Leugim: 09 – Jovem demais para entender (Parte 2)

Miguel permaneceu sentado na piscina, pensando na notícia que acabou de receber. Perceber que por mais que praticamente se odiassem, seu irmão não o convidaria para seu casamento, o afetou. Fato! Não sabia se encarava como atitude infantil ou madura, e se deveria tratar à altura ou de forma que achasse superior sem se rebaixar. Fora que nem sabia como alguém conseguiu se apaixonar por aquele ser frio que era o irmão. Parecia piada imaginar Gabriel se casando, mas, realmente estava prestes a acontecer. Nunca foi apresentado a ela e entendia o motivo. E já que iriam se casar, o relacionamento existia há anos.

Começou a se lembrar das primeiras brigas com o irmão mais velho, quando ainda eram crianças. Gabriel sempre preferia ficar no quarto estudando e fazendo os deveres da escola ou dos cursos, do que brincando com ele, como crianças deveriam estar fazendo. Foi um dos primeiros passos do afastamento entre eles. Chegou dia que Miguel se cansou de chamá-lo para brincar e sempre ouvir a mesma frase: “Não tenho idade para brincar contigo. Você é criança demais”. Mas como assim? Só tinham quatro anos de diferença. Importava tanto? E os anos foram passando. Gabriel com quinze cursava o primeiro ano do ensino médio, Miguel com onze cursava a quinta série. Enquanto Gabriel andava com os mais inteligentes da escola, líder do Grêmio Estudantil, Miguel andava com os mais bagunceiros, líder da baderna estudantil. Certo dia se meteu em uma tremenda confusão no intervalo. Pensou que Gabriel o salvaria por ser do ensino médio e seu irmão mais velho. Porém, quando os garotos que queriam bater nele foram perguntar, negou que fosse seu irmão. Foi a primeira vez que se meteu em briga e a primeira vez que apanhou feio. Preferiu não contar aos pais quanto a declaração de Gabriel e prometeu a si mesmo fazer igual: não vê-lo mais como irmão e na primeira oportunidade que ele viesse pedir ajuda, daria as costas sem pensar duas vezes, seja lá qual fosse a situação. Até hoje esse dia ainda não havia chegado. Gabriel era do tipo de que não pedia, nem precisava de ajuda com nada. Então, com isso, passaram a se falar apenas por educação e na frente dos pais. Foi aí que passou a dar toda a sua atenção a Samantha e não deixar que passasse por aquele estranho irmão mais velho.

Quando Gabriel entrou para a faculdade, novas mudanças. Metia a colher nas broncas que a mãe lhe dava, concordando e dizendo que Miguel não tinha jeito e que nunca conseguiria ser alguém na vida, que devia vê-lo como exemplo. Certo dia quando alguns amigos de faculdade foram a sua casa fazer trabalho, um deles sem se importar que Miguel ouvisse, perguntou a ele se aquele era o irmão sem futuro e de QI inferior. Gabriel aos risos confirmou e completou dizendo que um dia teria que sustentá-lo se não quisesse vê-lo nas ruas pedindo esmola. Nessa noite Miguel chorou até o dia seguinte e repetiu no mínimo cem vezes “Eu te odeio, Gabriel!”, enquanto socava a almofada. Com dezessete anos começou a beber. Quando chegou a casa embriagado, Miguel tentou lhe dar lição de moral. Não queria trocar palavras, mas socos e pontapés. Gabriel era bom e podia ganhar com palavras, mas ele descobriu que ganhava na pancadaria e que era bom nisso. Jesus teve que vir correndo apartar a briga, antes que conseguisse fazer o irmão sangrar de tanto soco levado. Nunca se esqueceu da conversa que teve com o pai quando aquele fato ocorreu. Foi a primeira vez que viu seu pai furioso.

– Não me importa que você tenha começado a beber… – disse Jesus. – Está na fase mesmo e se é isso que quer, não sou eu quem vai te impedir. Até por que não sou exemplo algum, também bebo e comecei a beber mais cedo que você. Mas me importo se você chegar bêbado e agressivo. Isso sim não é nada legal.

– Eu não estou agressivo. – disse frio.

– Então por que agredir seu irmão? Sabe que o que ele tem de inteligente não tem de força. Já você, desde aquela primeira surra que tomou na escola quis se aventurar em aprender artes marciais. Te coloquei naquelas merdas pra aprender a se defender. E não pra…

– Pai, você não entende. – o interrompe.

– O que eu não entendo Miguel? Me explica para que eu possa entender.

