Leugim: 07 – Genética é foda! (Parte 3)

Miguel fecha o Media Player.

– Você parece comigo quando tinha a sua idade… – Jesus confessa. – Não sabe o quanto.

– Mentira!

– É sério. Acha que eu também não vivi longos anos de solteiro?

– Mas vocês se casaram novos. Você tinha trinta e um e minha mãe trinta e seis.

– Isso é novo pra você? Pra mim foi quase tarde, mas dos meus dezoito anos aos meus vinte e sete eu aprontei tudo que tinha pra aprontar nessa vida. – sorri. Eram boas lembranças. – Como você sabe, a situação financeira que temos não é graças a mim, mas ao seu avô… Mas o que não sabe é que, se eu não tivesse conhecido sua mãe, eu teria queimado tudo com as minhas festas, drogas, bebedeiras e tudo que tinha direito. Estaria falido ou morto ou falido e morto.

– Mentira! – se assusta com a revelação. Nunca imaginaria ouvir seu pai dizendo que fazia aquelas coisas, e mais. Drogas? Foi isso mesmo?

– Juro. Eu fiz todos os planos do meu pai para substituí-lo um dia, mas não deixava de viver a vida, bem assim como você faz… Só que eu já trabalhava na empresa. Nas horas vagas que eu tocava o terror. Papai estipulou que eu trabalhasse de dez horas da manhã até as três, pois ele mesmo dizia que queria que eu vivesse antes de ter que pegar grandes responsabilidades. Que eu tinha que viver até o impossível, pois uma hora ou outra chegaria a hora de me casar e sustentar minha família e a farra teria o seu fim.

– Ah! – bate rápido com o punho na mesa e aponta na direção do pai. – Então é por isso que você não esquenta com as coisas que eu faço!?

– Exatamente. Mas sua mãe… Ela tem medo que você faça as mesmas coisas que eu fiz e diferente de mim, não consiga parar na hora certa… Até por que, como a gente sabe quando é a hora certa?

– Entendo.

– Seu avô morreu um ano depois que me deu essa liberdade. Ali era a hora certa, mas como eu iria saber? Meu pai tinha acabado de me dizer pra viver e fazer o impossível na vida. Então deixei o vice-presidente tomando conta e continuei minhas farras. Fiquei tão rabugento que sempre que ele aparecia pra me mostrar que meus gastos estavam começando a pesar cada vez mais nos fundos da empresa, eu esfregava na cara dele que o dono era eu e faria o que eu bem quisesse. E quem discordasse daquilo, deveria arrumar as coisas e tomar o caminho da rua. Que a negatividade era fase e uma hora ou outra iria voltar ao normal.

– Porra. Você era mais escroto que eu.

 Jesus ri.

– Fazer o que quer da vida e achando que seu dinheiro é ilimitado, você se sente Deus. Dinheiro dá poderes que a gente não consegue controlar e, se ele vai embora e a gente perde nossos poderes… O que a gente faz?

– Se fode?!

– Por aí. – acha graça. – Quando conheci sua mãe eu estava prestes a entrar em estado de decadência. A empresa praticamente só funcionava pra manter meus gastos e vira-mexe tinha que mandar alguns funcionários embora por conta disso. E mandava mesmo, não queria saber quem era, quantos filhos tinha pra sustentar, se era produtivo ou se faria falta. Não queria saber de nada, mesmo.

– Como conseguiu a proeza de se envolver com uma evangélica? Melhor, como uma evangélica se encantou por uma alma perdida como a sua? – pergunta aos risos.

– E quem te disse que sua mãe sempre foi evangélica? Ela conheceu o caminho de Jesus depois que a gente se conheceu.

– Ah! Ela se apaixonou por um Jesus e decidiu ir atrás de outro Jesus?

– Olha a blasfêmia!

– Foi mais forte que eu.

– Como você sabe, a mansão que nós vivemos eu herdei do seu avô. E conheci sua mãe em uma festa de arromba que eu dei lá. Ela era amiga do Danilo.

– Pai do César?

– Sim.

– Nunca imaginaria que minha mãe e o Danilo já foram amigos.

– Sua mãe se afastou de todas as amizades quando entrou pra igreja. Continuando… Eu tinha vinte e sete anos e ela, mais madura e muito louca, tinha trinta e dois, se não me engano.

– Minha mãe? Muito louca? – desacreditado. – Pai, você está inventando essa história. Não é possível.

– Mas é pura verdade. Por incrível que pareça, Miguel. – gole carregado na cerveja. –Sei que ela não gosta de contar sobre a época antes da igreja, então não tem como perguntar. Ela, desde então, só diz que Jesus apagou de sua memória a época em que vivia no caminho da escuridão. – inevitavelmente acha graça e ri. – Mas quando estiver com o Danilo, pergunta a ele.

– Lógico que vou perguntar.

