Leugim: 01 – A.A. – Amnésia Alcoólica (Parte 1)

Terça-feira. Com o barulho de seu smartphone de última geração berrando, acorda em sua confortável cama King Size feita por encomenda e desenhada por um Designer renomado nacionalmente. Os olhos semifechados confere as horas em seu Rolex Submariner. Nove horas da manhã, mas parecia nove da noite por conta da escuridão no quarto criada pelo blackout na janela. Pega o aparelho na cabeceira de cama a fim de descobrir quem resolveu incomodar. Era seu pai, o único que permitia atrapalhar seu momento Belo Adormecido.

– Oi, pai. – diz com voz baixa, embriagada de sono.

– Bom dia, filho. – do outro lado, com sua voz serena e grave. – O que aprontou dessa vez?

– Minha mãe te encheu o saco de novo, foi? – se ajeita sentando na cama, mergulha o rosto na palma da mão livre, encravando os dedos nos cabelos bagunçados.

– Não é bem assim. Ela se preocupa contigo. Sabe disso.

– Se preocupa porra nenhuma. Está sempre incomodada com qualquer coisa que faço e fica te enchendo até você me chamar pra conversar. Não sossega enquanto não encontra uma merda pra ficar reclamando e reclamando.

– Vai vir ou não? – com aquele tom de pai que na verdade está dizendo: – Vai vir ou terei de ir aí? – Ou até: – Vem! Agora!

– Tenho que ir, né?

– Vou esperar muito? Tenho reunião depois do almoço.

– Não. Pode ficar tranquilo. – saiu da cama. – Já estou de pé e rumo ao banheiro.

Despediram-se e desligou. Ficava injuriado sempre que seu pai ligava o chamando para conversar por conta de alguma reclamação que sua mãe havia feito. Já estava cansado, mas acostumado, em ser o filho problemático e irmão do mais velho de ouro e a caçula exemplar. Quando entrou no banheiro deparou-se com linda mulher de traços asiáticos, nua, dormindo em sua banheira. A cabeça tombada para o ombro esquerdo, babando sobre o mesmo. Aproximou-se. Olhou tudo em volta: calcinha pendurada no registro na parede e garrafa de uísque pela metade perto do vaso sanitário. Pegou a garrafa, deu um gole. Cruzou os braços e olhou para a mulher.

– Mas quem é você? – perguntou-se baixo, pensativo, vasculhando a mente.

Aos risos sacudiu-a pelo braço esquerdo enquanto nenhuma fragmento de lembrança surgia para lhe ajudar. Só lembrava-se que na noite anterior foi a uma balada, mas não fazia ideia de como havia voltado.

– Anda mulher… Acorde, tenho que sair.

Pôs a garrafa no chão. Com cuidado segurou-a pelos braços e puxou, colocando-a de pé mesmo com o corpo mole e a cabeça parecendo que iria sair do lugar. Abaixou-se, apoiou-a no ombro direito e suspendeu. Saiu do banheiro, jogou-a na cama e voltou para tomar banho. Talvez lá, lembraria quem era aquela misteriosa de “gueixa”. Quando saiu do banheiro só com a toalha enrolada na cintura, a desconhecida estava sentada na beira da cama, de frente para ele e com sorriso enorme o encarando.

– Bom dia, tigrão. – diz simpática esticando os braços para os lados.

– Bom dia, estranha. – ignora a simpatia e caminha até o armário.

– Estranha?

– Então… – abre a porta do armário e caça o que vestir. – Vai me desculpar, mas… Não me lembro de você nem como viemos parar aqui em casa. – se desenrola da toalha e veste a cueca.

Silêncio.

– Qual o seu nome mesmo? – pergunta enquanto veste a calça jeans.

– Adelaide. – responde antes de começa a chorar.

Vira-se de frente a ela sem entender o motivo do choro.

– Ou! Ou! – se aproxima com as mãos estendidas na altura dos ombros. – O que houve?

– Já é a segunda vez que você faz isso, Miguel. – berra. Sua voz parecia de taquara rachada.

Realmente era bem típico dele beber a ponto de não se lembrar de certos momentos do dia anterior, o que para ele era completamente normal. Respira fundo. Senta-se a seu lado. Laça o braço esquerdo em seus ombros, acariciando-a.

– Ei. Ei. Calma. – sorri. – Segunda vez que faço o quê? – precisava enrolar querendo mais informações.

– Que esquece meu nome, porra!

Levanta em um pulo:

– Opa! Calma! Como assim, mulher?

O que espantou não foi o fato de ter esquecido quem era, mas sim o fato de ter acontecido de novo com a mesma pessoa.

– É exatamente o que ouviu. Já é a segunda vez que a gente sai e no dia seguinte você não sabe quem sou eu.

Cruza os braços, esfrega a barba serrada com a mão direita.

– E… Você… É? – a olha com a maior naturalidade do mundo.

– Vá se foder, Miguel! Você é um babaca filho da puta mesmo!

Segura o travesseiro míssil antes que se chocasse em seu rosto. Ela pega seu vestido vermelho que estava no chão.

– Nunca mais! Está me ouvindo? – apontava-lhe o dedo, furiosa. – Isso nunca mais vai acontecer. Desgraçado!

– Assim espero, também, por que… – segurou o riso. – Três vezes já começa a ficar complicado pra mim.

Adelaide solta grunhido alto de raiva.

– Como eu sou idiota, meu Deus! – veste rápido o vestido. – Bem que a Vilma disse que você não vale nada, que é um estúpido egoísta e egocêntrico de merda!

Miguel franze a testa.

– E quem é Vilma? – ignora as ofensas, que tanto já estava acostumado em escutar.

– Minha irmã, porra! – grita. – Vai dizer que também não se lembra dela?

Silêncio. Culpado!

Se aproxima quase espumando pela boca e lhe aponta o dedo quase que encostando no pau do nariz:

– Escute bem o que vou falar agora, Miguel! – o encara nos olhos, parecia estar em chamas de fúria. – Você vai morrer sozinho e completamente fodido, sem NINGUÉM! Não vai ter nem osso pra roer! Me ouviu? Um dia vai pagar por ser tão escroto!

Miguel sorri, pousa as mãos em seus braços:

– Pra quê tanto ódio nesse coraçãozinho, sua linda?

Tentou lhe estapear, mas ele esquivou. Respirou fundo e foi embora. Assim que ela saiu, se espreguiçou aos risos e voltou de frente ao armário.

– É cada louca que aparece aqui em casa. Sei que meu charme é irresistível, mas… Duas vezes? – impressionado. – É sério mesmo? Duas vezes?

Anúncios