Leugim: 04 – Até tu, Brutus? (Parte 1)

Parou no primeiro bar que viu pela frente. Estacionou na calçada, acionou o alarme e entrou. A frase sumiu da cabeça. Agora era a cena da discussão que acabara de se envolver com a mãe e nas consequências que aquilo poderia trazer a sua irmã. Não fazia por mal, mas por se sentir bem vivendo como queria. Desde criança sempre se sentia à vontade só com o pai, até Samantha nascer, aos seus sete anos. Antes, de segunda a sexta frequentava a escola e os cursos da tarde, desejando só voltar às dez da noite, que era o horário que seu pai estava em casa. Depois do nascimento dela, tanto na escola quanto nos cursos, só pensava em voltar logo a casa para poder curtir sua irmãzinha.

Foi difícil para ele? Sim. Mas sabia o quanto foi mais difícil para ela o dia em que saiu de casa para morar sozinho. Só tinha onze anos, e por mais que fosse mais madura do que a idade que tinha, não entendia aquilo. Chorava dizendo que ele não gostava mais dela e a estava abandonando. Só depois, durante a adolescência, que ele pode sentar e explicar tudo a ela, que, por fim, entendeu e concordou com aquela decisão tomada anos atrás. Mas desde que foi morar sozinho, raramente aparecia na casa dos pais. Quando Jesus o chamava para conversar, sempre preferia ir direto à empresa a aparecer por lá. E quando aparecia, Samantha estava no colégio ou em um dos tantos cursos que sua mãe inventava de colocar os filhos. Mesmo se vendo raramente, não foi suficiente para diminuir aquele apego que tinham um pelo outro. Então, a última pessoa que ele queria machucar daquela mansão, era ela.

Seu comportamento não era bom exemplo? Certo. Gostava de passar o dia bebendo e indo ou fazendo festinhas à noite? Sim. Tudo isso é errado? Pode ser. Mas e quanto aquilo de fazer o que a gente gosta? Só vale quando a gente não consegue fazer o que quer? Isso sim é errado. Pensava. Precisava conversar com alguém. E a única pessoa com quem se abria, era seu amigo de infância e advogado, César. Tirou o celular do bolso e ligou.

– Fala comigo. – diz César do outro lado da linha.

– Está em algum trabalho agora?

– Acabei de sair de uma audiência.

– Ganhou ou perdeu?

– E desde quando eu perco alguma coisa? Até parece que não me conhece. – faz graça.

Filho do melhor amigo de seu pai, o Danilo, que, inclusive, era o advogado da empresa. Assim como Danilo e Jesus, Miguel e César eram amigos inseparáveis de infância. Estudaram na mesma escola até completarem, quando César foi cursar Direito e Miguel Administração. Mesmo assim, se encontravam todo dia depois da faculdade e iam para os mesmos lugares nos finais de semanas. Em alguns pontos, César era praticamente uma cópia de Miguel, enquanto em outros, era completamente o avesso. Miguel não se importava em perder e, dependendo da situação, até achava graça e ficava feliz com a derrota. Já César, era o tipo de pessoa que não aceitava perder nem em jogo de azar. Se não fosse por Miguel, teria perdido uma fortuna quando foram em Las Vegas tentar viver um remake de “Se beber, não case”, que não foi nem de perto igual, pois, afinal, realidade é diferente de ficção. Mas nem por isso deixou de ser uma noite memorável. Um fato, talvez, nada interessante, é que, Miguel nunca se envolveu em um relacionamento sério… Já César, quatro relacionamentos frustrantes que não duraram mais de três meses e um atrás do outro, porém, o último tinha terminado a mais de um ano. Tentava se controlar dessa vez.

César entra no bar, cumprimenta Miguel sentado em um dos bancos do balcão.

– Meu amigo de fé, meu irmão camarada. – diz, gesticulando mais um copo ao dono. – Me conte… O que houve?

