Ventura: 14 – Sinceridade (Parte 3)

Levantei furioso. Onde já se viu uma coisa dessas? Como alguém ama e deixa de amar assim do nada? Saí injuriado do quarto, com as mãos trêmulas peguei o maço e acendi cigarro, parando de frente para a janela da sala. Veio atrás. Senti aquele calafrio na nuca de quando notamos que alguém se aproxima. Lentamente foi deslizando as mãos pelas minhas costas, sem dizer nada. Como eu queria ouvir: “Desculpa, acho que falei besteira. Foi da boca para fora, sem pensar” ou algo do tipo. Mas não dizia nem um A, e aquilo me deixava ainda mais puto.

– Você tem outro? – perguntei friamente, ainda de costas.

– Não! Está louco?

– Se alguém está maluco nessa porra aqui, esse alguém é você, Dominique. – esbravejo. – Como alguém deixa de amar sem motivo? Como um amor some assim do nada?

– Não foi do nada…

– Como foi então? Me explica. Desenha!

– Desde quando nós nos reencontramos, não tinha certeza do que eu sentia.

– Mas você disse que me amava! – nessa parte eu já procurava minha cabeça.

– Eu sei… Acho que me enganei, Logan… Acho que é só paixão mesmo.

– Acha. Acha. Acha. Só fica no acha, porra? Tem que ter certeza, mulher! Mas que inferno! – e os vizinhos, com certeza, já conseguem me ouvir.

Se afasta e encosta as costas na parede ao meu lado, pousando o peso do corpo.

– Desculpa. – voz triste, arrependida. – É por isso que não queria dizer nada. Sabia que iria ficar revoltado.

– Quem não ficaria? Isso não se faz com nenhum ser humano, Dominique. – e as lágrimas brotam, não dava para controlar. – Como pôde me enganar assim?

– Não era a minha intenção… Pensava que meu amor tinha esfriado por conta do que aconteceu e que se reacenderia. – me abraçou forte, senti suas lágrimas caindo em minhas costas. – Gosto muito de você e quero ficar contigo… Mas não é amor, Logan, só isso.

Passei a mão livre no rosto, pressionando os dedos nas laterais da testa. Como era difícil ouvir aquilo. As palavras entravam como facas enferrujadas no meu ouvido e iam direto para o coração, como agulhas pontiagudas. Não podia perder a cabeça, explodir e sair pondo para fora, como geralmente faço quando estou nervoso. De novo não. Já estava quase saindo pela boca: “Sente falta de quando era puta! Me amava quando eu era só um brinquedo sexual que encontrava vez ou outra te procurando igual um babaca”. Conseguia segurar e lutava para ver só como: “Não me ama mais, só isso… Só isso… Como ela mesma disse: só isso… Quer ficar comigo, isso que importa… Só isso”. Mas era difícil digerir a ideia. Já passou por isso, ou por essa porra de “só isso”? Imagina a cena, mesmo se não.

– Logan, me perdoa. Eu quero ficar contigo, só não queria continuar mentindo… Gosto muito de você… De verdade! – suspiro carregado. – É sério! Quero mesmo continuar contigo. Você me faz bem… É romântico, gentil, educado… Fora o fato de que mudou radicalmente a minha vida pra melhor.

– E se seu amor continuar diminuindo? – não conseguia encará-la de jeito algum. – Seria justo com o meu que só se engrandece? Seria, Dominique? O que devo fazer? O que você faria no meu lugar?

Silêncio. Continuo:

– Pra amanhã ou depois terminar comigo alegando não sentir mais nada, enquanto posso correr o risco de estar completamente perdido de amores por você? É injusto! Muito injusto! – dei um soco na parede, que até deixou minha mão dormente de tanta dor, nada comparada à que sentiria quando o sangue esfriasse. – Não tem por que você continuar comigo com um coração em regressão.

Joguei o cigarro pela janela, passei as mãos no rosto e respirei fundo. Tentava me acalmar o mais depressa possível.

Depois de muitos minutos em silêncio:

– Tudo bem. – virei-me de frente e segurei em seus ombros. – Quer continuar comigo?

Assentiu com a cabeça. Sua face parecia cachoeira de tanto que chorava.

– Tem certeza?

– Absoluta! – sua voz falhava.

– Então dá pra esse amor voltar com o tempo. – tentei sorrir, mas foi difícil contraí-lo.

Assentiu mais uma vez e me abraçou forte.

– Agora entendo por que certa vez uma garota na escola falou que nem sempre o amor é o suficiente. Cresci pensando que era uma tremenda materialista… Mas… Acho que agora faz sentido.  – beijei-lhe a testa. – E Hebert Vianna me ensinou que: saber amar é saber deixar alguém te amar…

Voltamos à cama e fizemos o amor mais amargo e frio que já fiz/fizemos. Não conseguia sentir a excitação de sempre. O beijo parecia seco e sem sal. Não sentia vontade de tocá-la. Acho que só não brochei por que meu órgão sexual às vezes parece ter vida própria, e é um tremendo tarado que nunca nega fogo. Assim como, também, foi o sexo mais rápido que já fizemos.

Foi tenso! Trágico! Até hoje não sei se fiz tempestade em copo d’água ou se outro, em meu lugar, a mandaria para o raio que a parta com toda aquela frieza e insensibilidade. Ou… Ou… Sei lá… Realmente não sei. É difícil dizer. O que você faria no meu lugar? Conseguiu criar a cena? Não entro em muitos detalhes, para lhe dar o livre-arbítrio de imaginar como quiser. O que sei é que sou completamente a favor de qualquer tipo de sinceridade, até essas que fazem doer à alma, então, conforme os dias foram passando fui lutando, e aos poucos conseguindo esquecer aquele dia fatídico de quando descobri que o meu amor não me ama. Como se fosse bem simples, resolvi ter paciência para que com um tempo, pudesse ouvir o “Eu te amo” sincero…

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