Ventura: 15 – Déjà Vu (Parte 3)

Assim que saiu do quarto, senti vontade de fumar e ter um canivete na mão para poder cortar todos aqueles fios. Fiquei neurótico quando lembrei que depois do primeiro acidente, precisei de acompanhamento psicológico para analisar quando estaria preparado para receber a notícia de que meus pais tinham falecido. Se algum psicólogo todo simpático entrasse naquele quarto, já poderia temer pelo pior. O médico entra:

– Como está se sentindo?

– Precisando urgentemente de um cigarro.

– Sinto muito, não poderá fumar enquanto estiver nas dependências do hospital.

– Já estou bem… Não posso dar uma saída só pra fumar um cigarro e voltar? Não preciso ficar preso nessa cama o dia todo.

– É para o seu bem, e espero que seja sincero. – foi se aproximando. – Tocarei algumas partes de seu corpo e irá dizer onde dói ou não.

Permaneci em silêncio o encarando.

– Dói? – foi tateando meu pé esquerdo e subindo lentamente até a coxa.

– Nada.

– E aqui? – na outra perna.

– Nada.

Foi repetindo o procedimento por todas as partes do meu corpo. Nada doía. De verdade.

– Tem certeza?

– Absoluta! Por que iria mentir?

– Mesmo assim, terá que ficar um tempo de repouso.

– Sim. Doutor… Não é a primeira vez que sofro acidente. Sei que rola acompanhamento psicológico antes de dar alguma notícia péssima. – olhei para o teto, tendo imagens perfeitas de Patrícia e Dominique rindo e dançando juntas na festa. – As duas mulheres que estavam comigo no carro… Diz a verdade… Já estou preparado para o pior.

– Que pior?

– Ah, Doutor. Não sou idiota… – o encarei, com vontade de voar em seu pescoço. – A luz veio da direita! Por isso estou ileso! No mínimo, alguma coisa grave aconteceu com Dominique, que estava no carona… Sejamos francos. Só quero saber se ela aguentou… Como ela está…

Seu silêncio não confortava.

– Ela morreu, não foi?

– Não sei. Sou seu médico e não delas.

– Para com essa palhaçada! Deixe de ser hipócrita! – meus nervos afloraram. – Trabalha nessa bosta ou não? Como não sabe? Incompetente!

– Não sabendo… E se acalme.

– Essa tempestade toda que estão fazendo só vai piorar minha situação. Preciso saber… Não aguento ficar nessa dúvida. – comecei a chorar como criança fazendo pirraça para ganhar o brinquedo tão esperado. – Por favor… Tire-me daqui. Quero vê-las. Já estou melhor, Doutor. Não me torture! Por favor!

– Sinto muito.

Fui dopado novamente. Acordei de madrugada. Olhei direto para a cadeira e lá estava Helder dormindo.

– Helder! – gritei.

Acordou assustado.

– Vai lá… Manda aquela maldita enfermeira escrota que só sabe dopar os outros, vir fazer a porra do trabalho dela. Não aguento mais… Toda hora essa mesma merda! E pede pra pôr uma dose que eu fique dopado durante uns trinta anos, por que enquanto não me tirarem dessa porra aqui, vou causar o inferno nesse caralho! Já é?

– Está muito nervoso, precisa ser mais paciente, amigão.

– Amigão? Amigão de gato é o rato, pra não dizer outra coisa. Ninguém me diz a porra da verdade! Nem você que se diz meu irmão, meu melhor amigo! – perdendo a noção.

– Tem de se que acalmar, Logan. Se continuar agindo assim, vai continuar não sabendo de nada!

– Sabia!

– O quê?

– Aconteceu alguma coisa!

– Não! Quem disse? – dava para perceber que não gaguejava por pouco.

– Se não tivesse acontecido, não diria que vou continuar não sabendo de nada.

Helder nunca foi bom ator e nem Ivone o conhecia tão bem quanto eu.

– Te conheço, cara. Sabe que não vai conseguir esconder de mim. – insisti, sabia que já estava quase lhe tirando a verdade.

– Não faz isso comigo. – baixou a cabeça.

– Que deu merda, já sei. De que vai adiantar trazer psicólogo e ficar adiando?

Depois de um silêncio:

– A Patrícia está bem, mas ainda não acordou.

– Sei que Patrícia está bem, estava atrás de mim no carro.

– Como assim?

– Helder! – respirei fundo tentando manter a calma. – A luz do que nos acertou… Avião, disco voador, ou seja lá o que foi… Veio da direita, compreende? Dominique estava no carona. O impacto não foi nada leve, tenho certeza absoluta! Por que ficar adiando a minha tortura? Fala a verdade… Preciso ouvir da sua boca.

– Dominique… – mergulho a cabeça nas mãos. – Morreu! – e começou a chorar.

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