Ventura: 17 – Ventura (Parte 3)

Assim que chegamos apresentei a Patrícia meus doces colegas e por fim, Noêmia. Tive que “dar uma volta” a pedido de Patrícia para as duas poderem conversar melhor. Me senti adolescente rebelde que andava aprontando na escola e finalmente a mãe foi convocada pela diretora. Mas diferente de Helder, Patrícia não me expressou nenhuma reação ao, seja lá o quê, que Noêmia havia lhe contado. Como não eram permitidas pessoas que não faziam parte do grupo assistir as reuniões, meu pai e minha mãe tiveram que esperar no carro.

Na volta, já estava mais tranquilo. Noêmia já tinha sugerido, mas Patrícia foi quem me convenceu de que, realmente, uma das atitudes a se tomar era de nos mudarmos, pois seria difícil continuar morando ali com tantas recordações. Enquanto Helder procurava o novo lar, eu e Patrícia nos hospedamos em hotel. Ela me levou ao barbeiro e cabelereiro, me alimentou e cuidou de mim, como prometido. No meu aniversário não teve nenhum tipo de comemoração, além de um bom porre de uísque e noite entregue a horas de choro. Por pouco não se desfez todo o trabalho árduo de Noêmia.

Em Outubro, Helder encontrou o apartamento “ideal”, eu já estava mais conformado com a situação e voltando ao normal, digamos que noventa por cento. Os dois agitaram toda a mudança, enquanto fiquei sozinho esperando chegarem junto do caminhão com nossos pertences. Não quis saber nem imaginar o que fariam com as coisas de Dominique, mas o meu “eu” mais são, queria que não jogassem nada fora. Sabia que um dia conseguiria e iria fazer questão de tirar um tempo para ver as suas coisas, me lembrar dela e de nós, com ternura e sem depressão. Não queria esquecê-la, nem iria. Mesmo se quisesse, seria impossível. O que queria mesmo era conseguir continuar levando a vida como se ainda estivesse ali do outro lado da porta esperando eu abrir. E de certa forma estava, sei disso mais do que ninguém. Mesmo não estando em carne, estaria sempre em meu coração, minha alma, nesse livro… Em mim! Dominique sempre estará comigo até o fim. Meu eterno amor. Minha Deusa. Minha Dama de Copas. Minha novidade perfeita. Meu tudo! E mais do que nunca, “Stop Crying Your Heart Out” do Oasis, era a trilha sonora de toda a minha vida até ali. Percebi, também, que é fácil mudar seus discos, livros, fotos, lençóis, hábitos, ares e, radicalmente, sua vida. Mas as lembranças, meu caro, estarão aonde quer que vá e nunca vão mudar de você… Por ventura.

 

– Logan Machado

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