamos por volta das onze para a pousada, jantávamos e íamos para o quarto. Colocávamos no canal pornográfico e brincávamos de imitar cenas. E isso rolava até altas horas da madrugada. Antes de dormir, fazíamos planos para o dia seguinte, trocávamos mais juras de amor e nos embalávamos em profundo sono. No dia seguinte, tudo de novo. Uma maravilha só. Amor e sexo já estavam mais do que feitos, quase perfeitos.

Voltamos de Angra no início da última semana do mês, cheios de fotos e histórias para contar sobre os lugares que conhecemos. Tive ideias para novo livro, mas resolvi guardá-las a fim de usá-las no futuro. Minha cabeça agora era toda para o filme. Só pensava em vê-lo pronto e rodando no telão de qualquer cinema. Resolvi tirar carteira de motorista. As aulas começariam em Julho, toda terça e quinta, de nove às onze horas. Comprei o antigo Cross Fox – que já havia dito anteriormente que sou apaixonado – do Helder, que agora andava em seu Citroën C4 Pallas GLX ‘zero bala’.

Julho deu-se início, assim como as gravações. Dominique não gostava de ir, preferia ficar em casa e esperar para vê-lo na telona. Patrícia adorava toda aquela novidade. Helder raramente aparecia por conta do filho, preferia ficar em casa paparicando-o e prestando assistência a Ivone. Eu ficava com a responsabilidade de vigiar e tomar conta de tudo, fazer seguir o fluxo em perfeitas condições, como ele mesmo disse.

Já deve estar pensando: “Já está tudo bonitinho, encaixadinho e parecendo final de livro… E estou vendo aqui que as páginas já estão acabando… O que mais falta acontecer? Cadê alguma tragédia? A vida não é esse mar de rosas”. Concordo plenamente! Nada fica bonito, encaixado e parecendo final de livro o tempo inteiro, não? Pois é, sempre haverá novo capítulo enquanto o personagem principal tiver fôlego para interpretar o seu papel. Somos todos nós, livros biográficos, com idades-capítulos, coadjuvantes entrando e saindo, sendo coadjuvantes dos capítulos alheios, até que deixemos de respirar no nosso último capítulo. E as rosas murcharam no meu mar em Agosto. Estávamos a sós na cama, quando repentinamente dou de cara com uma Dominique pensativa, me olhando, parecendo estar em outro mundo.

– O que houve?

– Nada. – pisca como quem saísse de um transe. Desvia os olhos e repete, aumentando a minha curiosidade: – Nada mesmo.

– Te conheço, bebê. Sei que tem alguma coisa rondando essa cabecinha. – beijo-lhe a testa.

Permaneceu em silêncio, desviou os olhos.

– Fala comigo. O que houve?

– Não sei se devo. – olha para o teto.

– Agora quero saber… Está me matando de curiosidade.

Voltou a me olhar em silêncio.

– Fala… Por favor. Quero saber.

– Eu…

Silêncio.

– Você…?

– Melhor não.

– Diz!

– Não sei se te amo. – e saiu como soco de direita bem encaixado.

Meu coração disparou de jeito que até então nunca havia sentido.

– Como assim? – sentia como se ele fosse pular pela boca a fora e esganá-la aos berros: – Que porra é essa, mulher? Está ficando maluca?

– Não sei explicar…

– Como não sabe? – respiração começa a ofegar cada vez mais. – Já disse várias vezes que me amava.

– Eu sei. – respira fundo. – Acho que não é amor… Deve ser paixão. – voltou a me olhar. – Não é mais como antes, Logan.

– Como? Não dá pra te entender, Dominique. – não precisava pôr a mão no peito para sentir o quanto pulsava a ponto de explodir a qualquer momento.

Silêncio.

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