Leugim: 03 – Mau Exemplo (Parte 1)

Chegando à mansão dos pais, o portão automático logo se abriu ao ser identificado pela câmera. Estacionou no jardim perto da coleção de carros de seu pai. Assim que saiu do carro, avistou sua irmã correndo ao seu encontro. Sorriu ao vê-la. Era a mulher mais importante em sua vida, como já disse inúmeras vezes ao seu melhor amigo, César. Samantha, sua irmã, era uma linda garota de dezoito anos (recém-completados), que cursava direito na melhor faculdade particular do Rio de Janeiro. Amor de pessoa e, para ele, mesmo ela não tendo o nome de anjo, como ele e o irmão, era um deles na Terra, diferente dele, que não fazia jus ao “cargo”. Sempre que se encontravam, sentia incrível paz só por estar ao seu lado. Encontrá-la era raro, pois preferia não manter contato por saber que não era bom exemplo, o que já havia sido confirmado inúmeras vezes por sua mãe.

– Miguel, meu anjo, quanto tempo. – diz ela abraçando-o forte.

– Sam-sam… – retribui o abraço à altura. – Quantas vezes vou ter que lhe dizer que o único anjo dessa família é você?

– Para, bobo. Faz meses que não nos vemos. – dá-lhe um beijo estalado na bochecha.

– Desde aquela sua entediante festa de aniversário. – brinca.

A festa de aniversário de Samantha foi o sonho de muitas meninas da sua idade, em um enorme salão de dois andares. O primeiro andar era onde ficavam as mesas, o palco com a banda tocando músicas de sua escolha, e no segundo andar era repleto de jogos e computadores conectados a internet. Não tinha sido tão entediante assim, até por que, ele e seu pai vez ou outra se escondiam no carro para tomar um dos uísques que havia escondido no porta-malas. Fora o fato de que, por mais que não lembre, foi o dia em que conheceu e se envolveu pela primeira vez com Adelaide.

– Uma festa não precisa ter bebidas pra ser legal, Miguel. – riu. – Se desprende disso.

– Não tem como. – abraçou-a e foram caminhando até a entrada da mansão. – Sou como um carro a álcool… Entende?

– Só você mesmo.

– Gabriel está em casa?

– Não.

– Maravilha!

Samantha para de caminhar e cruza os braços.

– O que foi? – Miguel pergunta.

– Acho que já está mais do que na hora de vocês dois tentarem se entender… Principalmente você e a mamãe.

Recuou alguns passos, abraçou-a novamente e suavemente a fez voltar a caminhar:

– Nossa conversa estava tão boa até agora. – beijou-lhe o couro cabeludo. – Não vamos piorá-la com esses assuntos.

– Mas…

– Como está na faculdade?

– Sou a queridinha dos professores.

– Conta uma novidade agora. – brinca.

Chegando à porta, sua mãe os esperava.

– Não está tentando converter sua irmã a esse mundo imundo de desgraça e escuridão em que vive, né, MIGUEL? – séria como sempre.

– Mãe! – Samantha suplica.

– Boa tarde pra você também, FABÍOLA. – ignora a pergunta e entra.

Samantha fica para trás a fim de conversar com a mãe sobre o que acabara de acontecer e Miguel segue rumo à sala de jantar. Sem erro, lá estava seu pai, de terno e gravata, lendo jornal enquanto almoçava. Dá uns socos de leve na madeira do portal.

– Boa tarde, pai. – se anuncia. – Seu filho mais bonito chegou.

Ele baixa o jornal e o olha por cima deles. Sorri.

– Olha você aí. – dobra o jornal.

– Quanto tempo nós ainda temos antes da sua reunião?

Olha para o relógio. Miguel senta na cadeira mais próxima a que seu pai estava.

– Não tem problema eu chegar atrasado, afinal de contas… – olha para um lado e para o outro. – Quem manda naquela porra sou eu. – brinca aos risos.

– Verdade. – o acompanha na risada.

Sua mãe pigarreia do portal e eles ficam em silêncio. Assim que ela sai:

– Ela não dá uma brecha. – Miguel sussurra.

Seu pai sorri concordando e:

– Então, Miguel, o que tenho pra conversar contigo é um assunto deveras importante para o seu futuro e da sua família… Ou seja, da nossa família.

