Ventura: 16 – Terapia (Parte 3)

Passei a madrugada toda acordado entre tragos, lágrimas e vontade súbita de suicídio. Por volta das seis horas tomei banho, troquei a roupa e fui passear pelo quarteirão, tentar organizar os pensamentos, sentimentos. Comprei pão, outro maço, cinco long necks e voltei. Guardei quatro na geladeira e preparei um pão, que não consegui comer. Parei na frente da porta do quarto, tomando coragem para olhar novamente. Golada carregada na cerveja, a fim de ajudar na coragem, e comecei abrir a porta lentamente. Quando chega à metade, como estava claro por conta do sol, não resisto e fecho às pressas, desabando no chão. Helder levanta no susto:

– O que houve? – a respiração ofegante, como se tivesse acabado de acordar de pesadelo.

– Ela não vai voltar. Me tira daqui, por favor.

Direto para clínica psicológica. No meio do caminho, Ivone ligou informando que Patrícia havia acordado e o médico tinha pedido para não aparecermos por lá. Boa!

A notícia do acidente repercutiu em todos os jornais impressos e televisivos. Pouco me importava com relação à carreira, mas sim pelo fato de que as pessoas poderiam especular (e com razão) que eu tinha assassinado Dominique. Cadê o C.S.I. São Gonçalo para investigar e descobrir o que só eu descobri até agora: minha culpa na praça?

O primeiro dia no psicólogo não foi nada produtivo. A sessão inteira o Dr. Agnaldo tentando conversar comigo, puxar assunto, me fazer pôr para fora. Praticamente só falei: “Matei minha mulher e meu amigo me convenceu de que você poderia me ajudar com isso. Ainda tentei convencê-lo de que preciso mesmo é de um advogado e não de psicólogo. Mas, enfim, cá estamos. Como vai o Senhor?”. Me aconselhou aqueles grupos de terapia onde as pessoas falam de seus problemas e o ouvinte graduado (nem sei se realmente é) ajuda a lidar com aquilo. Guardei aquele cartão de visita no bolso e fiquei de começar a frequentar ainda naquela semana, mas só eu sabia que não iria. Pelo menos pretendia não ir, se não fosse por Helder dando uma de pai quando foi conversar com o Psicólogo antes de irmos embora. Meu novo pai falou tanto no meu ouvido que resolvi procurar o tal grupo de transição, só para acabar com aquele sermão. Me deixou na entrada do local onde ocorriam as reuniões e só foi embora depois que entrei.

Tirando eu e a terapeuta, havia mais cinco pessoas: Margarida, solteira, trinta e dois anos, estatura mediana, pele clara como a neve, cabelos ruivos escorridos até o ombro, franja na altura das sobrancelhas e a face estrelada de sardas; Douglas, divorciado, trinta e oito anos, negro, alto, magrelo e de cabeça raspada; Zaira, viúva, sessenta e sete anos, baixa, pele branca e cabelos curtos e grisalhos; Gustavo, solteiro, vinte e três anos, moreno, baixo, acima do peso, cabelos ondulados e longos até o meio das costas e barba mal feita; e Dafne, solteira, quarenta e sete anos, alta, siliconada e cabelos loiros encaracolados. O problema de cada um? Irá conferir mais abaixo.

Sento em uma das cadeiras que formam a roda onde os outros estão sentados de frente para a terapeuta Noêmia – que quando se apresentou, entendi que seu nome era Boêmia –. Desconfortado com todos aqueles olhares curiosos querendo saber qual era o meu problema e incomodado com o sorriso amistoso da menina graduada:

– Desde já seja bem-vindo. – ela diz. – Gostaria de se apresentar?

Cruzo os braços e as pernas, e nego, não me entrego.

– Tem certeza?

Afirmo.

– Bom… – bate uma palma muda e percorre os olhos aos outros. – Quem gostaria de começar hoje para o Senhor… – me olha. – Para o Senhor Sem Nome se sentir mais à vontade? – faz graça após ser ignorada.

Gustavo levanta a mão.

– Prossiga, por favor, mas se apresentando para que o Senhor Sem Nome o conheça.

Aquele sorrisinho forçado que ela me lançava estava começando a dar nos nervos. Resumindo: Margarida não conseguia aceitar que seu coelho Roger tinha falecido tão cedo há três meses; a mulher do Douglas o trocou por um rapaz de dezenove anos; Zaira só foi descobrir que amava o marido, dois anos depois que ele bateu as botas; Gustavo recebeu recentemente a notícia de que era adotado e não conseguia lidar com isso, não conseguia mais vê-los como pais; e Dafne se apaixonou por uma mulher e queria voltar a ser Jorge, mas o que tirou na cirurgia não tinha como pôr de volta, como ela queria e estava fazendo falta. Pois é, o caso da Dafne ou Jorge, me fez cair da cadeira. E não foi literariamente falando. Agora imagina a cena.

Então assim, lá estava eu. Já percebeu que a gente tem mania feia de sempre achar que o problema dos outros é inferior ao nosso? Sempre somos quem sofre mais. Para mim, naquele dia: Margarida precisava de um psiquiatra e não de terapeuta ou psicólogo; Douglas tinha que levantar aquele lustre de corno que carregava na cabeça e seguir em frente; Zaira estava tendo o que merecia; Gustavo, tremendo ingrato mimado e sem vergonha na cara; e Dafne… Jorge… Sei lá como chamo, precisava nascer de novo. Simples e frio assim.

Duas horas depois a sessão findou sem eu dizer um pio. Enquanto aguardava Helder vir me buscar, Noêmia tentava me explicar por que eu não tinha dito nada, por conta de ser minha primeira vez e que esperava me ver ali novamente no dia seguinte e mais à vontade, e eu só pensava em não voltar nunca mais para aquele grupo de pessoas completamente retardadas e com problemas pequenos. Já que era para ficar em grupo de terapia, que fosse um de pessoas que mataram alguém ou a pessoa que ama. Pensava.

Anúncios