– Mas mesmo sendo muito louca, sempre teve a cabeça no lugar. Nossa. Dava inveja ver aquela mulher linda de morrer toda centrada e louca ao mesmo tempo. Sabia a hora de brincar e a hora séria. Depois de alguns anos que a parte da brincadeira foi sumindo, principalmente depois que se converteu. Aí só ficou a parte séria.

– É realmente muito difícil de acreditar. – independente do que seu pai falasse, continuaria incrédulo. – Mas, beleza, continua.

– Eu não queria ter filhos. Odiava a ideia de ter uma criança toda cagada e cheia de meleca escorrendo andando pela casa. – olhou sério para Miguel. – E sei que você nunca ousará contar isso pra ninguém.

– Lógico que não… Mas… O quê?

– Quando ela me deu a notícia que estava grávida, a primeira coisa que eu pensei foi em pegar um avião e fugir pra Europa, na casa dos parentes que temos lá. Mas nessa mesma época o Vice-presidente faleceu em um acidente de avião, então, além de eu ter ficado com medo de avião, tinha chegado a hora de segurar as contas da empresa… Até por que, não tinha mais ninguém pra segurar a onda por mim. A única pessoa de confiança na empresa que meu pai havia me deixado, a vida também levou. Então tive que ficar, assumir o filho e a empresa. Mas já tinha perdido completamente as manhas que meu pai ensinou… Quem meteu a cara comigo?

– Minha mãe?

– Sim. Parecia que ela tinha nascido praquilo. Ela pegava as coisas rápido e me explicava. Passamos um bom perrengue pra cuidar do Gabriel e levantar novamente a empresa, mas quando eu peguei a manha novamente, ela não precisou mais segurar a onda comigo. Conseguimos restabelecer metade do que tínhamos perdido quando seu irmão completou quatro anos. Aí sim, eu estava feliz da vida, me sentindo sujeito homem e queria comemorar. Sabe como eu quis comemorar?

– Não faço a mínima ideia. Relembrando os tempos de farra? – ri.

– Não. Querendo mais um garotinho cagado e cheio de meleca andando pela casa.

– Eu? – seu rosto cora.

– Sim. – esfrega os cabelos de Miguel relembrando quando era um garotinho ouvindo suas histórias de vida “light”.

– Mas não disse por que minha mãe se converteu.

– Pensei que ia conseguir passar batido dessa parte. – assume risonho. – É melhor eu tomar uma bebida mais forte. Prepara um uísque ali pra gente.

– Beleza. Mas não vai me fazer esquecer igual fazia quando era criança e você não queria me contar alguma coisa.

– Droga! – brinca. – Fui descoberto.

Miguel prepara dois copos com uísque. Entrega para o pai e fica com o outro. Jesus vira em uma golada só e respira fundo, enquanto sente aquela ardência por dentro.

– Sua mãe quase perdeu o Gabriel no parto. E foi uma fase muito difícil pra ela. Ficava dias trancada no quarto com seu irmão, com medo de alguma coisa que até hoje não faço a mínima ideia do que pudesse ser.

– Por isso Gabriel e Miguel? Para que fôssemos “protegidos” – aspas com os dedos no ar. – pelos anjos?

– Não. Coloquei Gabriel e Miguel que, por mais que eu não tenha religião, gosto muito da história dos anjos. Na verdade seu irmão se chamaria Miguel, pois é o anjo mais velho e você ficaria com o Gabriel. Mas no dia que eu estava indo ao cartório, o nome do tabelião era Gabriel e entendi como pista… Não sei explicar. Enfim… Quando sua mãe saiu do quarto, veio com uma conversa de que Jesus conversou com ela, dizendo que protegeria seu irmão se ela o aceitasse. Ou algo parecido.

– Eita porra. Que doideira, hein. – misto de espanto e vontade de rir.

– Foi aí que ela se converteu. Mas, continuando a história… Você nasceu. Sete anos depois, a empresa já tinha restabelecido tudo que tinha perdido. E como eu quis comemorar?

– Samantha!

– Exatamente. Vocês foram meus amuletos da sorte pra manter aquelas conquistas. Por fim… Não sei pra que contei essa história toda, se eu só queria falar que… Assim como meu pai me disse um dia, eu lhe digo o que nunca pude falar pro Gabriel. – o encara sério e como se fosse ordem: – Viva até o impossível, pois uma hora ou outra vai ter que segurar o pepino das grandes responsabilidades… De casar, sustentar uma família e etc.

– Eu desconfio que essa parte de casar e ter filhos nunca chegará, mas sei que uma hora outra vou ter que sustentar meu corpo com minhas próprias pernas. Pode ficar tranquilo com relação a isso. Estou ligado nessa parada faz tempo!

– Estou tranquilo. Só espero que entenda a sua mãe. Sua irmã e seu irmão puxaram a ela e você puxou a mim. Isso é o que mais a assusta.

– Você disse algo parecido naquela vez que eu bati no Gabriel.

– Lembra que eu disse que um dia entenderia?

Jesus olhou para Miguel, que agora estava pensativo.

– É, pai… Genética é foda!

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