Ventura: 15 – Déjà Vu (Parte 1)

Como Helder havia previsto, as gravações terminaram em meados de dezembro. Estávamos ansiosos e otimistas para ver Pierre & Marie na telona de cinema. O livro terminou o ano em primeiro lugar nos mais vendidos da Editora, o que motivou para já começar a pensar no próximo. Mas sobre o que falaria agora? Falar de amor novamente, não teria graça. Fui ficando cada vez mais preocupado, conforme começava a escrever algo e do nada perdia toda a excitação. Pensei em vários temas: policial, investigação, drama, fantasia, terror, ficção-científica… Acho que pensei em todos os gêneros e subgêneros. Nada parecia legal quando terminava o primeiro capítulo. Joguei uns vinte ‘primeiro capítulo’ fora.

Em Maio, Pierre & Marie estava pronto e com data marcada. Na pré-estreia, em um dos melhores cinemas da Zona Sul, fiquei fascinado ao ver que além da equipe do filme, foram alguns atores, diretores, críticos e escritores famosos, prestigiarem. Será que leram o livro? Não importa, pelo menos veriam. Na primeira fileira estávamos eu, Dominique, Patrícia, Helder, Ivone, Túlio, Alberto (que fez Pierre), Cecília (que fez Marie) e outras pessoas que eu desconhecia, representantes dos patrocinadores. Vez ou outra olhava para trás, curioso, a fim de dar conferida nos famosos que já haviam chegado e os que chegavam aos poucos, até que as luzes apagaram e meu coração disparou. É agora! Chegou a hora!

O filme começou. Enquanto assistia, não conseguia parar de pensar na vida. Como as coisas mudam conforme vamos saindo da infância, pré-adolescência, adolescência… Será que mudaria ainda mais quando me tornasse idoso? Caso eu chegue lá, no caso. Não vou dizer que sou otimista quanto a isso, pois, afinal, sou tabagista há anos. Quando criança, queria ser, além de grande, ator de Hollywood, depois de desistir da ideia de ser Super-Herói cheio de poderes inimagináveis como o Wolverine. Conforme fui chegando à pré-adolescência, os planos foram mudando: queria crescer só um pouco mais e ser como meu pai; e ter bom emprego, desde jovem, para poder crescer dentro da empresa. Na adolescência, depois do acidente, no começo ficava agradado com os planos que tia Geralda fazia para mim: curso de inglês, francês, espanhol e começar a me preparar psicologicamente para fazer faculdade de direito, a fim de me tornar advogado internacionalmente conhecido ou delegado, juiz… Se hoje falo três línguas a mais, os méritos são todos de tia Geralda. Por mim ficava só no francês. Nunca imaginaria que, a forma que encontrei para desabafar, alguém me convenceria a transformar em livro. Difícil de imaginar, também, que me faria perceber que ser escritor, era o que sempre quis, só não sabia. E na época não dava para imaginar que um de meus livros faria sucesso… Muito menos que viraria filme. Olha onde estou agora.

Tudo de bom que tenho na vida foi por ventura. Nada bem bolado ou planejado, as coisas foram sempre chegando, se acomodando e acontecendo, às vezes até, sem pedir licença. Reconheço que boa parte não aconteceria se Helder não tivesse aparecido em minha vida. Minto! Nada disso aconteceria se tia Geralda não me acolhesse em sua casa, pois foi assim que acabei parando na mesma rua que o Helder, e, por ventura, o conheci. Se não tivesse conhecido Dominique, não teria escrito Pierre & Marie. Assim como, se não tivesse conhecido Patrícia, talvez tivesse nojo do que escrevi e Dominique não estaria de volta. Céus! Parece que o destino, no fim das contas, é um cara bem legal, não? Realmente como Patrícia disse uma vez: sou um cara de sorte.

Já chegando ao fim do filme, chorava litros d’água com o personagem narrando o final, fazendo o desfecho falando de como Marie, independente do que fazia ou deixava de fazer, tinha mudado sua vida de forma maravilhosa e que nenhuma outra mulher tinha conseguido mostrar-lhe o que é um sentimento tão intenso. A cena dos dois se reencontrando naquela ponte também me matou. E para piorar, quando ele termina de falar e os dois param de frente, olho no olho, Pierre sorri e começa a tocar no fundo a música She do Elvis Costello… Só de lembrar, me arrepio. Sem sombra de dúvidas, assim como Stop Crying Your Heart Out é o tema da minha vida, She foi feita anos atrás para que eu pudesse declará-la a Dominique.

