Ventura: 17 – Ventura (Parte 1)

Depois daquele terceiro dia eu passei a ser o primeiro a abrir a boca e dar mais atenção aos relatos de meus colegas, agora nada retardados, mas sim doces pessoas passando por dificuldades chatas. E já estavam bem mais adiantados do que eu. Margarida arrumou namorado, não agia mais como garota de doze anos e de acordo com Noêmia já havia se libertado, mas insistia em continuar indo, pois tinha se apegado ao grupo e queria ajudar os demais. Douglas estava conseguindo abrir seu coração para tentar um novo amor e estava indo para o quinto encontro com uma colega de trabalho, mas quando bebia ainda chorava pela ex-mulher. Zaira finalmente assumiu que realmente não amava o marido, e o que sentia falta mesmo era de um homem para apagar seu fogo toda noite, mas há tempos não conseguia atrair ninguém, como quando era mais jovem. Gustavo já estava começando a aceitar seus pais adotivos como pais, mas ainda não conseguia voltar a chamá-los de pai e mãe, só por seus nomes. Noêmia o disse que não importava a forma que os chamava, mas sim o sentimento que tinha por eles e que fazia questão de trancafiá-lo à toa. Jorge… Digo, Dafne… Quando finalmente me acostumei a chamá-la de Jorge, ela/ele entrou em depressão, pois descobriu que a mulher por quem estava apaixonado não valia nada e assumiu que nunca aprovou a ideia dele voltar a ser heterossexual e isso o/a fez perceber que nunca deixou de ser Dafne. Confuso, não?

Antes que eu esqueça, o que eu posso adiantar quanto ao fim do tratamento deles é: Margarida juntou os panos com o namorado na casa dele e não pôde mais frequentar o grupo por conta de tempo e distância; Douglas percebeu que havia se libertado do fantasma da ex-mulher quando saía de um restaurante com sua nova namorada (a colega de trabalho), e sua ex, que estava passando pela região, o abordou com aquele famoso: “Douglas? Quanto tempo!”. E saber que ela não estava mais com o moleque não lhe deu nenhuma faísca de recaída. Depois desse dia ele só apareceu para dar seu último relato e nunca mais apareceu; Zaira depois que passou a fazer aulas de dança de salão e começou a sair com um aluno (de aproximadamente sua idade), também não mais apareceu; Gustavo sumiu do nada, mas acredito que por orgulho não quis aparecer para assumir que tinha superado; e Dafne… Sim, agora só Dafne… Se aceitou como era depois que decidiu não ser mais Jorge. Sempre complicado, não? Até hoje em dia quando a encontro, ela é uma incógnita. E vez ou outra ainda chamo de Jorge.

Conforme fui acompanhando cada um deles, lidando melhor com a própria dificuldade, me sentia mal, pois às vezes parecia que eu não tinha saído do lugar, só tentava pensar e agir que sim, e me enganar além de tudo. Ficava feliz por eles, mas nem um pouco por mim. E enquanto isso Patrícia ainda estava em um quarto de hospital. Ivone me mantinha informado sobre seus progressos e, de acordo com ela, uma ou duas vezes por dia Patrícia acordava dizendo que havia sonhado com Dominique e perguntava por nós. Não recebi mais informações quando Noêmia disse ao Helder que isso só retardaria meu “tratamento”. Mas, assim como Patrícia, também sonhava com Dominique. Não eram sonhos, eram pesadelos, que, felizmente ou não, se tornavam menos assustadores conforme passavam os dias. Em alguns eu vivia novamente o acidente, porém, sabia que iria acontecer e fazia de tudo para evitá-lo. Não importava para onde fugia dentro do sonho, o pior sempre acontecia. Até na vez que voltei para casa do Helder, o nefasto carregador de almas apareceu por lá para tirá-la de meus braços. Sabe o que é dormir no máximo três horas por dia, raramente se alimentar e não ter forças nem para se levantar da cama? Era como eu me encontrava dia sim, dia não. Tudo dependia do pico da recaída, da depressão oculta. Se não fosse Helder, passaria minha vida toda deitado no chão da sala. Ele quem me preparava o café da manhã e eu só bebia o café e comia metade do pão. Depois me levantava e levava ao grupo de transição. No começo parecia criança que precisava de todos os carinhos e cuidados para se locomover, se alimentar, tomar banho e trocar de fralda. É feio para um homem de trinta anos, mas, para mim, era como se a vida tivesse acabado e minha alma só tivesse permanecido no meu corpo a fim de me fazer viver na tortura de saber que tinha matado Dominique. Cheguei ao fundo de uma depressão maior e quase não voltei. E se não fosse pôr Noêmia e meus doces colegas de grupo enfrentando e vencendo os seus próprios problemas, acho que realmente não voltaria.

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