Leugim: 03 – Mau Exemplo (Parte 2)

– E.M.P? O que significa? Abreviação que a sua geração inventou pra Empreendedor? Empresário?

– Pode ser… Outro dia eu explico melhor isso, mas, enfim… Não sou cafetão, mãe. Fica tranquila que só garanto agasalho aqueles que sentem frio e não tem condições de sair e arrumar um bom edredom, digamos assim.

Fabíola cruza os braços, balança a cabeça em negação.

– E mesmo se eu fosse… Qual o problema? É a minha vida. Não sou mais a criança que a senhora ficava ditando o que devia fazer ou não.

– O problema é que é um mundo perigoso e criminoso, Miguel! Você é sim um cafetão… Cafetão virtual!

– Quê? – se espanta com o “criminoso”.

– Isso mesmo. E por mais que odeie a ideia, sou tua mãe e tenho direito sim de interferir na tua vida quando eu achar que está fazendo coisas erradas! Você vive a jogar ela fora.

Miguel respira fundo. Seu pai apenas ouve, não fala nada.

– É um rapaz tão bonito, inteligente… Você tem dois diplomas de faculdade, Miguel, devia usá-los de vez em quando.

– Ah, sim. Um por obrigação tua e outro que eu quis fazer só por curiosidade, pra uso e fruto pessoal.

– Por obrigação, mas você se empenhou e concluiu na metade do tempo normal.

– Por que você disse que era a última coisa que iria me obrigar a fazer. Se eu fizesse a porra da faculdade de administração, você nunca mais iria me forçar a nada, pois saberia, assim, que eu estaria com minha vida encaminhada. Fiz aquela merda só pensando em terminar e me libertar da escravidão que eu vivia nessa casa. Por sorte consegui que me deixasse ir morar sozinho perto da faculdade. – se levanta furioso. – Eu cumpri a porra da minha parte, mãe. Agora tenta cumprir a sua.

– É? E que vida encaminhada é essa que eu não vejo? Duas faculdades e usa o diploma pra limpar a bunda! – grita.

Silêncio.

– Já estão começando a pegar pesado um com o outro de novo. – diz Jesus, calmo. – Isso não é nada legal. Era pra termos um diálogo inteligente, maduro e contemporâneo, mas vocês sempre preferem o diálogo paleolítico, berrando e brigando um com o outro, feito dois primatas.

– Jesus! – diz Fabíola com os olhos arregalados, sentindo-se ofendida.

– Mas é mentira, amada esposa? Você me pede pra conversar com ele, mas sempre termina desse jeito. Eu assistindo vocês dois destruírem qualquer vestígio que tenha sobrado da relação mãe e filho.

Silêncio.

– Desculpa pai. – diz Miguel mais calmo.

– Você não me deve desculpas. – se levanta. – Vocês se devem desculpas.

– Acho melhor eu ir embora. Já respondi o que queriam.

– Vai fugir mais uma vez? – pergunta Fabíola cutucando-o.

– Fabíola! – diz Jesus em tom mais firme, como com Miguel no celular.

– Mas é, Jesus… Ele sempre foge, não aguenta ouvir verdade.

– Verdade, mãe? Que porra de verdade?

– Que por mais que você tenha dois diplomas, sua especialidade mesmo é beber todo santo dia, se envolver com prostitutas e gastar o dinheiro do seu pai! É mentira minha, Jesus?

– Você concorda com ela? – Miguel com o coração na boca, pergunta ao pai.

Com os olhos lacrimejados olha para o filho trêmulo e em seguida para sua fria mulher. Volta a olhar para o filho:

– Não concordo. E ver vocês assim, está me partindo o coração.

Os dois ficam em silêncio. Ele pega o jornal, coloca debaixo do braço. Olha para o relógio de pulso:

– Estou atrasado pra minha reunião. – abraça Miguel. – Depois nós continuaremos nossa conversa. – se aproxima de Fabíola e lhe dá um selinho na testa. – Se acalma, graciosa esposa. Eu te amo. – e sai.

Fabíola puxa cadeira e senta. Quando Miguel ameaça levantar.

– Está vendo o que fez?

– Eu? – leva as mãos ao peito, intrigado.

– Mais quem você vai partir o coração? Só falta o da Samantha.

– Não coloca a Sam no meio do nosso problema!

– É esse mau exemplo que você quer continuar sendo pra ela. Entendo.

– Não mete a Sam nisso! – seus olhos se enchem de lágrimas, o coração aperta.

– Não faz isso mãe. – diz Samantha no portal, prestes a chorar. – Não faz isso com ele, por favor.

– Meus parabéns, Fabíola. Você realmente é uma mãe foda pra caralho! – diz enfurecido antes de sair com passos largos e apressados.

– Não vai embora, Miguel. – diz Samantha assim que ele esbarra com ela no portal e continua o percurso.

– Ele ainda vai te machucar minha filha. – diz Fabíola ainda sentada, imóvel. – Ouve o que estou te falando.

Miguel entra no carro, acende cigarro e não aguenta, seu rosto se transforma em cachoeira. A porta do carona se abre, quando olha para o lado, era sua irmã com o rosto molhado e vermelho, chorando igual.

– Não chora. – diz ela passando as mãos em seu rosto, limpando as lágrimas.

– Desculpa. Não queria que me visse desse jeito.

– Ela sempre pega pesado e não é por mal, é pelo seu bem.

– Eu sei. – por mais que discordasse, preferia concordar para não entrar em debate.

– O clima está muito pesado aqui. O que acha de me levar pra sair e esquecermos o que houve hoje?

Miguel sorri. Respira fundo.

– Você tem certeza que não é um anjo em vez de minha irmã?

– Não sou anjo algum. – aperta suas bochechas. – Sou sua irmã e amiga, nada mais. – coloca o cinto. – Então, pra onde iremos?

Miguel liga o carro e pousa as mãos no volante, olhando-o sério, pensativo, com uma frase se repetindo na cabeça: “Mau exemplo! Mau exemplo!”.

– Sua mãe não vai gostar nada de saber que está saindo comigo. É melhor não irmos a lugar nenhum.

– Mas, Miguel, você é meu irmão! – como criança fazendo mimo para os pais: “Mas, mãe, você prometeu!”.

– Eu sei. Mas é a vontade dela. Sou mau exemplo pra você e ela tem razão.

– Não é.

– Sou!

– E mesmo se fosse, eu já tenho dezoito anos, sei muito bem distinguir o que é bom ou ruim pra mim.

– Acredite… – olha em seus olhos. – Isso não vale de nada pra ela. Experiência própria.

– Mas, Miguel…

– Samantha, desce do carro e me deixe ir embora. – tenta se manter firme na decisão.

– Não faz isso comigo. – seus olhos se enchem de lágrimas. – Não precisa agir assim só por que ela disse aquelas coisas.

– Me desculpe, mas não quero dar motivos pra ela ter um novo assunto pra ficar na minha cabeça infernizando.

– Tudo bem… Você quem sabe. – tira o cinto, lhe dá um beijo na bochecha e sai do carro. – Vê se não some. Eu me sinto mais a vontade com você do que com o Gabriel. Eu te amo, irmão.

– Também te amo. E vai ter que se contentar só com o Gabriel. – e arranca com o carro rumo ao portão.

E aquelas palavras continuavam em sua cabeça: “Mau exemplo! Mau exemplo!”.

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