Ventura: 17 – Ventura (Parte 2)

Patrícia recebeu alta. Eu praticamente na mesma situação que relatei a pouco. Na verdade ela já estava melhor do que eu, e agora ajudava Helder a cuidar de mim. Foi tenso quando retornou. Estava deitado no chão, no meio de uma bagunça que nunca se fez presente em minha casa. Fumando e olhando para o teto, feito vegetal, com olheiras profundas, magrelo, cabelo grande e completamente despenteado, barba enorme e abraçado a uma nova garrafa de uísque, a qual poderia muito bem chamar de Wilson ou Jack Só conseguia sair sozinho quando era para comprar mais bebida e tabaco, pois Helder tinha dito que não faria mais esse favor. Noêmia já tinha tentado me convencer a fazer a barba e o cabelo, parar de me entregar ao álcool e fumar menos, mas nada me animava além de beber e fumar no trono de um apartamento com a boca escancarada cheia de dentes, esperando a morte chegar. Salve Raul!

Estava em um dia de recaída, bêbado e completamente pessimista quanto ao grupo quando ouvi a porta abrindo:

– Olha… Cheguei à conclusão de que aquela mulher não está conseguindo ou querendo me ajudar em nada e… Ficar com pessoas com problemas tão menores que o meu só está aumentando a minha culpa. E a Noêmia no fundo no fundo só quer tirar meu dinheiro. Encaremos os fatos, estou extremamente certo! – digo parecendo velho rabugento com problemas de incontinência e afirma que não precisa de fralda geriátrica.

– Está completamente errado, Logan, isso sim. – diz Patrícia se ajoelhando ao meu lado. – Já estou sabendo de seus progressos graças a ela.

Olhei-a completamente assustado, como se estivesse vendo fantasma, e lá estava ela em carne e osso. Não tão quanto eu, mas estava magricela. Os olhos cheios de lágrimas me olhando naquela situação decadente. Se tirassem uma foto para mostrar meses depois, até eu choraria ao me ver.

– Me perdoa, não queria que isso tivesse acontecido. – saiu da minha boca antes de abraçá-la e começar a chorar.

– Não chora, por favor. – diz acariciando meus cabelos. – Não teve culpa. Infelizmente aconteceu… Deve ser forte como sempre foi.

– Tive culpa sim, Patrícia! – gritei me rastejando para longe e encarando-a como se estivesse com medo de algo. – Matei Dominique e você sabe disso! Você estava lá! Não vem com essa de fingir que não sabe de nada e querer tirar a culpa de mim. Seja franca como sempre foi!

– Não faz assim. Precisa continuar frequentando o grupo.

– Não! – estava entregue a insanidade. – Só quer tirar o meu dinheiro. Se conhecê-la, vai concordar comigo.

– O que ela quer é tirar essa culpa que te perturba, idiota!

Silêncio. Agora sim tive certeza que ela estava de volta e que não era um clone ou alucinação.

– Helder foi me buscar no hospital e me contou que não tem levantado desse chão pra nada… E por mais que esteja melhorando só vai à terapia se ele te levar. – disse com tom de mãe dando bronca. Fechou a dupla perfeita: mãe Patrícia e pai Helder. – Só levanta pra comprar mais bebida e cigarro, bebida e cigarro… – irritada. – Ele tem que vir aqui fazer o café da manhã, trazer o almoço, a janta, e quase enfiar na sua goela pra que coma. – bufou impaciente. – Se ele não te levar você não vai por vontade própria. Olha o seu estado. Já se olhou no espelho, idiota? – meneava a cabeça em negação. – Vou cuidar de você a partir de hoje.

– Promete? – falei igual criança perdida, abraçando as pernas dobradas, tentando se esconder nelas.

– Prometo! – levantou e veio em minha direção. – Vem, por favor. – estendeu as mãos. – Vamos lá pra que você me apresente essa mocinha gente boa. – descontraiu, abriu sorriso. – Helder está nos esperando lá embaixo.

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