– Fui à casa dos coroas hoje.

– Eu sei. Estamos a duas quadras longe da casa deles. Você não viria lá da puta que pariu só para beber aqui, tendo o bar lá do grande Luís, que somos respeitados e “vipados”.

– Pois é.

– Então? – pega o copo com o dono e o enche, completando o de Miguel em seguida.

– Briguei com minha mãe de novo e a Sam presenciou o final da briga.

César meneia a cabeça digerindo a informação:

– Espera… – dá golada carregada. – O que exatamente a Samantha presenciou e sobre o que foi a briga?

– Algum filho da puta da igreja da minha mãe descobriu o Prazer Angelical e que é meu. Daí ela acha que eu virei cafetão virtual, criminoso e blábláblá.

César tentou segurar o riso, mas não conseguiu.

– Pois é. Quando meu pai me contou eu tive uma reação parecida com a sua. Chorei de rir, até.

– E quanto aos outros “empreendimentos”? – aspas no ar com os dedos.

– Ainda não sabem.

– Pretende contar?

– Só pro meu pai, lógico.

– Compreendo. E foi isso que a Samantha ouviu?

– Não… – respirou fundo. – Minha mãe dizendo que sou mau exemplo e que só falta o coração da Sam pra eu partir.

– Nossa. – passa uma das mãos no pescoço. – Dona Fabíola é bem profunda às vezes, mas… Você sabe que não é verdade. Certo?

– Como não, César? Eu pouco me fodo pra Deus e o mundo. Mas é a porra do meu jeito. Simplesmente sou assim, caralho. – se exalta.

– Tudo bem… Pode se foder pra Deus e o mundo, mas seu pai e sua irmã são anjos na Terra pra você, não? Se bem que é fato que o amor que tem pela Samantha é incondicional. Tenho certeza que mesmo se você estiver em casa destruído de tanto álcool e com mulheres espalhadas pela casa, na hora que ela te ligar, você levanta e vai.

Silêncio.

– E por seu pai também.

– Por você também, filho da puta. – diz aos risos.

– Eu sei. Mas eu não estou no caso agora, deixa eu fazer minha parte.

E então, com isso, seus olhos se encheram de lágrimas. César o abraça:

– Relaxa. Sua mãe faz e fala essas coisas sem pensar. Já era pra estar acostumado.

– Mas essa porra dói, cara. – respira fundo. – Dói pra caralho ouvir. Ela sabe que eu cago pro que ela fala e não vou mudar. Independentemente do que ela faça ou diga, mas recentemente ela descobriu que metendo a Sam na história… Me fode. Me fode pra caralho, porra.

– Eu sei. É um tanto que covarde, mas…

– Covarde? É desumano, César!

– Ela ainda fala aquele lance de que você limpa a bunda com os dois diplomas?

– Isso nunca vai mudar.

– Se ao menos você contasse sobre os seus negócios… Ela veria que não é bem assim. Por mais que esses negócios sejam…

– Nada. – o interrompe. – Deixa. Independentemente do que eu faça, ela devia estar feliz por eu estar feliz. Sabe? Só isso. O quão difícil é?

– Vai entender. – dá de ombros.

– Pois é.

– E seu pai? O que falou sobre isso?

– Ela é malandra, ela não faz isso enquanto ele está perto.

– Mas ele estava presente uma hora ou outra, não?

– Sim. Meu pai quase chorou com eu e ela gritando um com o outro. Preferiu sair e conversar depois.

– Por que ele não tomou uma posição de homem da casa e deu um basta nisso? Ou, sei lá…

– Está louco? Meu pai é perdido de amores pela minha mãe e totalmente encoleirado. Você sabe disso. Faz tudo que ela quer sem pensar duas vezes. Um dia ainda vou entender o que se passa na cabeça dele. Não sei como ele a aguenta há tantos anos. Mas vamos mudar o assunto, já está me dando nojo.

– O que faremos hoje à noite?

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