Leugim: 06 – Merdas “Happens”! (Parte 1)

Horas depois Miguel foi para seu quarto com Helen e Olívia, assim como os outros dois casais, que foram para os quartos de hóspedes. Lá pelas três horas da madrugada, enquanto as duas dormiam como pedras ao seu lado, ainda estava acordado pensando na repentina aparição de sua irmã, que ajudou ao álcool não fazer o devido efeito. Ela não podia ter aparecido assim de surpresa, visto que ele já havia negado sua visita. Levantou, vestiu uma bermuda e sorrateiramente saiu do quarto, evitando fazer barulho enquanto descia as escadas e saia da casa, indo ao jardim. Avistou Eduarda sozinha sentada na beirada da piscina, bebendo, ouvindo som baixo e olhando seu lento balançar de pernas n’água. Foi até o minibar, pegou cerveja e se aproximou dela cantando Proud Mary junto da banda Creedence Clearwater Revival.

– Que susto me deu agora, garoto. – diz Eduarda com a mão esquerda no coração, espantada.

– Essa música é foda. – dançando ao ritmo da música.

– Elas não te deram canseira? – pergunta aos risos, sem entregar a inveja que sentia das duas.

– Pior que deram. – sentou ao seu lado. – Uma coisa que não sai da cabeça não me deixa dormir nem ao álcool fazer efeito.

– Aquela sua namorada que apareceu hoje?

– Namorada? – ri. – É minha irmã.

– Sério?

– Sim. A caçula da família. O anjo da minha vida.

– Nossa! Sua irmã é linda. Quantos anos ela tem?

– Dezoito. Mas pode tirar o olho, pois ela é evangélica.

– Que pena. – encena estar desapontada com a notícia. – Mas a cena que ela fez parecia ser sua namorada.

– É uma longa história.

– Incesto?

– Está maluca? – quase engasga com a cerveja.

– Pensei que estava zoando.

– Antes fosse.

– Quer conversar sobre? – e segundos de silêncio depois: – Vou pegar outra long neck. – levanta. – Pensa aí. Se quiser conversar, na volta vou estar a ouvidos. – faz carinho em seus cabelos e se afasta.

Fica pensativo olhando para a garrafa vazia boiando na piscina, balançando pelas ondulações que ainda se criaram com os movimentos que Duda estava fazendo com as pernas.

Ela volta e senta a seu lado. Olha para o seu rosto. Olha para a garrafa. Volta a olhá-lo.

– Miguel? – traz sua atenção a ela.

– Oi. – diz em estado automático.

– Está tudo bem?

– Sim. – pisca forte, voltando ao local. – Vou fazer um resumo… A Samantha…

– Quem é Samantha? – o interrompe.

– Minha irmã.

– Ah! Sim.

– Ela, meu irmão mais velho e minha mãe são evangélicos. Eu e meu pai somos… Ateus, digamos assim, mas não é bem isso. Não temos religião, porém… – respira fundo, achando graça da falta de palavras. – Enfim… Desde criança não me dou bem com meu irmão e minha mãe, somente com meu pai e a Sam. Meu pai é quase a minha versão mais velha… Ah, nada. Bom… – esfrega o rosto rápido com a mão livre. – Desde moleque ouço minha mãe me chamando de ovelha negra da família, que eu sou completamente errado e que uma hora ou outra ela ia conseguir me pôr nos trilhos.

– E pelo visto ela falhou na missão, né? – brinca.

– Né? – ri junto. – Eu e a Sam sempre fomos muito ligados um ao outro, até por que o Gabriel desde criança sempre foi muito sério. O “exemplo” de filho pra minha mãe… Pra qualquer mãe, assumo. Na escola nunca tirava menos de nove, sem meus pais ficarem cobrando. E desde que terminou a faculdade de administração e começou a trabalhar na empresa do meu pai, meu coroa pode ficar anos sem aparecer na empresa e quando voltar, tudo vai estar em ordem… Graças ao Gabriel. Então, quem brincava com ela como se tivesse à mesma idade, era sempre eu. E desde criança, meu santo e o dele não se batem. Não batem MESMO. Posso lhe dar certeza de que sou óleo e ele a água.

– Nossa. Não deve ser isso tudo.

– Pode acreditar. É! – tirou o maço de cigarros da bermuda, acendeu e colocou o maço entre ele e Eduarda.

– Posso pegar um?

– Não tinha parado?

– Reduzindo!

– Então pega, porra, não pede. – diz aos risos.

Eduarda tira o cigarro:

– Tá… – acende. – Prossiga.

– Quando completei dezoito anos consegui convence-la de me deixar mudar para perto da faculdade. Foi aí que vim morar aqui, no meu Paraíso pessoal. – olhava tudo em volta e Eduarda acompanhando o passeio de seus olhos. – Com isso, perdi totalmente o contato com a Sam e no dia da minha mudança ela chorou como se o mundo estivesse acabando.

– Oh! Que linda a sua irmã.

– Eu estudava feito louco pra terminar aquela porra o mais rápido possível, pois minha mãe disse que largaria do meu pé quando eu concluísse. E antes de qualquer sonho, o primeiro era esse… Liberdade! – levantou a mão como se estivesse segurando uma espada. – Liberdade ou morte, velha! – gritou.

E Eduarda caiu em gargalhadas com a cena.

– Assim que terminei a faculdade, ao contrário do meu irmão, eu comecei outra por pura curiosidade.

– Ah, para. Ninguém faz faculdade só por curiosidade.

– Então vou ter que lhe desapontar e lhe apresentar o primeiro. Eu! – bateu no peito, orgulhoso.

– Nossa! Você é mais maluco do que eu imaginava.

– Maluco nada. Mas também que se foda isso, não tem importância.

– Se você diz… – deu de ombros.

Na verdade, por dentro ficou inconformada por ele achar que era nada. Miguel continuou:

– Aí começaram as festas diárias e tudo o mais. Foi inevitável. Comecei a ter essa vida que tenho e viciei. – riu. – Morando em uma casa enorme de dois andares, quintal gigante, piscina e blábláblá. Beber o dia todo. Festinha na piscina à noite. E todo o etecetera que veio com essa liberdade. Então, evidentemente, uma hora ou outra minha mãe iria começar a descobrir. – pausa. – Ela não aceita. Não pensa em se contentar só em saber que nunca estive tão feliz na minha vida! Agora quando a Sam fez dezoito anos, começou a me procurar mais, principalmente depois de ter entendido por que eu saí de casa naquela época. Daí eu sempre caguei pros esporros e merdas que minha mãe tinha pra falar, mas recentemente ela percebeu que pra me ferir, basta colocar a Samantha no meio do assunto.

– Eita. Que cruel!

– Né? – foi dar golada na cerveja e percebeu que estava vazia. – Vou pegar outra. Não sai daqui.

– Não saio nem com ordem de prisão. – brinca. – E traz pra mim também. – e entra na piscina em seguida.

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