Quase enfartei quando os créditos finais subiram e todo o público aplaudiu de pé. Toda a equipe se dedicou e fez ótimo trabalho, estava estupendo. Vieram nos cumprimentar e parabenizar pela “produção boa e barata”, como dizia Helder. Sabe o que é agir feito idiota dizendo “Sou seu fã” para os seus ídolos se aproximando para parabenizá-lo pelo seu trabalho e não você pelo dele? Era eu naquela sala. Queria que o Selton Mello estivesse lá para poder fazer amizade e jogar verdes do tipo: “Quem sabe se rolar futuramente outro filme de algum livro meu você não faz o papel principal? Acho que iria ficar bem bacana. O que você acha, amigão?”. É querer abusar de mais da sorte, não? Falando em sorte, filme, livro… Será que, agora, Alessandra iria ver o filme e lembrar-se daquele escritor que conheceu na praia? Duvido.

Fomos para casa de Helder, comemorar. Rolou Champanhe, Black Label, cervejas e aperitivos. Toda a equipe estava presente e foi uma festa e tanto! Certa hora da madrugada, já quase bêbado, Helder me puxa no canto da sala:

– Cara… – laçou meu pescoço com o braço direito. – Quero muito agradecer por ser essa pessoa tão especial na minha vida.

– Não fala isso. – o lacei pelo tronco com o braço esquerdo. – Sabe que só sou o que sou graças a você, meu mestre! – bati de leve em seu peito com a mão direita.

– Nem tanto! Só o que fiz foi te dar suporte naquilo que era bom e no que precisava! Não escrevi seus livros… – enumerava nos dedos sem soltar meu pescoço. – Não fiz aquela jogada de mestre na entrevista… Não adaptei seu livro para o filme. Só o que fiz foi te mostrar alguns caminhos das pedras, facilitar um pouco aqui e ali, gastar umas verdinhas em divulgações… Enfim… Minha parte foi só investimento, e de certa forma, experiência. É um cara inteligente além do normal e que admiro em demasias… – esticou o braço para os lados como se estivesse medindo algo. – Fico lisonjeado em ter você como grande amigo… Como irmão! – laçou meu pescoço novamente. – Por saber que posso contar contigo em qualquer hora da minha vida, e se um dia acontecer alguma coisa comigo e com Ivone, meu filho vai ter alguém incrível para educá-lo!

Poderia ser o cara mais famoso do mundo: Buda, Moisés, Iemanjá, ou sei lá quem, dizendo aquilo, mas ouvir daquele ali, era sem sombra de dúvidas melhor, sem comparação. Sempre o idolatrei pelos seus ideais, as ideias, o grande coração, o bom faro, caráter, fidelidade, amizade e etc. Tinha até medo de descobrir que minha vida toda foi dando prejuízo financeiro, ou que, no fundo, os méritos sempre seriam todos dele. Não mudou muito… Continuo pensando dessa forma, mas foi magnífico ouvir aquelas palavras saindo de sua boca, por mais que estivesse bêbado. Helder nunca foi o tipo de pessoa que fala besteira quando bebe, era completamente o contrário. Certo dia me disse: “Quando bebo, digo coisas que não saberia dizer sóbrio. Sempre faço uma jura de amor fantástica para Ivone, quando estou bêbado. É surreal!”. Quem sou eu para duvidar?

– Não seria nada sem você. – insisto. – Se não tivesse feito tudo que fez por mim, talvez hoje, poderia ser um advogado fracassado ou não tão feliz quanto sou hoje, como escritor.

– Tá bom. Vamos parar com isso, nossos ovos já estão muito babados. – solta uma gargalhada alta. – Somos dois caras de sorte! Certo?

– Concordo plenamente, meu caro amigo-irmão!

– E antes que eu esqueça, quero que comece logo outro livro, pois vou querer outro filme. O próximo vai ser maior e fará sucesso recorde! Ouviu?

– Se eu te falar que ando tendo dificuldades com o novo livro, acredita? Há  meses não consigo sair do primeiro capítulo.

– Quer uma ideia?

– Sim! Sua, é sempre bem-vinda.

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