Ventura: 16 – Terapia (Parte 1)

Pobre Helder, os médicos ficaram revoltados por ter me contado a verdade e, por conta disto, ele precisou de acompanhamento psicológico enquanto eu entrava no mais belo labirinto de lembranças e culpa. Psicólogo nenhum me confortaria. Não teria como me preparar para receber aquela notícia. A culpa era toda minha. Por ventura, cometi o mesmo erro que meu pai e matei a mulher que amo. Preferia ter ido junto, assim como ele. Porém, não deixaria em terra um filho para reviver por anos aquele pesadelo, e fazer remake do filme.

Recebi alta no dia seguinte e fiz questão de ficar no quarto que Patrícia estava. Não podia mostrar a ninguém o quanto estava morrendo por dentro, tinha que fingir estar sabendo lidar com aquele trauma. Não aceitaria de jeito nenhum passar por acompanhamento psicológico. Por puro livre arbítrio quis ficar com a culpa, os traumas e tudo que tivesse direito. Seria a minha sentença! Tinha que ser forte até que Patrícia acordasse e pudéssemos ir embora. Infelizmente a vida teria que continuar. Só não tinha ideia que aquela dor por dentro iria se intensificar cada vez mais, dia após dia.

Quando Ivone apareceu, decidi ir para casa e voltar no dia seguinte. Estava precisando de tempo para ficar sozinho comigo mesmo, perto de boa quantidade de álcool, tabaco, e, talvez, um trinta e oito para estourar os miolos e perder a razão de vez. Peguei dinheiro emprestado com ela e fui de táxi para casa. Assim que abri a porta, fui relembrando nossos momentos. Desabei no chão aos prantos. Ivone deve ter ligado para Helder e avisou que o assassino estava indo para casa, pois do nada surgiu atrás de mim tentando me erguer. Insisti em permanecer, mas me levantou na marra.

– Precisa ser forte! – me abraçou. – Estou aqui contigo.

– A vida perdeu o sentido. – digo com dificuldades.

– Não perdeu. Temos que ser fortes por ela e pela Patrícia.

– Como a minha vida vai continuar sem ela, Helder? Me diz!

Fechou a porta. A sala estava iluminada apenas pela luz da lua entrando sem pedir licença pelas frestas da janela.

– Não sei! Mas tem de ser assim!

– Não pode!

– Pare de se martirizar! – segurou em meus ombros e me sacudiu três vezes.

– Preciso beber! – me desprendi de suas mãos e fui cambaleando até o minibar. – Pega os copos.

Enquanto Helder foi à cozinha, peguei duas garrafas de Jack e sentei no chão perto da janela. Abri as duas e comecei a beber no gargalo feito água e como se estivesse sedento. Helder voltou com dois copos e sentou ao meu lado. Colocou um deles no chão, tirou uma garrafa da minha mão e encheu o que tinha ficado em sua posse. Peguei o outro e enchi, deixando o gargalo de lado. Nenhum de nós dizia nada. Qualquer coisa que se diga nessas horas, não é o certo. E as frases feitas que utilizamos involuntariamente, por pleno costume e o não saber o que dizer, só fazem correr o risco de piorar mais a situação. A vida segue, tem que continuar? Isso é óbvio. Então, por que essa maldita frase sempre sai nessas ocasiões? Iria querer que levantasse a cabeça e desse a volta por cima? Ela me amava, sempre iria querer o meu melhor. Não sabe o que faria no meu lugar? Não consegue imaginar como estou me sentindo? Está em lugar melhor agora? Ah, quer saber? Vai pra puta que lhe pariu, filho(a) da puta!

– Helder… – olhava para a minha sombra no chão ao meu lado. – Por que eu não fui junto?

– Não fala isso, cara. Parte o meu coração.

– Deveria ter morrido… Não ela. Não era nem pra Patrícia estar em coma. – olhei para o sofá. – Por que fui o único ileso?

– Não contesta essas coisas. São as leis da vida…

– Que lei da vida? – olhei-o. – Desde quando acreditamos nisso?

– Nessas horas é bom acreditar… Em alguma coisa. – respirou fundo, desviou os olhos para a televisão desligada. – Onde quer que ela esteja não deve estar gostando nada em nos ver desse jeito. – olhou-me, olheiras mais profundas que a última vez que o vi. Sofria tanto quanto eu. – Ninguém lhe culpa nem vai culpar pelo o que aconteceu.

– Como saberemos?

– Com certeza iria querer que estivesse bem…

– Como vou ficar bem sem ela?

– Vai ter que ficar… Por ela… Por você, tam…

Interrompo:

– Nunca te vi mais idiota do jeito que está sendo agora!

Não aguentei. Helder me abraçou e ficamos horas em silêncio enquanto eu só sabia chorar e soluçar de forma que até dificultava a respiração. Queria que aquele copo de uísque fosse um oceano de álcool, para que pudesse mergulhar ao fundo e permanecesse até que entrasse no ápice de um coma. Sabia que de gole em gole poderia não ser tão eficiente do jeito que gostaria que fosse naquela hora. No escuro daquela sala, nada conseguia distrair aquele forte aperto no peito. Era como se tivessem colocado meu coração entre as palmas das mãos, pressionando bem forte para esmagá-lo, e ele se debatia desesperadamente tentando sair, respirar, fugir. Meu sangue percorria todo o corpo velozmente e tão intenso, como as ondas do mar em dias que a maré sobe e faz estrago nas cidades próximas… O tão famoso “fenômeno natural”, porém, sem o vai-e-vem, só o intenso vai-e-vai. Mais difícil mesmo era desligar aqueles pensamentos de culpa, que com o tempo só intensificavam minha dor e tristeza. Fui entrando naquele labirinto, sem saber para onde ir ou o que fazer. Enquanto isso, o copo estava sempre cheio, enquanto a garrafa esvaziava aos poucos… Esvaziando… Esvaziando… Esvaziando como eu sem o líquido: Dominique. No momento em que a mente resolveu dar momentâneo alívio, cheguei à conclusão de que o melhor amigo do homem é o uísque, e não o cachorro… Ou pode ser só dos alcoólatras, dependendo do ponto de vista. Não tem importância alguma debater sobre isso. De repente me encontro rodeado de palavras, exclamações, interrogações, vírgulas e frases, que eu queria encontrar lugar ideal para o ponto final. Nada de vírgulas ou reticências, mas aceito um etecetera provisório… Sem reticências!

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