– Pai, não quero trabalhar na sua empresa ou presidir uma das subsidiarias ou uma das seja lá o que for que façam parte. – bufa. – Já conversamos sobre isso a minha adolescência inteira. Fora que já tem o Gabriel pra te substituir lá quando quiser se aposentar e acredito muito que todas as outras, igualmente.

– Não é sobre isso.

– Então… Não quero montar um negócio com o Gabriel. Você sabe que nunca vai dar certo misturar água e óleo.

– Também não é isso.

– OK! Caralho, eu só estou fingindo que não sei o que é. – mergulha a cara nas mãos, respira fundo. – Terá de me dar dois esporros, então, pois… Sim, eu me envolvi com a Vilma e acabei me envolvendo com a Adelaide, mas…

Seu pai voou em cima, calando-o a boca.

– Está maluco, rapaz? Quer que sua mãe te exorcize? Não é isso. – tira as mãos de sua boca. – E, por mim, devo lhe dar os parabéns, pois são duas meninas bem bonitas, mas… Por sua mãe e por moral, isso não é nada legal. São duas meninas de família. Filhas da…

– Eu sei pai. Eu sei. – solta bufada carregada.

– Enfim… Sua mãe não está nada feliz com o que tem feito da vida.

– Me conta uma novidade.

– Que história é essa de que virou cafetão? – pergunta com expressão preocupada.

Miguel cai em gargalhadas de doer o estômago e fazer chorar. Segundos depois sua mãe surge no portal.

– Do que ele ri, Jesus? Qual foi a piada que você contou dessa vez? – pergunta se aproximando. – Quero ouvir também, estou curiosa.

– Mãe… – tenta se recompor. – De onde tirou essa ideia que virei cafetão?

– Fiquei sabendo na igreja que você montou um site pornográfico onde as pessoas contratam mulheres da vida pra satisfazerem seus desejos imundos.

– Nossa! – arregala os olhos. – Não sabia que o site estava tão famoso a ponto de um irmão teu da igreja saber da existência dele. Mas… – desconfiado. – Como ele soube que é meu? E olha que divina hipocrisia, um membro da tua…

– Não mude de assunto, Miguel! – o interrompe.

– É só um site onde os usuários pagam pra que as meninas façam strip pela webcam. Não é um puteiro online.

– E como funciona isso? – seu pai pergunta.

– Jesus! – Fabíola o censura.

– Ué, agora eu fiquei curioso, Fabíola. – se explica. – Não que eu me interesse por esse tipo de coisa, mas é bom ele explicar bem pra esses rumores não continuarem se espalhando.

– Então… – Miguel se ajeita na cadeira. – Não vou dizer pra vocês que são modelos e blábláblá como muitos sites fazem, mas… – ênfase no “mas”. – São garotas de programa, sim. Porém… Não tenho nada a ver com essa parte. O que fiz foi, paguei que construíssem um site pra mim e fechei negócio lucrativo pra ambas as partes com elas, digamos assim.

– Que negócio, Miguel? – sua mãe pergunta.

– Na casa de cada uma delas eu instalei webcam e um programa, que transmite direto para uma das salas do meu site. Elas ligam e desligam quando bem querem. Os usuários entram, fazem cadastro e com dinheiro real compram dinheiro virtual para pagá-las pelo strip ou seja lá o que for que eles queiram que façam.

– E isso dá dinheiro? – seu pai pergunta.

– Não tem ideia do quanto, pai. Trinta por cento pra mim, sessenta por cento pra elas e dez tem sido o suficiente para manter o site no ar.

– Mas se você entrou com o site, comprou as câmeras e tudo o mais… Como vai cobrir seu gasto sem ser a longo prazo?

– Eu entrei com o mais “fácil”. – aspas com os dedos. – E elas entram com o mais “difícil”. – novamente. – Por isso é melhor dessa forma, e mesmo eu ganhando trinta, em dois meses já garanti o que gastei. Por incrível que pareça.

– Dá tanto dinheiro assim?

– Jesus! Não prolonga essa ideia imunda! – Fabíola o critica.

– Vocês tem que entender que eu sou um E.M.P de sucesso, nada de cafetão. – diz Miguel orgulhoso, novamente.

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