Ventura: 16 – Terapia (Parte 4)

Helder chega e vem na nossa direção. Sabia o que faria, então resolvi não esperar e tratei logo de sair de perto. Pelo retrovisor eu avistava os dois conversando e Helder olhando com cara de reprovação para o carro.

 – Como foi? – pergunta ao entrar e dar partida.

 – Por que pergunta se ela já lhe disse?

 – Não tínhamos combinado que você iria recorrer a esse tipo de ajuda? Por que agora está dificultando as coisas?

 – Cara! Aquele psicólogo maluco me encaminhou para o lugar errado.

 – Ah é? – riu irônico. – E qual o grupo certo?

– Sei lá qual é o grupo certo. Um de pessoas que assassinaram a própria mulher, talvez? Sei que um grupo com uma maluca, um corno, uma velha carente, um adotado mimado e escroto, e um travesti que quer voltar a ser heterossexual, não é o grupo que eu preciso.

Quase bati de cara no painel do carro com a freada que Helder deu.

– Espera! – me olhou espantado. – Que história é essa de travesti querendo voltar a ser heterossexual?

– É a porra do grupo que aquele teu amigo psicólogo me enfiou.

Fica calado digerindo a informação.

– Mas se sugeriu esse grupo, ele sabe o que está fazendo.

– É, Helder. O maluco sou eu.

      

Chegando a casa foi aquela tortura: medo de abrir a porta do quarto. Mais uma noite embalada a álcool, tabaco e sentimentos ruins. Pela primeira vez senti vontade de pular da janela. Resolvi trancar antes que tropeçasse “sem querer”. Havia alguma pequena faísca de luz dentro de mim fazendo, ao menos, tentar continuar a vida e que me mantinha, em parte, lúcido.

O segundo dia no grupo de transição não foi muito diferente do primeiro. O diferente foi descobrir novas curiosidades de meus colegas retardados e que não mataram ninguém: Margarida mais uma vez usava camisa com desenhos de coelhos felizes e eu não havia notado que ela agia como uma criança de doze anos; Douglas mais uma vez não tirou os olhos da aliança na mão enquanto falava de seu problema; Zaira ficou tentando me seduzir enquanto Douglas falava e os outros prestavam atenção nele, me deu até vontade de dar com a cabeça na parede ao vê-la como se fosse tia Geralda; Gustavo estava chateado, pois não tinha dinheiro para ir ao show de uma de suas bandas prediletas e não queria pedir “a aqueles dois”; e Dafne… Jorge chamou a atenção de todo mundo quanto entrou na sala com uma banana na calcinha/cueca ou, seja lá o que ela ou ele usa. Até que foi divertido contar ao Helder como foi esse segundo dia.

No terceiro dia, por conta de meus colegas retardados terem cumprido o que Noêmia havia pedido no encontro anterior: Dafne não foi com roupa com desenho de coelhinhos felizes e se vestiu como mulher madura; Douglas estava sem aliança e tinha começado a ir à praia para sumir a marca branca do dedo; Zaira se comportou e não deu em cima de ninguém; Gustavo estava puto da vida por que tinha pedido o ingresso aos pais; e Dafne foi sem a banana. Depois de todo mundo, Noêmia acabou conseguindo me fazendo falar.

– Já é seu terceiro dia. Tem certeza que prefere ficar vindo só para ficar olhando e ouvindo?

– O problema é que eu acho que isso aqui não ajuda ninguém e não passa de uma tremenda palhaçada.

– Nossa! Que bom! Você fala! Já estava começando a ficar desconfiada que o gato tivesse comido sua língua.

– Achava que uma pessoa graduada teria muito mais a oferecer do que esse tratamento infantil e esse seu sorrisinho falso.

– Você agindo desse jeito desde que chegou, queria que eu te tratasse como?

Senti aquele tapa verbal na cara e meu sangue ferveu principalmente com a risadinha baixa que todo mundo soltou.

– E vocês seus merdas? – me exaltei, levantei da cara. – Se martirizando por problemas pequenos e solucionáveis. Querem ver como não preciso da porra de um diploma pra solucionar de uma vez essas porras que vocês ficam chorando aqui todo dia?

Todos em silêncio me olhando com os olhos arregalados, com exceção de Noêmia, que permaneceu com aquela cara de babaca que só ela tinha.

– Margarida. – olhei em sua direção. – Compra outro coelho porra. Põe o nome dele de Roger, Pernalonga, Orelhudo, Coelho ou qualquer outro, e coloque roupas de mulher madura, não tem mais doze anos. Te garanto que não vai sentir falta do Roger quando estiver segurando o outro Roger ou fodendo com um cara que se chama Roger. Finge que é o mesmo, sei lá. Improvisa! – virei na direção de Douglas. – Você! Aceite o fato de que foi corno e pronto! Se tua mulher te trocou por um guri de dezenove anos, quem está perdendo é ela. Põe isso na tua cabeça. Fica aí chorando pelos cantos, merda. Que ela se foda! É isso que você tem que pensar. Que ela se foda! Seja sujeito homem! Se duvidar a Dafne… Ou Jorge, sei lá. Que se dane também! Se duvidar é mais homem que você! – virei na direção de Dafne. – E você, volta a se prostituir por um tempo para arrecadar dinheiro e faz uma cirurgia pra tirar esses silicones e enfiar um postiço entre suas pernas. E para de agir hora como Dafne e outra como Jorge, cacete! Se quer ser Jorge, seja o tempo inteiro! – apontei para Zaira. – Você! Sua idosa safada! Sente falta do marido, porra nenhuma! Sente falta é de alguém na tua cama pra apagar esse incêndio no asilo. Grupos de terapia não é o local ideal para se encontrar um consolo. – agora na direção do Gustavo. – Você! Você é o mais merda que tem aqui! Você não vale nem o arroz que come, seu ingrato! Um monte de criança na rua, na casa de adoção querendo um lar e você se queixando de ter um! Aposto que se for procurar, sua mãe te esqueceu numa lata de lixo enquanto usava crack. Se ela usava crack justifica por que você não tem porra nenhuma na cabeça. Eu não sei que merda estou fazendo aqui. Eu sim tenho um problema, não vocês… Seus merdas! Eu matei a mulher que eu amo! – gritei.

– Não matou! – Noêmia me corta firme.

– Matei sim!

– Não matou!

– Matei, porra! – cada vez mais alto. – Você não sabe de nada!

– Sei sim, Logan.

Não foi o fato de ela o tempo inteiro me chamar de Senhor Sem Nome por eu não ter me apresentado e agora dizer meu nome, que me assustou. O tom de voz foi igual ao de Dominique, principalmente a postura que tomou ao dizer. E aquilo quebrou minhas pernas. Chorei mais do que aquela vez que o Helder me abraçou no primeiro dia que retornei a casa. Chorei mais ainda quando todas aquelas pessoas que eu tinha ofendido, agacharam-se ao meu redor e me abraçaram.

– Todo problema é um problema, Logan. – Noêmia diz no meu ouvido. – Independente da gravidade de cada um.

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