Ventura: 16 – Terapia (Parte 2)

Começa a turbulência de emoções, com os pensamentos no replay e aquelas mãos invisíveis pressionando forte o coração. O rosto se transforma em cachoeira, não como as belas cachoeiras de Santo Aleixo, mas sim em rosto detonado pela tristeza. Agarro forte o cabelo como se cada fio fosse um daqueles pensamentos que tanto me torturavam, e como se pudesse tirá-los da cabeça, em tufos. Não adianta! Era a festa das minhas maiores fraquezas… E parecia que não queriam ir embora de jeito algum. Os principais convidados estavam presentes: insegurança, medo, saudade, dor, culpa, insônia, depressão, tabaco, álcool… Cabem mais coisas. Só faltava arrumar o trinta e oito para estourar os miolos. Queria coragem para ir atrás. Covarde! Fraco!

Não dava para procurar forma de aceitar e perceber que sou humano, e todo ser que é humano, erra. Somos todos suscetíveis ao erro, a erros, diariamente, frequentemente… Queria que Dominique estivesse ali para ajudar a mandar todos os convidados embora. Tudo poderia não passar de brincadeira de mal gosto ou acontecer algo especial, miraculoso, que a fizesse voltar, ressuscitar. Mas não era daqueles livros com final feliz e outras facetas extraordinárias que nunca vemos na vida real, pessoas de verdade. Dominique não fazia o perfil de quem faria a versão feminina do Patrick Swayze em Ghost. Não mesmo.

– É estranho ser o culpado pela morte de quem você ama…

– A culpa não foi sua. De nada vai valer esse lamento. O que temos que fazer agora é seguir em frente, já disse.

Shiu. Fica quieto… Deixa pôr para fora…

– Desculpa.

Silêncio. Reorganizo os pensamentos.

– Será que meu pai morreu com esse sentimento? – paro para refletir, tentar me pôr no lugar. – Acho que não deu tempo dele fazer ideia que minha mãe iria morrer junto. E não imaginava que fosse morrer. Não imaginava nada. – funguei o nariz esfregando-o com força. – Como vou continuar minha vida, acordando todo dia sabendo que matei minha amada? Como vou acordar, sabendo que Dominique não vai estar ali ao meu lado? Como vou deitar, sabendo que ela não vai deitar comigo? Como vou viver sem minha Deusa? Como vou jogar o jogo da vida sem minha Dama de Copas? Não dá pra imaginar. Estou jogado… Jogando Buraco. Não! Minto! Joguei Copas Fora. Ah, sei lá! Foda-se o jogo!

– Deve procurar um psicólogo pra te ajudar a lidar com isso. Não fique lutando consigo mesmo, não tem como ganhar… Só perder.

– Até que enfim você falou algo com sentido. Já estava começando a não reconhecê-lo mais.

Quando as duas garrafas acabaram:

– Vou deitar. – levanto com dificuldades. – Amanhã vou procurar um bom psicólogo. – baguncei o cabelo, estava desnorteado. – Ou tomar coragem pra conseguir um trinta e oito. – penso.

– Vou ficar por aqui pro caso de você precisar de alguma coisa. Posso dormir no sofá?

– Me consiga um trinta e oito. – digo em voz baixa.

– O que disse?

– Pega o lençol e o travesseiro da Patrícia ou dorme lá no quarto dela. Tanto faz.

– Tudo bem. Mas o que você disse que não entendi.

– Pareço ter trinta e oito.

Desconfiado fica me olhando, não dou brecha e me afasto.

Praticamente me arrastando, cheguei ao portal do quarto. Abri a porta lentamente. Conforme minha visão do quarto ia se expandindo, o coração acelerava. Foram surgindo tremedeiras pelo corpo, suor frio, arrepio na nuca… Quando a porta se arreganhou toda, fiquei parado observando o quarto. Não consegui tomar coragem para entrar, principalmente conforme meus olhos avistavam seus pertences. Ao ver a Zebra sentada no meio da cama, antes que meu coração explodisse, fechei rapidamente a porta e bati com a testa nela. Inevitavelmente, fez-se cachoeira na face do monstro.

– Ficarei aqui na sala também. – digo a Helder, que voltava do quarto de Patrícia abraçado ao travesseiro e lençol mal enrolado.

– Quer ficar com esses? – me estende os dois.

– Não! Fique à vontade… Parece que não vou conseguir dormir agora.

– Sinto muito por não poder ficar acordado contigo. Estou mor… Cheio de sono. Passei dias dormindo de duas a três horas.

– Eu sei. – o abracei. – É um grande amigo. Fique tranquilo e durma em… Durma bem. – e fui até a cozinha.

Abri a geladeira e me deparei com sete long necks. Abri uma na camisa e voltei à sala. Sentei-me no canto escuro, acendi cigarro e os pensamentos voltaram automaticamente como se o riscar da pedra do isqueiro fosse um interruptor. Tick! Um filme iniciou em minha cabeça. A versão mais original de Pierre & Marie. No caso, Logan & Dominique, livro sem final feliz… Livro sem Dominique. E a falta da porra do trinta e oito que não sai da minha cabeça!

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