Leugim: 02 – E.M.P.

Saiu de casa por volta das onze e dezessete, em seu BMW Z4 vermelho rumo à casa de seus pais, distância de mais ou menos cinquenta quilômetros, que fazia em vinte e cinco minutos quando não havia vestígio de congestionamento. Sabia que seu pai costumava almoçar por volta do meio dia, então daria tempo de conversarem durante o almoço. Sem problemas!

No primeiro semáforo que encontrou fechado, o carro deu solavancada com impacto vindo da traseira. Olhou pelo retrovisor e avistou um velho Fusca colado. No volante um senhor de idade, com cara de medo e as mãos na cabeça. Sem desligar o carro, abriu a porta e saiu. O homem já veio se desculpando:

– Me perdoe, por favor, o freio falhou, não foi intencional nem sou barbeiro. Já é a segunda vez que esse freio me deixa na mão. – dizia quase chorando. – Estava até de passar na oficina hoje, eu juro.

Miguel olha a traseira de seu carro. A batida rendeu-lhe apenas enorme arranhão, comparado ao Fusca que perdeu o para-choque, pertencia ao chão agora.

– Quanto será o conserto? – pergunta ao homem.

– Não faço a mínima ideia. – diz olhando para o arranhão. – Mas do jeito que o carro do senhor é caro, deve valer a minha vida. – vai até o fusca e tira as chaves da ignição. – Toma! É seu. – estende-lhe a chave. – O restante eu posso pagar parcelado?

– Não, que isso? Relaxa. – diz aos risos, negando a chave. – Perguntei o conserto do seu para-choque. – aponta.

O homem recua sem entender o que acabou de ouvir.

– Mas fui eu quem bateu no seu carro.

– Ah, não esquenta a cabeça com isso. – olha a traseira do carro. – Esse arranhão até que deu um charme. – volta-se para o fusca. – Tem dinheiro pra consertar o seu prejuízo?

– Não, mas tem um mecânico amigo meu que faz um preço camarada pra mim e parcela até.

Miguel puxa a carteira, tira seu cartão-de-visitas e entrega ao homem.

– Aqui. Leve seu carro pra consertar e quando tiver o preço, ligue para esse número e diga que eu quem bati no senhor.

– Mas… – pega o cartão e olha a frente: “Se bati no seu carro ou no muro da sua casa. Se vomitei no seu jardim. Ou se simplesmente lhe devo alguma coisa, ligue para esse número… Ass: Miguel dos Anjos”. Voltou seus olhos desacreditados para Miguel. – E o que falo quando ligar?

– Qual o seu nome?

– Meu nome é Bruno.

– Um minuto, por favor. – se afastou, tirou o celular do bolso e fez ligação.

O homem ficou o olhando, se perguntando se aquilo estava mesmo acontecendo.

– Bruno de quê?

– Bruno Souza Anglorinni.

– Bruno Souza Anglorinni. – repete Miguel, enquanto acha interessante o sobrenome, para alguém do outro lado da linha. – Copiou? – repete pausadamente: – Anglorinni. Positivo?  Tudo bem. Resolve rápido quando ele ligar, pois precisa muito do Fusca funcionando. Abração. – desligou, devolveu o celular ao bolso. – Então, só ligar, passar seu nome completo e dizer que é o senhor do Fusca. – sorriu. – Combinado?

– Mas… Eu ainda não entendi. – coçava sua frente de praia na cabeça com a ponta do polegar e do indicador.

– O que não entendeu?

– Quem tem que pagar o prejuízo sou eu… O meu e o seu.

– Tem condição de pagar os dois?

– Não, mas…

– E o seu?

– Dou um jeito.

– Então, já dei o jeito por você, lhe economiza tempo. – laçou seu ombro com o braço direito e o guiou até a porta do fusca. – Leva na oficina e faz o que eu disse. Pode ficar tranquilo que independente de quanto seja o valor do conserto, não vai afetar o meu bolso.

– Entendi. Mas eu quero fazer alguma coisa pra retribuir.

Miguel ficou pensativo enquanto Bruno esperançoso aguardava por alguma ideia boa e que fosse dentro de suas limitações.

– Gosta de uma boa putaria?

Silêncio. Bruno olha para um lado e para o outro.

– Gosta de assistir umas gostosas se mostrando nuas na frente do computador ao vivo?

– Já entendi o que está havendo. – com cara de babaca procurando por algo ao redor e ao longe. – É uma pegadinha, não?

– Não. Olha… – foi até seu carro pelo lado do carona. Abriu o porta-luvas, pegou algo e voltou. – Tome. – entregou-lhe outro cartão-de-visitas. – Se quer tanto pagar pelo prejuízo de alguma forma, entre nesse site e faça a sua alegria… E a alegria de uma das minhas meninas. Beleza?

Bruno olha para o cartão. Enorme em fonte Impact estava escrito: Prazer Angelical. E menor embaixo: As garotas mais lindas do Brasil para fazer a sua alegria e do seu garoto! Acesse:…”.

– É um site pornográfico?

– Nada. Você acessa, se cadastra e compra créditos pra pagar uma das meninas pra fazerem um strip-tease bem do caralho. Só tem mulher perfeita. Sabe aquelas dançarinas gostosas da TV?

Bruno engolindo seco confirma com a cabeça.

– As mulheres desse site. – aponta para o cartão. – Dão de dez a zero nelas. Seu prazer é garantido!

– Você é cafetão?

– Não! Sou um E.M.P. – sorri orgulhoso.

– E o que é isso?

– Empreendedor do mundo da putaria.

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