– Já estou cansado daquele merda me julgando. Já estou cansado daquele merda se sentindo superior… Já estou cansando de muita coisa, pai. Agora eu mostrei a ele no que posso ser superior!

Ao desabar em choro, deixou Jesus sem saber o que fazer. O abraçou.

– Ele pega no seu pé, pois se importa com você. Sabe como é a cabeça do seu irmão e da sua mãe. Eles não entendem essas coisas… Digamos que… Do mundo, como eles chamam.

– Não é isso. – e chorava de soluçar.

– É o que então? Você está me assustando já e quero entender o que está havendo de verdade entre vocês dois. Independentemente do que seja eu prometo que vai morrer entre nós.

E então, tomou coragem e contou toda a história ao pai, desde quando ainda eram crianças. Na hora, Jesus quis sair daquele quarto e dar bela bronca em Gabriel, mas como prometeu que morreria entre eles, havia nada que pudesse fazer. Devia cumprir com sua palavra.

– Vamos fazer o seguinte…

– O quê?

– Quando você sair pra beber com seus amigos, não durma em casa, pra que ele ou sua mãe fiquem lhe julgando ou querendo dar lição de moral… Me liga e avisa que vai dormir na casa de algum amigo e está tudo bem.

– Mas minha mãe não deixa eu dormir na casa de ninguém.

– Deixa essa parte comigo.

– Tem certeza?

– Não parece, mas eu sou seu pai, porra. – diz aos risos. – Também tenho direito de deixar ou não você fazer alguma coisa.

Miguel sorri, apreciando a ideia e admirado com a atitude do pai.

– Estamos combinados assim?

– Estamos. – o abraça. – Pai…

– Diz.

– Eu estava pensando essa semana… Quando eu começar a faculdade, será que eu consigo convencer minha mãe de morar perto da faculdade? Só assim eu evito essas brigas diárias com os dois.

            – Vamos saber quando esse dia chegar.

            – Você me ajuda com ela como vai ajudar agora?

            – Tem certeza que é isso que quer? Vai ficar longe não só deles, mas de mim e da sua irmã, que não tem nada a ver com essa história.

            – Eu sei. Mas eu não vou sumir, posso continuar vindo visitar vocês dois aqui, sempre.

            – Você não tem ideia no quanto me dói saber que vocês três brigam todo dia, não é? – diz Jesus tentando segurar a dor no peito.

            – Não fui eu que comecei isso, pai. Eles que…

            – Não diz nada. – Jesus o interrompe calando sua boca com a mão. – Um dia você vai entender muito mais do que já entende hoje.

            – Se você quiser, eu fico.

            – Não. Pelo contrário, quero ver você fazendo o que te faz feliz. Se acha que ficará melhor morando sozinho, que sua vontade seja feita.

            – Obrigado, pai. Se o senhor não me entendesse, acho que eu iria enlouquecer dentro dessa casa. Não consigo pensar e agir como eles. Nem em como lidar com isso, já que eles não sabem lidar comigo.

            – Entendo.

            – E você tem que me prometer mais uma coisa.

            – O quê?

            – Não os deixem transformar a Sam nesse tipo de pessoa escrota também.

            Jesus ri.

            – Estou falando sério, pai.

            – Não posso te prometer isso.

            – Por quê?

            – Um dia prometi a mim mesmo que deixaria meus filhos se transformarem no que eles bem quisessem.

            – Mas…

            – Sem “mas”. Sua irmã será o que ela quiser ser.

            – Mas você não entendeu.

            – Sim, eu entendi. Você quem não está entendendo.

            – Não, pai. Sério.

            – Tudo bem. Me explica.

            – Minha mãe transformou o Gabriel a ser igual a ela, mas eu fui forte e não fui para o lado negro da força. Mas a Sam, minha mãe pode conseguir levá-la.

            – Aí que se engana. Raramente um filho se transforma naquilo que os pais querem. Acredite em mim, um dia você vai entender isso. Conforme vamos amadurecendo, a vida vai dando respostas para as perguntas de anos atrás. Basta termos um bom olho para as pequenas coisas. Os grandes detalhes mais preciosos são feitos dos pequenos detalhes que às vezes nos passam despercebidos… Se você não entende o que originou um grande detalhe, vai entender bem pouco da vida. E grandiosos são aqueles que aprendem com a vida.

            – Espero que eu não demore muito a entender essas coisas.

            – Não tenha pressa nem medo. Você é jovem demais pra entender, mas entenderá.

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