Ventura: 15 – Déjà Vu (Parte 2)

Ignorando completamente todos os convidados, ficamos sentados na escada para o segundo andar, conversando sobre a ideia brilhante que teve. Fiquei tão empolgado que nem esperei a festa acabar. Peguei Dominique e Patrícia, entramos no carro e saímos rumo a casa. Assim que deixamos o estacionamento:

– O que houve? – pergunta Dominique desconfiada.

– Helder deu uma ideia para o novo livro e quero aproveitar que estou inspirado. Se duvidar, termino ainda hoje. – otimista, inocente.

– A festa estava tão boa… – lamenta.

– Quero começar logo antes que a inspiração vá embora. – olhei-a. – Você sabe que já estou há meses tentando começar um novo e não consigo sair do primeiro capítulo. – voltei minha atenção para a estrada. – Agora vai acontecer.

– Se está dizendo…

Começa a pingar. Só assim fui reparar o quanto o céu estava negro.

– Era só o que faltava. – digo depois de bufada carregada, ligando o para-brisa. – Tinha mesmo que chover?

– Nem estava com cara de que iria chover. – comenta Patrícia, sentada atrás do meu banco, olhando o céu pela janela.

– Gosto de chuva. – assume Dominique.

– Eu também. Adoro chuva e frio. Mas odeio os dois quando estou dirigindo.

A chuva começou a apertar.

– Não é melhor voltarmos e esperar essa chuva cessar? – diz Patrícia.

– Preciso chegar o mais rápido possível para começar a pôr a ideia no papel. A inspiração pode ir embora e continuarei preso em mais um primeiro capítulo. O que não vai ser nada bom.

– Logan, vai mais devagar ou vamos voltar. – sugere Dominique.

– Estou devagar.

– Aqui, coloca o cinto. – diz Patrícia no meio do banco de trás, puxando o cinto que Dominique já deveria estar usando.

– Pra quê essa pressa? – diz Dominique irritada, encaixando o cinto de segurança.

– Já disse. Para chegar logo em casa, cacete! – olhei-a furioso pela insistência. – Pare de desviar minha atenção. – voltei os olhos para a rua.

– Olha para frente!

– Estou olhando. Porra, Dominique, já está enchendo o meu saco! Que merda!

– Calma gente. – diz Patrícia assustada tentando diminuir o peso do ambiente que estávamos criando.

– Quer fazer a mesma burrada que seu pai? – Dominique grita furiosa.

Preciso dizer? Deixei bem como aconteceu sem me importar que ficasse escrachado o que viria a seguir. Nesse momento, foi como receber choque. Tudo a minha frente sumiu, não via nada. Meu coração disparou, as lembranças do acidente voltaram perfeitamente em minha cabeça e não ouvi os gritos: “Presta atenção na rua, Logan” de Patrícia e Dominique. É, meu caro… Quando voltei para a realidade, com a pancada que Dominique deu no meu braço, só deu tempo de ver a luz de cegar se aproximando da lateral direita do carro. Tudo apagou.

Acordei pela manhã em uma cama de hospital. Parecia que tinha voltado aos meus treze anos. Sem mover nenhuma parte do corpo, meus olhos percorreram todo o local, e quando dei por mim, estava entrando em desespero, me debatendo a fim de me desprender aquela fiação toda espalhada pelo meu corpo. Quando a enfermeira surgiu para tentar me acalmar, só gritava: “Quero ver meus pais”. Veio correndo até a cama e me dopou. Conforme tudo escurecia, minha mente, outra vez, foi reconstituindo a cena do acidente, mas o que sofri com meus pais. Parecia um pesadelo sem fim. À noite abri os olhos e ao ver Helder sentado na cadeira, já me senti mais seguro. Não sei se por não ser tia Geralda ou por me garantir que realmente foi um pesadelo.

– Helder. – digo, mas ele cochilava. – Helder! – gritei com dificuldades.

– Logan. – diz com os olhos arregalados. – Você acordou. – suspira aliviado.

– O que houve? O que estou fazendo aqui?

– Não se lembra?

– Como assim?

– Do acidente.

– Sim, mas foi há anos. Como sabe que estava tendo pesadelo com a morte de meus pais?

Ficou em silêncio. Sua expressão começou a me assustar.

– O que houve? Que cara é essa?

– Rapaz… – passou as mãos no rosto. – Não lembra que estava lá em casa?

Fiquei pensativo. A única lembrança recente era aquele pesadelo.

– O que fui fazer na sua casa? – perguntei desconfiado.

– Depois que o filme estreou… – dizia devagar como se fosse difícil explicar. – Fomos todos comemorar na minha casa… Lembra?

 As lembranças foram voltando em flashes.

– Sim. Deu-me uma ideia… – fiquei pensativo. – Que não recordo agora, mas era sobre o novo livro…

– E foi embora cheio de pressa, querendo chegar a casa logo pra pôr em prática.

Aos poucos, conforme Helder foi narrando, fui lembrando. Entrei em desespero.

– Cadê Dominique? Cadê Patrícia? – e me debatia na cama. – Helder, me tira daqui, cara. Me leva até elas, por favor.

Sem saber o que fazer, começou a chamar pela enfermeira.

– Não, cara! Não chama! Ela vai me dopar, cacete! Não faz isso, porra. Está maluco?

Quando vi a enfermeira entrando na sala, meu desespero só aumentou.

– Não! Não me dopa! – gritava. – Não faz isso comigo, Helder! Você é meu irmão. Não me trai agora. Não deixa… – minha voz foi ficando cada vez mais serena. – Ela fazer… Isso… Co…migo – apaguei.

Acordei na tarde do dia seguinte. Olhei ao redor e lá estava Helder sentado na cadeira, me olhando com olheiras profundas:

– Como está se sentindo? – perguntou bocejando e se espreguiçando.

– Helder… – respirei fundo. – Nunca mentimos um para o outro… Não é verdade?

Assentiu com a cabeça.

– Espero que diga a verdade agora… – o olhei nos olhos. – Elas estão bem, não estão?

– Estão!

Suspirei aliviado:

– Alguma delas já acordou? Aconteceu alguma coisa grave? Me conta tudo…

– As duas ainda dormem profundamente. – desviou o olhar para o chão. – Nada grave.

– Quem está com elas?

– Eu e a Ivone estamos revezando os quartos.

– Vai lá dar uma olhada pra mim… Às vezes alguma delas já acordou… Sei lá. Por favor!

– Tudo bem. – levantou-se. – Já volto, fica tranquilo.

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