Leugim: 07 – Genética é foda! (Parte 2)

Duas horas depois seu pai chega. Miguel estava se balançando deitado em um colchão plástico na piscina cantando Walk This Way da banda Aerosmith, com seu Rayban, long neck na mão direita e fazendo movimentos rápidos com a mão esquerda. Jesus pega cerveja no freezer e vai até a borda da piscina.

– Oh, vida boa. – brinca.

Miguel bate a mão na água repetidamente, fazendo o colchão girar.

– E aí, senhor sorrateiro.

– Eu tinha mais ou menos a sua idade quando eles lançaram essa música.

– O que é bom, ecoa pela eternidade, meu velho. Vai ficar de terno e gravata mesmo?

– Terno e gravata já fazem parte do meu corpo. – ri. – Estou nu, não está vendo?

Miguel desce do colchão, entrando na água.

– Vamos almoçar e depois eu te empresto uma bermuda.

– Não tem sunga?

– Sunga? – pousa as mãos na borda e impulsiona o corpo, saindo da piscina. – Você só pode estar de sacanagem com a minha cara, né?

– Qual o problema?

– Porra, pai. Olha a minha cara de quem usa sunga. – aponta para a bermuda tactel.

– Quando morava lá em casa e íamos à praia ou ao clube, você usava sunga.

– Porque a sua mulher me obrigava a usar aquela porra, se não ficaria em casa. – foi se aproximando. – Agora vem cá e dá um abraço molhado no seu filho.

– Mas nem fodendo! – e sai correndo em direção a casa.

Ao terminarem de almoçar o suculento pato assado preparado por Irina, voltaram a piscina com o intuito de continuarem a bebedeira. Miguel pegou duas long necks e foi até a borda, onde Jesus estava sentado. Entregou-lhe uma e sentou a seu lado.

– Então… Me conta melhor sobre esse seu negócio virtual.

– Bom, como eu disse aquele dia, tem várias salas… Cada uma com uma mulher diferente aparecendo na webcam. O “punha” entra, faz o cadastro, e se quiser receber um strip-tease privado ou para um determinado grupo fechado de pessoas ou usuários, que seja… Tem de pagar com créditos virtuais que são adquiridos com dinheiro real. Ele paga com o cartão de crédito, que é a única forma de pagamento que coloquei disponível. Também tem um esquema em que ela cobra uma pequena quantia de créditos para ficar com os seios de fora, mostrar isso, aquilo e etc. E os babacas vão pagando seja lá qual for a quantia que ela cobre.

– Quanto custa?

– Depende de quantos créditos a menina resolva cobrar. A mim, não interessa o quanto elas cobram em créditos virtuais, mas sim o quanto os usuários compram. Cada crédito virtual custa dez reais.

– E quantas jovens têm no site?

– Até agora dezenove.

– Onde as conheceu?

– Ah, pai… – riu. – Sou um cara vivido. Por mais que eu pegue a mulher que eu quiser, às vezes curto pagar pelo prazer.

– Se pode ter qualquer mulher, como diz… Qual a vantagem em pagar?

– Porra, pai. Já diz o nome: profissional do sexo! – desliza as mãos no ar como se abrisse enorme faixa. – Sabem e fazem coisas que as outras não sabem e não fazem. Uma “pepetinha” até a garganta, então. Oh, rapaz… – passou a mão na testa. – Te leva ao paraíso.

 Jesus solta gargalhada.

– Foi assim que fui conhecendo. Na terceira vez que eu solicitava o programa, já contava sobre a minha ideia… E como sempre fui um cliente que paga bem, elas confiam na minha pessoa e quando eu queria variar, me apresentavam outras.

– E dá dinheiro mesmo?

– Pra não fazer porra nenhuma, dá é dinheiro pra caralho. Não tem custos e gastos elevados. Com o que entra mensalmente dá pra pagar a parte delas, a mensalidade do site, o carinha que faz a manutenção pra mim e tudo o mais… E ainda sobra trinta por cento para o bolso do papai aqui. – bate de leve com a palma da mão na coxa.

– Mas trinta por cento não é nada em um negócio que é teu.

– Eu sei que o senhor está acostumado com oitenta pra cima, mas, pensa bem… – laça seu ombro com o braço esquerdo. – Não faço porra nenhuma! Só dou uma olhada vez o outra pra saber como tem ido, quanto tem saído e entrado. Não tenho nenhuma dor de cabeça.

– E com esses trinta por cento dá pra sobreviver sem receber sua mesada mensal?

– Opa. Calma. Não precisa chegar ao extremo. – brinca. – O site só tem dois meses, ainda vai crescer bastante. Esses trinta por cento amanhã ou depois vão chegar aos seus oitenta, relaxa. Fora que eu tenho outro negócio aí. Mas preciso de mais alguns meses.

– Qual?

– Ainda não é a hora de lhe contar, mas pode ter certeza que não vai demorar.

– É recente também?

– Não. Vai fazer um ano mês que vem.

– E por que nunca me contou?

– Vou explicar isso também quando contar. Fica tranquilo. E voltando ao assunto anterior… Quer uma conta com crédito ilimitado no site?

– Está maluco? Sou casado!

– Ah, pai, é virtual. Não é traição.

– Como não?

– Lógico que não. Não tem contato físico, porra. Garanto que em menos de um minuto elas colocam essa pipa velha no alto cortando arvore Massaranduba. Dona Fabíola deve tomar uma coça pra conseguir essa proeza. Isso se vocês ainda se relacionam.

– Porra, Miguel. Respeita tua mãe! – diz firme e com expressão séria.

– Ok. Desculpa. Me empolguei na parada. – acende cigarro. – Pai, sério… Um dia ainda vou entender esse tal de amor.

– Você entende quando sente.

– É. Eu sei. Todo mundo diz isso. Eu não consigo me apaixonar por uma mulher só… Sou apaixonado por todas! – sorri orgulhoso.

– Te contar uma coisa. – e fica olhando para a long neck vazia em sua mão. – Mas vamos sentar ali no minibar, pois estou com preguiça de ter que ir buscar toda hora. E desliga esse som pra podermos conversar melhor.

– Quando você faz essa cara e fala: “Te contar uma coisa”, não sei por que, mas… – levanta. – Eu sempre espero por um: “vou me separar da sua mãe!”.

– Isso nunca vai acontecer. – o acompanha até o minibar. – É mais fácil sua mãe se separar de mim do que eu me separar dela. – senta em uma das cadeiras.

 

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